Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > MEA-CULPA DO ‘GLOBO’

Crise de confiança e defesa dos próprios interesses

Por Aloysio Castelo de Carvalho em 10/09/2013 na edição 763

A confiança nas instituições ocupa um lugar central na vida republicana do mundo contemporâneo. A confiança pressupõe um processo de avaliação que coloca em questão a atuação das instituições e os valores que lhe dão substância. Que avaliação deve ser atribuída à imprensa, considerando sua importância como uma instituição da sociedade brasileira? Que credibilidade tem a imprensa que adota o discurso em defesa da democracia e tem na sua história manifestações editoriais a favor de golpes de Estado? Como acreditar num jornal que anuncia uma revisão do posicionamento editorial e mantém a mesma versão dos acontecimentos?

É o caso de O Globo, que admite o erro ao apoiar o golpe de 1964, mas mantém a mesma interpretação dos fatos que teriam desencadeado as mudanças políticas no Estado. No texto “Apoio editorial ao golpe de 64 foi um erro” permanecem todas as justificativas do movimento civil e militar que derrubou o governo Goulart. O Globo aplicou no campo da linguagem os ensinamentos de Lampedusa: “Tudo deve mudar para que tudo fique como está.”

O editorial de O Globo tem um duplo objetivo. Ele busca uma coesão no âmbito das Organizações Globo, fraturada internamente, e cujos integrantes mais progressistas pressionam o jornal para que este faça parte de uma cultura democrática. Além de pretender harmonizar os conflitos que se manifestam na direção das empresas, nas redações e entre os acionistas, o editorial procura resgatar a credibilidade do jornal junto ao público leitor que vem assistindo manifestações sociais de repúdio à história das empresas da família Marinho.

Outras soluções

Quando O Globo admite seu erro, o jornal não está com o olho no passado, mas no presente, nos debates acerca dos 50 anos do golpe militar e nas eleições de 2014. Na expectativa de ter reforçado o seu capital moral em função da autocrítica, O Globo remarcou a linha vermelha para os seus adversários ideológicos. Ele tende a reeditar a posição de guardião dos valores que colocam a liberdade individual em primeiro plano, sobretudo os direitos que asseguram a propriedade privada.

O liberalismo defendido pelo jornal reafirmou sua face conservadora ao reconhecer no editorial apenas o apoio dado ao golpe de Estado em 1964. A participação no movimento civil e militar que derrubou o governo democrático de Goulart se desdobrou no apoio à ditadura durante 21 anos e no apoio à expansão de um tipo de economia capitalista que provocou extremas desigualdades na sociedade brasileira. O modelo autocrático burguês de transformação capitalista, para citar Florestan Fernandes, caracteriza-se pela concentração exclusiva e privatista do poder.

As Organizações Globo expandiram suas empresas no contexto dos anos autoritários e tiveram as garantias dos seus negócios incorporadas posteriormente ao Estado de Direito. O ambiente institucional que hoje proporciona segurança ao patrimônio das Organizações Globo e demais setores empresariais pode ter estimulado O Globo a pensar que as graves crises políticas do país, como a que ocorreu em 1964, foram ultrapassadas e os golpes truculentos podem ser descartados como alternativa para redirecionar o poder do Estado. Considerando que a ordem militar está consolidada na Constituição de 1988, outras soluções são possíveis e devem ser imaginadas, no âmbito mesmo das regras do atual regime político, de modo que sejam preservados os interesses do maior conglomerado de empresas do setor de mídia do Brasil.

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Aloysio Castelo de Carvalho é professor da Universidade Federal Fluminense

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