Domingo, 17 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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JORNAL DE DEBATES >

Um prefeito transparente em NY

Por Muniz Sodré em 07/01/2014 na edição 780

Na posse do novo prefeito de Nova York, Bill Clinton não resistiu a comentar, bem-humorado: “Com todo o respeito, aqui está uma família moderna!”

Referia-se ao democrata Bill di Blasio, americano branco, casado com uma negra que, desde a campanha, revelara ser “ex-lésbica”, e pai de um casal de jovens mulatos. A modernidade apontada pelo ex-presidente dos EUA tem certamente a ver com a imagem da diversidade em graus tão diferentes, pela primeira vez estampada na vida privada de um político em ascensão nos EUA.

Dias antes da posse, ao longo da festividade natalina que confirma Nova York como centro mundial do consumo conspícuo, a televisão repetia a curtos intervalos as imagens em que Chiara di Blasio, a jovem filha, garantia estar se livrando da dependência de substâncias que variam do álcool a drogas mais pesadas. Os comentaristas sublinhavam que já se conhecia a condição da moça desde a campanha pela prefeitura, mas os assessores recusavam-se a discutir o assunto.

Primeiros sinais

O episódio apenas acrescenta mais um dado à aparente mutação na imagem privada dentro da esfera pública americana. Antes, qualquer coisa que maculasse, mesmo levemente, a imagem idílica de um candidato a cargo público, certamente arruinaria a campanha.

Um caso paradigmático é o de Edward Kennedy, o último presidenciável do clã, que vira as suas grandes pretensões irem por água abaixo depois do acidente em que uma companhia feminina morreu afogada no desastre com o automóvel que ele dirigia.

Di Blasio marca uma virada na normatização puritana das imagens públicas americanas. Sua estratégia centra-se na transparência quase imediata do privado ao público. Nada de procure saber. O público fica sabendo, queira ou não, antes de procurar. São, quem sabe, um dos primeiros indícios da abolição, no longo prazo, da diferença entre vida pública e vida privada. A confissão gera absolvição instantânea.

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Muniz Sodré é jornalista e escritor, professor titular (aposentado) da Universidade Federal do Rio de Janeiro

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