Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > JORNALISMO EMPOBRECIDO

A autofagia da expertise

Por Ivan Berger em 03/09/2013 na edição 762

Embora básicas para a comunicação, as palavras nem sempre dizem tudo. Há fotos, imagens, telas nas quais a mensagem intrínseca é até mais eloquente e, portanto, dispensa comentários. O mesmo também vale para certos gestos, e não só as mímicas consagradas e igualmente ilustrativas, que além de familiares a todos os povos, como aquele coraçãozinho com os dedos – que de tão repetido ficou bem cafoninha – não deixam de ser o idioma mais primitivo. Ainda mais incisivos que quaisquer palavras são os gestos convertidos em atos, deliberações, sentenças, pelos quais efetivamente se operam as mudanças, impõem-se as coisas.

Desde cedo aprendemos a diferenciar o falado do escrito, sendo que o peso deste é quase sempre maior, a começar pelas leis, normas e convenções que assim são expressadas. Não há regra que tenha valor legal se formulada apenas no plano verbal. Mesmo entre os mafiosos e facções criminosas, as ordens podem não vir por escrito, mas ficam subentendidas pelo argumento extra da ameaça. O fato é que as palavras em si não valem nada se não estiverem embasadas por uma autoridade moral ou investida, compatível com o seu respectivo peso. Do chefe de família ao magistrado da suprema corte, espera-se a postura adequada para que sua palavra seja não só acatada, mas, sobretudo, respeitada. Acatado qualquer tirano ou vigarista pode ser, na marra ou na persuasão, mas respeito que é bom não é para qualquer um.

O diabo é que a decência e a impostura assim representadas são faces da mesma moeda, e invariavelmente caminham juntos, complicando as coisas. Mesmo quando ocas como um tronco carunchado, as palavras podem fazer estragos, induzir a falso juízo, como é rotineiro entre os detentores do poder, no meio político, na mídia, enfim, entre os que vivem em função delas. Os exemplos são abundantes, saem pelo ladrão, por assim dizer. De gestos mais expressivos do que qualquer palavra, por exemplo, tem-se esse caso emblemático e estarrecedor da rejeição da Câmara à cassação do mandato do deputado Natan Donadom, condenado a treze anos de prisão por desvio de dinheiro público e formação de quadrilha. Vai exercer seu mandato na cadeia, o que não deixa de ser um retrato perfeito do descalabro moral que impera no âmbito da política.

Farpas a dissidência

Por solidariedade, corporativismo ou coisa pior, o fato é que a Câmara federal não teve pruridos em vestir a vergonhosa carapuça com que se apresenta à sociedade, ou seja, como uma instituição inescrupulosa e prostituída, que falta nenhuma faria se fosse extinta, como muitos defendem. Afinal, a partir do momento em que livra a cara de um político condenado pela justiça, algo bem raro, o que mais esperar senão que tal complacência equivalha a uma espécie de salvo-conduto à roubalheira institucionalizada? Sinal, além de tudo, que o gesto de inconformismo representado pelos recentes manifestos populares está longe de intimidar ou induzir as mudanças acalentadas pela sociedade.

Não faltaram, é claro, manifestações de repúdio a tamanha afronta à sociedade, com todos – exceção feita a Renan Calheiros, qual a novidade ? – se declarando indignados com a absolvição, entre os quais, obviamente, aqueles que se aproveitaram do artifício de voto secreto para reverter a expectativa geral pela cassação do mandato. Indignação de araque, por supuesto, diante da supremacia do corporativismo que coloca os interesses escusos acima da própria moralidade, além da brecha criada para que outros eventualmente se beneficiem, como é o caso dos demais deputados condenados pelo mensalão.

Words, words, words, exclamaria o Hamlet de Shakespeare para o monte de desculpas esfarrapadas que a mídia reverberou com certo tédio, extensivo até mesmo a causas mais nobres que vararam a semana e mereceram pouco mais que registros gélidos nos noticiários. Faltou enfatizar a corajosa iniciativa do diplomata Eduardo Sabóia em assumir o papel que o governo Dilma se esquivou por um ano e cacetada de fazer, para não se indispor com o muy amigo presidente cocaleiro Evo Morales, cuja embromação para liberar o salvo-conduto do senador Roger Pinto Molina por si só configura uma clara violação ao pacto firmado nesse sentido entre os dois países. Da mesma forma como soa absurda a hostilidade aos médicos cubanos recrutados para suprir o desinteresse dos coleguinhas brasileiros, baseada na conotação de trabalho escravo – o que de fato não é o ideal –, mas não invalida a iniciativa. Como nunca seria demais valorizar a batalha do ministro-presidente do STF, Joaquim Barbosa, para que os réus do mensalão sejam de fato punidos, indiferentemente às pesadas farpas a descarada dissidência do ministro Ricardo Lewandowski, nitidamente empenhado em livrar a cara dos réus.

Dependência de empréstimos a juros extorsivos

Um reconhecimento mais do que justificável, em se tratando dessas avis raras que não se prendem a ordens e imposições para cumprir com seus deveres cívicos. Mesmo quando a hierarquia e as leis são reticentes, não se aproveitam disso para se omitir, fugir à responsabilidade como a grande maioria, e tampouco se prevalecem disso para fazer o jogo dos poderosos. Nesse sentido, com o perdão do clichê, não há como não encarar o racha claramente delineado entre os membros da suprema corte como a personificação do velho embate entre o bem e o mal.

Como pano de fundo, como sempre, além do velho e pernicioso antagonismo político-ideológico, paira a lógica medíocre do politicamente correto, que se sobrepõem ao bom senso e a própria decência, pautado por jactâncias que primam pela hipocrisia e desfaçatez. Comportamento que, a moda dos regimes totalitários, encara como afronta gestos de desprendimento e altruísmo como os de Sabóia e do ministro Barbosa, por desafiarem um establishment retrógrado e desacreditado, e que por isso pagam o ônus de colocar o dever e a moralidade acima de formalidades e ritos burocráticos. Que a trêfega lógica petista impregnada no governo Dilma não se coadune com esse tipo de comportamento digno, não deixa de fazer sentido; mas quando se vê boa parte da imprensa indiferente ou solidaria com a hipocrisia do politicamente correto, fica fácil entender o porquê da perpetuação da imoralidade e do parasitismo nas entranhas do país.

Digam o que disserem, não há muito o que esperar quando os piores exemplos vêm de cima, com o exercício do poder manietado e à mercê de ideais e interesses escusos, transformado num verdadeiro balcão de negócios, em que tudo gira em função do famigerado toma-lá-dá-cá. Como ter esperança num futuro melhor se as instituições estão ultrapassadas, para não dizer falidas? A começar por um Código Penal de meio século, que ao invés de reprimir, estimula a violência e a impunidade, e uma CLT não menos anacrônica, copiada do regime fascista de Mussolini, no primeiro mandato de Getúlio Vargas. Sem falar na sempre aventada, mas nunca viabilizada reforma fiscal, que não só penaliza como reduz drasticamente a capacidade de investimento das empresas, acentuando a dependência de empréstimos a juros extorsivos, responsáveis pela rentabilidade quase obscena dos bancos brasileiros.

Um jornalismo depauperado

Rentabilidade, por sinal, que o ex-presidente Lula um dia prometeu botar cabresto, se bem que, pensando bem, a companheirada não tem do que reclamar. Basta ver a dinheirama liberada pelos bancos oficiais para abastecer o mensalão e empresários aliados como Eike Batista. Sem falar nesse maroto empréstimo a perder de vista, com juros pra lá de camaradas, contraído pelo – nada menos, nada mais – ministro do Supremo Dias Toffoli, ao qual até eu gostaria de me candidatar.

Enfim, com os escândalos e as mais variadas formas de sinecuras e prebendas alçados a um status difícil de ser alcançado, com a manutenção do mandato concedido a um parlamentar que cumpre pena por roubo, qual o limite para delitos assim institucionalizados? Se mentir, enganar, distorcer cada vez mais configuram a linguagem dominante, contaminando a própria sociedade, com os jeitinhos e espertezas incorporados como hábitos normais? A civilização do espetáculo é também a dos prestidigitadores amadores e profissionais, da manipulação ostensiva e descarada, ensejada pela conspurcação de valores pétreos como educação, integridade, ética. Valores hoje em dia em franca desvantagem nesse cenário de nítida degradação moral.

É inegável que muito disso se deve a influência nefasta dos meios de comunicação, que em sua maioria priorizam o entretenimento, de olho no lucro, em detrimento do conteúdo, um mínimo de qualidade. O que na verdade é uma imposição de mercado, decretado pelo rebaixamento do nível cultural em escala mundial. Razão pela qual o desejável padrão de qualidade passou a ser secundário, preterido por fórmulas mais frívolas e condizentes com um gosto popular cuja marca registrada é o famigerado funk de periferia, o churrasco na laje. Reflexo ou consequência disso é o gradual achatamento que vem acontecendo nas sedes e redações dos grandes grupos midiáticos, não só no país como no exterior, com a supressão de vagas, a substituição de profissionais qualificados por outros mais baratos, depauperando as publicações e o jornalismo em geral.

O excesso de expertise

Empobrecimento que acaba se refletindo até em quem fica, e é obrigado a se adaptar, dançar conforme a música para manter o emprego, o que explica a apelação que volta e meia campeia na imprensa. Afinal, como reza a receita consagrada nas novelas, nada como uma boa baixaria para levantar a audiência. Modalidade na qual os representantes da banda podre do jornalismo se esmeram, movidos por um maniqueísmo tão obsoleto e retrógrado quanto aquilo que criticam. O resultado é que, mesmo com todas as mazelas do petismo, a oposição, e em particular o PSDB, não se beneficiam com isso, ainda mais depois da revelação do grandioso esquema de fraudes nas licitações dos transportes paulistanos.

Sintomaticamente, cultura e erudição nem sempre melhoram as coisas. Intelectuais costumam ser arrogantes, se arvoram de donos da verdade, não reagem bem quando contrariados. E nem precisa de muita coisa para que percam as estribeiras, às vezes uma bobagem qualquer é suficiente para que se exponham ao ridículo de explosões eivadas de pedantismo e egocentrismo. Como o contumaz Reinaldo Azevedo e seu chilique face à matéria do jornalista Nelson de Sá, publicada na coluna “Crítica” da Folha de S.Paulo, sobre o Roda Viva, da TV Cultura, na reestréia de seu parceiro de Veja, Augusto Nunes, na qual comenta que só faltou o dito cujo para o programa ser uma reedição perfeita dos debates apresentados no site da revista. Foi o bastante para chamar o desafeto, para todos os efeitos um profissional como ele, de vagabundo para cima. O que sugere alguma patologia degenerativa ou que, simplesmente, despirocou de vez.

Além do péssimo exemplo de jornalismo, esse tipo de agressão gratuita encarna o que há de pior nas discussões políticas e comportamentais, pois embutem não só a desonestidade intelectual típica de quem quer se passar por quem não é, ou seja, um cara ético, integro, despido de preconceitos e ranços ideológicos, como reproduz o mesmo estilo truculento e discriminatório que vivem apontando nos outros. Algo, por sinal, bastante comum no complexo reino dos pensadores, intelectuais e doutores em geral, cujo pendor ao proselitismo por vezes faz com que a ignorância pareça uma benção. Afinal, como sacou certa vez a raposa mineira Tancredo Neves, a esperteza quando é muita, vira bicho e come o dono.

Se nos serve de consolo, esse é o caminho destinado a muita gente que se julga mais esperta que todo mundo: a autofagia pelo excesso de expertise, pela ostentação desmedida, pela retórica funambulesca, estereótipos que uma sociedade que desperta, como se vê pela mobilização popular, seja nas ruas ou pelas redes sociais, não tolera mais. Sociedade que começa a diferenciar as palavras das ações, a pensar com a própria cabeça, o que ajuda a confinar a escória política, a militância cega e o sectarismo a guetos que aos poucos vão sendo marginalizados, estigmatizados em função das próprias idiossincrasias.

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Ivan Berger é jornalista, Santos, SP

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