Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

JORNAL DE DEBATES > MEA-CULPA DO ‘GLOBO’

Mea-culpa tímido sobre a história

Por Marcio de Souza Castilho em 10/09/2013 na edição 763

O lançamento do projeto Memória O Globo, reconstituindo decisões editoriais do jornal em diferentes momentos históricos do país, trouxe como destaque o mea-culpa público sobre a atuação do periódico no golpe de 1964. No site e na versão impressa publicada no dia 1º de setembro, a empresa jornalística reconheceu o “erro” por ter colaborado editorialmente com os militares no movimento que derrubou o presidente João Goulart. Quanto à repercussão, o novo produto atingiu plenamente o seu objetivo. No dia seguinte, políticos, magistrados e representantes da sociedade civil ouvidos pelo jornal elogiaram a iniciativa das Organizações Globo em rever o seu passado.

Abrir espaço para uma auto-avaliação, ainda que praticamente 50 anos depois da derrubada de Jango, deve ser saudado, sobretudo num campo profissional pouco afeito a receber críticas sobre as suas rotinas. Do mesmo modo, deveria servir de exemplo para outros veículos brasileiros que, apesar de evocarem uma memória da resistência sobre o seu papel durante a ditadura, ficaram, em maior ou menor grau, ao lado dos vencedores de 1964. Embora não seja o objetivo do jornal, O Globo acabou por suscitar também um debate sobre a participação de outros grupos da sociedade civil que serviram de suporte estratégico para legitimar o golpe de 1964. Essa é uma questão particularmente sensível num momento em que o país tenta desvelar, com muitos obstáculos e resistências, seu passado ditatorial através do trabalho das comissões da Verdade.

É no último parágrafo do texto “Apoio editorial ao golpe de 1964 foi um erro” que O Globo explicita a diferença em relação ao editorial “Ressurge a democracia”, publicado em 02 de abril de 1964. Nas últimas linhas da nova versão, o veículo reconhece que “decorreram desse desacerto original” outras decisões editoriais equivocadas. No entanto, numa leitura mais atenta, partindo da ideia de Charaudeau de que o “universo da informação midiática é efetivamente um universo construído” (2010, p. 151), há pontos de aproximação do texto atual com os enunciados contidos no editorial de 1964 que lhe serviria de contraponto. O jornal atravessa cinco décadas de períodos históricos distintos sem uma revisão crítica sobre o período João Goulart, materializando na figura do ex-presidente o símbolo da desordem e da ameaça comunista como um dado natural e imutável. Ocorre, porém, que, na instância midiática, “estamos às voltas com um real construído, e não com a própria realidade”, como adverte Charaudeau. Afirma o autor: “Defender a ideia de que existe uma realidade ontológica oculta (…) seria reviver um positivismo de má qualidade” (2010, p. 131).

O periódico mantém uma postura ideológica de condenação do governo Jango nos dois editoriais com o emprego de expressões carregadas de sentido. É como se o leitor pudesse confundi-los, em alguns trechos, se não os situasse em sua historicidade: “temor de um outro golpe”, “radicalização”, “ameaçavam atropelar”, “quarteis (…) intoxicados”, “golpe à esquerda” são alguns dos elementos textuais que O Globo utiliza – não em 1964, mas em 2013 – em sua batalha discursiva (grifo meu) para apresentar o perfil e as ações de João Goulart. Nesse sentido, reafirma que o diagnóstico do contexto estava correto, mas não dimensionou corretamente os efeitos colaterais do remédio: o golpe. Há então uma transferência de responsabilidade, uma tentativa de o jornal se eximir das consequências pela posição favorável à “intervenção” dos militares no pós-1964 ao afirmar: “Os militares prometiam uma intervenção passageira, cirúrgica. Na justificativa das Forças Armadas para a sua intervenção, ultrapassado o perigo de um golpe à esquerda, o poder voltaria aos civis”.

Memória de resistência

O texto do projeto Memória O Globo sobre o golpe militar de 64 recorda acertadamente que outros grandes diários da época, como O Estado de S. Paulo, oJornal do Brasil e oCorreio da Manhã, também estiveram alinhados editorialmente com os militares na instauração da ditadura – à exceção da Última Hora, de propriedade de Samuel Wainer. A manchete de O Estadão destacava em 2 de abril de 1964 a manchete “Democratas dominam toda a nação”. Do mesmo modo, parte da população apoiou a derrubada do governo Jango em passeatas nas maiores capitais.

Diversos estudos já demonstraram a atuação multifacetada da imprensa durante os 21 anos de vigência do regime militar no Brasil (1964-1985). O artigo “As múltiplas identidades da imprensa“, publicado neste Observatório por ocasião do lançamento do arquivo digitalizado de O Estado de S. Paulo, já abordava esse movimento ora de aproximação, ora de distanciamento do campo jornalístico em relação ao político. O próprio O Globo – jornal de linha conservadora, orientado por valores dominantes e beneficiado por sua proximidade com as cercanias do poder – não exerceu um único papel, como se tivesse colaborado invariavelmente com a ditadura.

Esse aspecto consta no editorial em que assume o erro por ter apoiado o golpe. Nele, O Globo também evoca uma certa memória de resistência com a rememoração particularmente de dois episódios: o cerco de fuzileiros navais ligados a João Goulart na sede da empresa, proibindo o periódico de circular no dia 1º de abril de 1964 e a guarida dada por Roberto Marinho a jornalistas de esquerda em sua redação. Como enfatiza o texto do projeto Memória, ao se negar a fornecer a lista de “comunistas” que trabalhavam no jornal, o empresário teria se dirigido ao general Juracy Magalhães, ministro da Justiça do presidente Castelo Branco, com as seguintes palavras: “Cuide de seus comunistas que eu cuido dos meus.”

Versão parcialíssima

Outros episódios da trajetória de O Globo durante a ditadura mostram a pluralidade de papéis exercidos pelo campo jornalístico em sua relação com o Estado autoritário. No início de 1970, durante os chamados “anos de chumbo” do governo Médici, o diário publicou a série de matérias “113 dias de angústia – impedimento e morte de um presidente”, de autoria de Carlos Chagas. Neste trabalho, que trata do conturbado processo de sucessão do presidente Costa e Silva, o jornalista cita o esquema de desinformação montado no Palácio do Planalto sobre a doença de Costa e Silva e comenta as retaliações que sofreu de alguns militares. Chagas cita ainda a existência de uma “cortina de fumaça” criada em torno da saúde do presidente, a prisão do vice-presidente Pedro Aleixo, as crises do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick por um grupo de guerrilheiros, além do mais áspero dos temas normalmente interditados naqueles tempos de fechamento político: a questão da censura.

O trabalho jornalístico chegou a ser publicado no formato de livro-reportagem, mas as edições foram apreendidas por ordem do então ministro da Justiça do governo Médici, Alfredo Buzaid. O livro 113 dias de angústia – impedimento e morte de um presidente só voltou a ser reeditado em 1979, no período da abertura política, pela L&PM Editores. Chagas também recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo em 1970 pela série publicada em O Globo. Durante a solenidade de entrega da premiação, fez um discurso, no salão nobre do Hotel Glória, condenando a censura à imprensa e o processo de “subversão não apenas do jornalismo, mas dos princípios elementares da ética e da moral que deveriam reger a sociedade” (Chagas, 1979, p. 251).

As reportagens tornaram-se incômodas para o governo Médici. Antes da apreensão dos exemplares do livro, a repercussão do caso levara o mesmo jornal a publicar outra série, dessa vez com a versão dos chefes militares, alguns meses depois. As matérias foram assinadas pelo repórter Emiliano Castor. Credenciado no Ministério do Exército, ele cobria as Forças Armadas para o jornal, mas, segundo Chagas em seu livro-reportagem, a verdadeira autoria deve ser creditada ao general Antônio Carlos Murici. Em tom de contestação pessoal, Emiliano Castor cita 56 vezes o nome de Chagas, na maior parte das vezes para desqualificá-lo. Para Hélio Fernandes, “antes que os fatos se assentassem, vem o próprio O Globo e, querendo prestar serviço aos que não gostaram da primeira versão, procura destruir tudo que serviu ao trabalho de Carlos Chagas, para montar em seu lugar uma nova versão, essa sim, parcialíssima e interessada, pois composta deliberadamente” (Fernandes, apud Chagas, 1979, p. 246).

Uma temporalidade mais ampla

Se compararmos esse caso ao recente editorial de O Globo sobre o golpe de 1964, a matéria de Emiliano Castor, avalizada pelo jornal, seria uma reparação às avessas, um momento de recuo ou conformação da empresa jornalística com o establishment político da época. Estabelecendo um contraponto crítico ao raciocínio de Fernandes, não concordamos com ideia de que a versão de Carlos Chagas seja imparcial e desinteressada. A propósito, Chagas era secretário de Imprensa da Presidência no governo Costa e Silva, tendo construído as matérias, em boa medida, a partir do seu esforço memorialístico no gabinete presidencial ou na residência oficial.

As narrativas não devem ser vistas como testemunho do que efetivamente se passou. A lembrança de 113 dias de angústia se aplica à análise dos editoriais de O Globo sobre o golpe de 64 à medida que, em ambos os casos, há um intenso processo ou tentativa de (re) enquadramento da memória. A memória – que, afinal, dá nome ao projeto para preservar a história de 88 anos do jornal – resulta de um processo de seleção, hierarquização e ordenamento que vai determinar o que deve ser lembrado e o que deve ser esquecido. Leva em conta os silêncios e os interditos, que possuem tanta força quanto o que está na superfície, na ordem do explícito.

Embora sejam associados muitas vezes de maneira indistinta, memória não é passado, mas antes uma apropriação do passado, construída sempre a partir das preocupações do momento e das demandas do presente (Halbawachs, Pollak). No texto de abertura do projeto Memória O Globo, o próprio jornal fornece uma pista nesse sentido ao associar as avaliações internas sobre o seu papel na legitimação do regime militar e as recentes manifestações populares: “Porque as ruas nos deram ainda mais certeza de que a avaliação que se fazia internamente era correta e o reconhecimento do erro, necessário.” A resposta da empresa jornalística ao grito de ordem ouvido nas manifestações “A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura” talvez deva contemplar, em futuras avaliações, uma temporalidade mais ampla que não se restrinja aos obscuros 31 de março/1º de abril de 1964 e que possa produzir resultados editoriais no presente, no dia-a-dia do jornal.

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Marcio de Souza Castilho é jornalista e professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense

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