Terça-feira, 24 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº963

JORNAL DE DEBATES > ECOS DOS PROTESTOS

Das ruas ao STF, a intolerância que leva ao vale-tudo

Por Ricardo Kotscho em 20/08/2013 na edição 760
Reproduzido do blog do autor, 18/8/2013

O país tem vivido dias de extremada intolerância, como se pode notar inclusive pelos comentários publicados neste Balaio, na base do “ou você pensa como eu ou é um idiota, um vendido, um sem-vergonha, um velho gagá”. Discordar de alguém, ter uma opinião diferente, chamar a atenção para o outro lado da moeda, pode ser um perigo cada vez mais presente, seja na internet, nas cartas dos leitores nos jornais ou nas discussões no boteco da esquina.

O resultado desse clima de vale-tudo, que saiu das ruas para os gabinetes e invadiu a mídia velha ou nova, é o quebra-quebra diário que vemos nas principais cidades do país, atormentando milhões de pessoas e impedindo o nosso sagrado direito de ir e vir. E que terminou no bate-boca, no arranca-rabo, no fuzuê, como queiram, que tomou conta esta semana do plenário do Supremo Tribunal Federal.

Parece que, de uma hora para outra, foram revogadas todas as regras e as leis estabelecidas para ordenar uma sociedade minimamente civilizada, em que devem existir limites para tudo, direitos e deveres claramente estabelecidos, principalmente para evitar estes atos que agridem outros cidadãos.

Qualquer pretexto

Pois foi isso que aconteceu no STF na quinta-feira (15/8), quando o seu presidente, Joaquim Barbosa, acusou o colega Ricardo Lewandowski de estar cometendo uma “chicana” jurídica, expressão que não se admite ser usada por qualquer juiz para um advogado, por melhores razões que possa ter, quanto mais dirigida por um ministro a outro na mais alta corte do país.

Tem razão o Elio Gaspari quando dá o título “Barbosa deve desculpas a Lewandowski” à sua coluna de hoje na “Folha”, em que propõe: “Na quarta o ministro Joaquim Barbosa deveria pedir desculpas ao seu colega Ricardo Lewandowski, diante das câmaras, na corte”. Alguém acredita que isso possa acontecer, com o já protuberante ego do presidente do STF inflado pelos porta-vozes do Instituto Millenium, que estão salivando à espera da hora de ver todos os réus do mensalão atrás das grades?

Gaspari diz o óbvio, que Barbosa ainda parece não ter entendido: “Mesmo quando tiver razão, o presidente do Supremo deve respeitar os outros, sobretudo os colegas”. O presidente do Supremo Tribunal Federal, assim como a presidente da República, ou os presidentes da Câmara e do Senado, podem muito, mas não podem tudo, da mesma forma como meia dúzia de revoltados “com tudo isso que está aí” não podem fechar por sete horas as principais vias públicas do Rio de Janeiro.

A consequência destes (maus) exemplos vindos de cima é que agora não é preciso nem ter motivos para fechar as ruas, quebrar agências bancárias ou derrubar bancas de jornal. Qualquer pretexto serve, ou mesmo pretexto nenhum, como vimos esta semana em São Paulo, quando uma pequena turba tentou por duas vezes invadir o Hospital Sírio-Libanês e outra fechou a avenida Paulista para pedir “Fora Cabral!” e perguntar “onde está Amarildo?”. E o que nós paulistanos temos a ver com isso, e em que estas manifestações podem melhorar a saúde brasileira, o governo do Rio de Janeiro ou fazer reaparecer o Amarildo?

Lição eterna

Antes que alguém peça a volta dos salvadores da pátria fardados ou algum civil se autonomeie para este papel, está mais do que na hora das chamadas autoridades constituídas em todos os níveis colocarem ordem no galinheiro. É só restabelecer aquela antiga lição, que já citei aqui muitas vezes: tem coisa que pode e tem coisa que não pode. Isto vale tanto para o presidente do STF como para a turma dos Black Blocs mascarados ou os Fora do Eixo em geral.

Podemos começar aqui mesmo pelo blog, voltando a debater ideias e ideais na nossa área de comentários, em lugar de apenas sair desqualificando os outros que pensam de forma diversa.

Leia também

A compulsão do arranca-rabo – Alberto Dines

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Ricardo Kotscho é jornalista

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