Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

JORNAL DE DEBATES > LEITURAS DO ‘GLOBO’

Acústica e insetos, combinação indigesta

Por Felipe A. P. L. Costa em 20/08/2013 na edição 760

Na quinta-feira (8/8), o sítio eletrônico The Telegraph, do grupo inglês de multimídia Telegraph Media Group, publicou uma matéria intitulada “The bushcricket as loud as a power saw” , de Richard Gray. No mesmo dia, o jornal O Globo publicou uma versão em português, intitulada “Cientistas descobrem um dos animais mais barulhentos do planeta”. A origem da notícia, ao que parece, foi uma nota (ver “Rare bushcricket’s chirp as loud as a power saw”) divulgada pela assessoria de comunicação da Universidade de Lincoln (Inglaterra), em 23/7 (atualizada em 31/7).

As descobertas científicas que estão por trás dessa história foram relatadas em um artigo (ver CHIVERS et al. 2013) cuja versão eletrônica apareceu na revista técnica Bioacoustics, no dia 23/7. O artigo, assinado por quatro pesquisadores (três de duas universidades inglesas, Lincoln e Bristol, e um de uma universidade colombiana, a Universidade Distrital Francisco José de Caldas, em Bogotá), lida basicamente com duas coisas: 1) descreve a (inusitada) mecânica da produção de som em uma espécie neotropical de esperança, Arachnoscelis arachnoides (inseto ortóptero da família Tettigoniidae); e 2) faz uma comparação entre o aparelho estridulatório de A. arachnoides e os de algumas espécies próximas.

Transformando um país em distrito

Mesmo deixando de lado os aspectos mais caricatos (e.g., afirmações do tipo “insetos mais barulhentos que uma serra elétrica” ou “o inseto mais barulhento do mundo”), tão habituais em notas de assessoria ou matérias jornalísticas que abordam assuntos ou objetos com os quais o leitor não tem muita familiaridade, alguns problemas chamam a atenção. Um deles é que a matéria do The Telegraph (assim como a versão em português) induz o leitor a pensar que as esperanças do gênero Arachnoscelis são muito parecidas com aranhas. E isso não é bem verdade. De fato, a despeito do nome científico da espécie, ouso dizer que é relativamente simples e fácil perceber que estamos diante de um inseto, e não de uma aranha. Aliás, no caso da versão publicada em O Globo, a própria fotografia que ilustra a matéria demonstra o que estou dizendo.

Um segundo problema da matéria original é que ela informa que a espécie ocorre em “Columbia”. Na verdade, a espécie é nativa da Colômbia. Uma rápida consulta ao resumo do artigo de Benedict Chivers e seus colegas (CHIVERS et al. 2013) esclareceria prontamente a origem geográfica do inseto (tradução livre; grifos meus):

Este artigo ilustra a biomecânica da produção de som na esperança [katydid] neotropical […]. […] Nós encontramos uma população abundante de A. arachnoides no centro-nordeste da Colômbia […].

Esse pequeno deslize – talvez um erro de digitação, resultando na troca de um “o” por um “u” – teve conseqüências desastrosas na versão em português. No parágrafo de abertura da matéria de O Globo, lemos o seguinte (grifos meus):

“Columbia – Descoberto em 1891, pensava-se que o inseto Arachnoscelis arachnoides estivesse extinto, já que nenhum outro exemplar tinha sido encontrado desde então. Mas no ano passado ele foi redescoberto no distrito de Colúmbia, nos Estados Unidos, e biólogos da Universidade de Lincoln agora se deparam com um dos animais mais barulhentos do planeta.”

Uma dupla barbeiragem. A primeira: citar Colúmbia como origem da notícia; quando, no caso, me parece que o correto seria informar a cidade sede (Londres) do sítio de onde a matéria foi extraída. A segunda: reproduzir e ampliar um erro do texto original, informando que o inseto teria sido “redescoberto” no Distrito de Columbia (EUA). É verdade que a matéria do The Telegraph não informa que A. arachnoides é uma espécie restrita aos trópicos americanos, mas não custava nada checar a informação. Afinal, a matéria original mencionava apenas “Columbia”. Só para constar: o referido Distrito de Columbia está situado em latitudes temperadas (entre 38º e 39º N), bem distantes das latitudes tropicais.

Os insetos ortópteros

Além de reproduzir ou ampliar problemas já contidos no original, a matéria de O Globo acrescentou outros, como chamar o inseto de “gafanhoto”. Como foi dito antes, A. arachnoides é uma esperança. Não custa lembrar: gafanhotos, grilos e esperanças são insetos aparentados, mas representam linhagens distintas e, portanto, não devem ser confundidos entre si. É verdade que a diferenciação entre uns e outros nem sempre é simples e óbvia (e.g., algumas esperanças podem ser confundidas com grilos ou mesmo com gafanhotos), mas não é nenhum bicho-de-sete-cabeças.

Já tive chance de discutir essa questão (i.e., a confusão entre diferentes grupos de ortópteros) em artigo anteriormente publicado neste Observatório (ver “A falta que a esperança faz”), de sorte que não há necessidade de repetir aqui todos os comentários feitos naquela ocasião. (Curiosamente, antes, como agora, as matérias jornalísticas aqui comentadas foram produzidas a partir de descobertas que envolviam bioacústica de insetos.) Para finalizar, apenas reapresento a seguir uma breve caracterização dos referidos grupos de ortópteros, a saber:

>> Ordem Orthoptera: abriga insetos (gafanhotos, grilos, esperanças) que se caracterizam pela presença de fêmures dilatados no terceiro par de pernas, o hábito de saltar e a estridulação (i.e., produzir sons atritando uma parte do corpo contra outra); são conhecidas aproximadamente 25 mil espécies viventes, as quais estão arranjadas em duas subordens, Ensifera e Caelifera.

>> Subordem Ensifera: abriga esperanças e grilos. Esperanças: antenas longas, em geral tão ou mais longas que o corpo; tarsos com quatro segmentos; ovipositor alongado, laminar; estridulam principalmente durante a noite; órgãos auditivos localizados na base das tíbias anteriores; disposição das asas sobre o corpo em “V” invertido, lembrando o telhado de uma casa; coloração variável, embora muitas espécies tenham o corpo esverdeado; uma única família: Tettigoniidae (6,9 mil espécies). Grilos: antenas longas, em geral tão ou mais longas que o corpo; tarsos com três segmentos; ovipositor alongado, mais ou menos cilíndrico; estridulam tanto durante o dia como à noite; órgãos auditivos localizados na base das tíbias anteriores; disposição das asas sobre o corpo lembra um “C” deitado; coloração do corpo predominantemente escura (preta ou marrom); espécies viventes estão acomodadas em várias famílias, como Gryllidae (4,7 mil espécies) e Gryllacrididae (700).

>> Subordem Caelifera: abriga apenas gafanhotos. Gafanhotos: antenas curtas, em geral com menos da metade do comprimento do corpo; tarsos com três segmentos; ovipositor curto; estridulam durante o dia; órgãos auditivos localizados nos lados do primeiro segmento abdominal; disposição das asas sobre o corpo em “V” invertido, lembrando o telhado de uma casa; coloração variável, embora muitas espécies tenham o corpo esverdeado ou amarronzado; várias famílias, incluindo Acrididae (6.5 mil espécies) e Tetrigidae (1,7 mil).

Espero que essa caracterização seja útil, a ponto de evitar que algumas barbeiragens mencionadas neste artigo sejam cometidas de novo por repórteres ou editores que venham a se deparar no futuro com novas pautas envolvendo acústica e insetos.

Referência citada

CHIVERS, B. & outros três coautores. 2013. “Ultrasonic reverse stridulation in the spider-like katydid Arachnoscelis (Orthoptera: Listrosceledinae)”. Bioacoustics: The International Journal of Animal Sound and its Recording, DOI: 10.1080/09524622.2013.816639.

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Felipe A. P. L. Costa é biólogo e escritor; autor, entre outros, de Ecologia, evolução & o valor das pequenas coisas (2003)

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