Segunda-feira, 26 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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JORNAL DE DEBATES >

Os rolezinhos causam vertigem na mídia

Por José Isaías Venera em 28/01/2014 na edição 783

Milan Kundera, em A insustentável leveza do ser, talvez tenha sido quem melhor descreveu a sensação de vertigem como uma realidade social, ainda nos anos 1980, quando o debate sobre pós-modernidade mal tinha iniciado. “O que é vertigem? Medo de cair? Mas por que temos vertigem num mirante cercado por uma balaustrada sólida? Vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio debaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual nos defendemos terrorizados.”

Se, para o conterrâneo de Kafka, a experiência comunista na República Tcheca o fez perceber tanto quanto Marx – “que tudo que é sólido se desmancha no ar” –, os nossos acontecimentos recentes, desde os protestos de junho de 2013 aos rolezinhos, mostram mais ainda que a dinâmica capitalista nunca conseguiu de fato manter os territórios demarcados, divididos; parece que a corte invisível da democracia perde controle. Não porque os rolezinhos sejam algo novo, muito pelo contrário, são mais comuns que se possa supor, mas há uma vertigem social que os fez virar notícia, ou seja, é claramente um acontecimento midiático, cujo preconceito de classe e racial apenas aflorou.

A grande mídia ainda se esforça, aterrorizada, para combater a perda de poder na esfera pública. Qual a imagem que mais vimos nos protestos de junho do ano passado ou nos rolezinhos? Não seriam imagens para reforçar o sentido de vandalismo e ódio? O comentarista do Jornal da Globo Arnaldo Jabor declarou no dia 12 de junho, seis dias após o primeiro protesto organizado pelo Movimento Passe Livro (MPL), nas escadarias do Teatro Municipal da capital paulistana, que só se viu tanto ódio “quando a organização criminosa de São Paulo queimou dezena de ônibus”.

Sociedade de consumo

A mídia conservadora vive aterrorizada em perder o que nunca foi dela ou o que supostamente possa perder. É evidente que, quando se trata de concessões públicas, como no rádio e na TV, a lógica é facilmente aceita, mas se deve pensar em todos os casos, já que o fortalecimento das mídias digitais e, sobretudo, de outros grupos podem representar queda. Voltemos à literatura de Kundera: “Aquele que deseja continuamente ‘elevar-se’ deve esperar um dia pela vertigem” – lembremos da “queda” de Diogo Mainardi em debate ao vivo com Luíza Helena Trajano no programa Manhattan Conection, da GloboNews.

Uma frase sobre uma imagem que circula nas redes sociais é um bom exemplo: “Toda vez que o capitalismo se sente ameaçado, ele solta o fascismo para passear.” Ora, usam-se os mesmos métodos fascistas, o de não permitir a existência de outra forma de pensamento, de ordenamento das coisas etc.; e o que parece ser seu oposto – o fascismo, o nazismo e o comunismo – são apenas ferramentas do próprio capitalismo para implantar o terror social.

Quem acredita hoje na hipótese da revolução? Ao contrário, o medo não é oriundo da lógica dicotômica falsamente levantada por seguimentos conservadores da sociedade. O medo é justamente da “revolta” pelo direito de participar dos “encantos” do próprio capitalismo. Ele não advém do “diabo vermelho”, como explorava a literatura anticomunista. A revolta (o movimento de subverter o lugar que discursivamente foi atribuído aos moradores de periferias) parece ser dos não consumidores que querem integrar-se à sociedade de consumo, nem que seja somente para tirar fotos nos lugares bacanas. E não há símbolo maior do que o shopping.

“A turma da algazarra”

A psicanalista Maria Rita Kehl interpretou bem esse fenômeno, em declaração à Folha de S.Paulo (17/01): “Toda inclusão econômica exige, em um segundo momento, o reconhecimento da pertença a uma nova classe social. É claro que os jovens da periferia não pertencem a essa classe que compra nos shoppings, mas chegaram mais perto dela.” É o mesmo que dizer que o shopping já faz parte do horizonte desses jovens de periferia, mas a conquista, enquanto se sentir pertencente desse espaço, só será possível no embate. Pertencimento é alteridade.

Por outro lado, a reação raivosa do colunista da Veja Reinaldo Azevedo em seu blog (19/01) contra Maria Rita, tentando desqualificar seu discurso por ser, como ele mesmo afirmou, “petista militante”, expressa muito a tese de que a comunicação é, quase sempre, motivada por sintomas. É evidente que jovens da periferia fazem também suas prestações nos shoppings, mas na medida em que o poder aquisitivo melhora ou que simplesmente passam a desejar mais esses espaços (e não é qualquer shopping), a barreira silenciosa do preconceito, dos lugares subjetivamente demarcados, precisa ser enfrentada e superada. Enquanto Maria Rita manifestou sua opinião em um parágrafo, Azevedo discorre longamente sua artilharia conservadora no que de fato é o problema para este segmento da sociedade – o PT.

Os rolezinhos não poderiam ser pensados como uma subversão pós-moderna do “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!”, para o “Jovens de todo o país, ocupemos os shoppings para gozar com a sociedade de consumo”. Agora são os jovens que se unem a partir das redes sociais da internet para dar um rolê no shopping, “ouvir funk ostentação” e, se possível, “comer no McDonalds e ir ao cinema”, como foram descritos na reportagem de capa da Época (20/01). O problema é que para a revista eles são apenas “a turma da algazarra”, como estampa a manchete de capa. Esse é apenas um dos sentidos rotulados pela grande mídia.

Os rolezinhos são politizados

Não estaríamos diante de um novo movimento oriunda das massas virtuais, que se configura no próprio movimento, cujo sintoma dá-se justamente na relação social com esse novo; por isso que no campo da comunicação pode-se trabalhar com a noção de que a narrativa cria o acontecimento.

O filósofo Paulo Girardelli fez também uma boa observação publicada (15/01) em sua página na internet: “As classes médias se retiram do lugar se ele pega a fama, correspondente ou não ao que ocorre, de ‘lugar de pobre e preto’. É pior que a fama de ‘lugar de puta’ ou ‘lugar de nóia’”. Há, sim, assepsia social.

Mas, talvez, o melhor depoimento tenha vindo de quem vivencia os rolezinhos. Fábio Goulart, um dos organizadores dos rolezinhos de Porto Alegre, fez um longo comentário após artigo de Juremir Machado da Silva, publicado no dia 19/01 no Correio do Povo, intitulado “Em defesa dos rolezinhos”. No comentário, Fábio diz: “Os rolezinhos nada mais são do que passeios… Jovens da periferia querendo passear, curtir, zoar, conhecer gente nova, beijar… e todas estas outras coisas que a velha classe média vai fazer normalmente no shopping. O simples alvoroço que se criou em torno dos rolezinhos já prova a questão do preconceito que tanto se fala. Quando vai um grupo de 300 jovens da velha classe média fazer um barulhento flash mob no shopping ninguém fala nada, quando vão 300 ‘bixos’ da universidade federal badernar ninguém fala nada… por isso digo que os rolezinhos são politizados”.

O inconsciente político

Consideremos a tese freudiana de que o desejo é demanda do inconsciente. Poderíamos então defender que a mudança está no âmago da existência, já que a consciência (o que poderia ser substituído pela cultura) é justamente o espaço da fantasia que busca tampar a outra cena (inconsciente) que causa vertigem.

Uma manchete do jornal Cruzeiro do Sul (18/01), de Sorocaba, SP, expressa bem a relação sintoma e fantasia do nosso tempo: “Shoppings conseguem liminar contra rolezinhos”. Ao ler a matéria, percebe-se que não houve nenhum incidente nos shoppings da cidade que pudesse motivar a ação. Engano. Esses não são espaços públicos. É uma espécie de faz de conta de que é público. É como a brincadeira com carretel do neto de Freud, que era o fio de ligação com sua mãe. Na ausência materna, Ernst jogava o carretel para fora do berço (saindo do seu campo de visão) e, em seguida, puxava-o alegremente de volta para si. Assim, a criança suporta a ausência da mãe imaginando, tal qual percebe no carretel, que ela voltará. Esse jogo de faz de conta integra o outro lado da fantasia da nossa realidade, já que a primeira é a possibilidade de perda do que se acredita ter. No fim, não há nem mãe e nem objeto para se perder, mas somente fantasia.

O problema é entender por que a fantasia dos jovens da periferia passou a incomodar a fantasia de parte dos estabelecidos da sociedade. A operação é semelhante à demanda que vem do inconsciente: há outra cena oculta no discurso pragmático da mídia que motiva a formação do acontecimento – do rolezinho como um sintoma. Assim, se o rolezinho é um acontecimento midiático, há uma outra cena (supõe-se política) aterrorizando a mídia conservadora e causando vertigem na comunicação. Nesse ponto, chegamos praticamente ao inconsciente político defendido por Deleuze e Guattari, ou seja, ao invés de entendê-lo como representação (teatro) de conteúdos inconscientes, ele é produção, é usina; ele é fabricado. Aqui, o inconsciente sai da célula familiar, edipiana. É por isso que a deontologia, na comunicação, é, literalmente, uma fantasia produzida, já que o sentido que se atribui aos fatos é motivado por outra cena.

Dependente de consumo

Alimentamos a fantasia de que podemos passear, olhar vitrines e depois sair do shopping sem consumir. Tem limite. Quando isso acontecer de forma demasiada, os não consumidores são excluídos. Para legalizar a prática, usa-se o efeito pinça, que é justamente pegar alguns casos isolados e generalizar. Lembremos os velhos ditados que embalam o censo comum liberal: “quem é trabalhador se dá bem na vida” (ora, quem não tem sucesso é “culpa” – com toda carga cristã que carrega essa palavra – dele mesmo); ou mesmo conteúdos bíblicos, entre eles: “nunca vi o justo desamparado nem seus filhos mendigando o pão”. São ditados que funcionam para imobilizar os cidadãos, deslocando problemas sociais para recair sobre indivíduos que não tiveram bom desempenho econômico ou na “fé”.

Por outro lado, o capitalismo parece chegar no seu estágio máximo, o de que as pessoas se sentem cidadãs consumindo. O debate é antigo. O próprio sujeito é tornado objeto, nesse caso objeto de consumo, na medida em que as relações (que são sempre sociais) são eclipsadas (fetichizadas) pela ação individual com as mercadorias. Assim, se o sujeito passa a ser dependente de consumo para constituir-se enquanto tal (ser aceito pelo outro), deixá-lo em abstinência pode custar caro à sociedade.

No fim, é como interrogou o narrador da obra de Kundera: “O mais nobre dos dramas e o mais trivial dos acontecimentos estariam assim tão próximos? É claro que sim.”

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José Isaías Venera é jornalista e professor, Joinville, SC

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