Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

JORNAL DE DEBATES > MEA-CULPA DO ‘GLOBO’

Autocrítica tardia em resposta à voz rouca das ruas

Por Mário Augusto Jakobiskind em 03/09/2013 na edição 762

É muito fácil o esquema Globo fazer uma autocrítica quase 50 anos depois de ter apoiado o golpe de 1964 e se locupletado com uma série de vantagens. E depois disso reconhecer o erro. Mas de que adianta, se nos dias de hoje continua pregando os mesmos ideais que pregava em 1964 sob a alegação de “salvar o Brasil do comunismo” ou de uma “ditadura sindicalista?”

Na verdade, corrigir por corrigir, as Organizações Globo teriam que lembrar 1954, quando seus espaços midiáticos faziam pregações golpistas contra o presidente Getúlio Vargas, exatamente porque o então chefe do Executivo nacional colocava em prática uma política nacionalista que desembocou, entre outras coisas, na criação da Petrobras e encaminhando a criação da Eletrobrás. O Globo também não aceitou o fato de Vargas ter se negado a fornecer militares em apoio dos Estados Unidos na Coréia.

Getúlio deu um tiro no peito evitando o golpe que estava sendo colocado em prática pelas mesmas forças que romperam a ordem constitucional em abril de 1964, jogando o país em uma longa noite escura com torturas e assassinatos de opositores.

O Globo, a rádio Globo e mesmo a TV Globo, não tão forte como agora após ter mamado nas tetas da ditadura civil-militar instalada com a queda do presidente João Goulart, silenciaram durante todos os anos de arbítrio diante das perseguições a opositores.

Uma tentativa de fraude na eleição para o governo do estado do Rio de Janeiro de Leonel Brizola, promovida pelo famigerado SNI, no episódio conhecido como Proconsult, que daria a vitória do então candidato oficialista Moreira Franco, nunca teve autocrítica das Organizações Globo – e assim sucessivamente. 

Mesmos valores

Em seu editorial, querendo mudar a imagem e o coro que vem das ruas – “a realidade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura” –, a memória de O Globo silencia em relação ao apoio ostensivo às medidas adotadas pelos governos neoliberais a partir de Fernando Collor, que procuraram reduzir a ação do Estado com privatizações de estatais sob o falso argumento de que em mãos privadas estariam bem geridas. Mentira. Os fatos demonstram que as Organizações Globo ajudaram a incutir a ideia na opinião pública e atualmente ainda justificam medidas que contrariam os interesses nacionais.

Por essas e muitas outras, a autocrítica das Organizações Globo reconhecendo o erro de ter apoiado o golpe de 1964 não passa de uma tentativa de dar uma resposta atrasada à voz rouca das ruas, que reconhece que em abril de 1964 houve um retrocesso no Brasil e seus fundamentos entreguistas (termo utilizado na época e em desuso hoje, mas em essência com o mesmo significado atualmente) fizeram muito mal à maioria da população brasileira.

Em outras palavras, por mais autocríticas que façam, as Organizações Globo não mudam de opinião em relação aos temas mencionados e por isso segue alinhada com os setores que defendem os valores da dominação econômica financeira no país.

Em suma: de que adianta autocrítica no papel se na prática seguem defendendo os valores de sempre?

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Mário Augusto Jakobiskind é jornalista

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