Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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JORNAL DE DEBATES >

A periferia no centro

Por Helo Reinert em 04/02/2014 na edição 784

Todo o ciclo depende da internet para ocorrer. Os jovens convocados pelas redes sociais para “curtir” e “zoar” saem de casa e se encontram em um ambiente organizado e climatizado. O aumento da frequência e do número de participantes faz que o rolezinho, de uma hora para a outra, provoque um desconforto. Realizados em shoppings distantes da área central de São Paulo, os encontros desencadeiam o medo em muitos lojistas. As portas das lojas se fecham. E a reunião de jovens da periferia se converte em alvo de uma ação policial de contornos violentos. Chegam as liminares para impedir os encontros. Mas, na quarta-feira, os jovens e a associação de shopping anunciaram que os rolezinhos poderão ser feitos em conjunto, caso os shoppings aceitarem e comportarem o número de participantes previsto pela organização.

A necessidade de ver e ser visto, ouvir e ser ouvido, tendência forte entre os jovens, mas não exclusiva dessa faixa etária, é uma das explicações para esse movimento social, de acordo com Sergio Adorno, professor da Universidade de São Paulo (USP). Coordenador científico do Núcleo de Estudos da Violência, Adorno destaca ainda dois outros componentes para a realização dos rolezinhos. O primeiro são as mudanças do país que afetam tanto o mercado de trabalho quanto o de consumo e interferem principalmente no acesso à tecnologia, que permite os encontros e a possibilidade de expressão. O segundo é a existência de uma sociedade segregada – em temos de raça, gênero, condições econômicas, de acesso a educação, saúde e trabalho de qualidade –, com cinturões bem definidos, que impede o reconhecimento do jovem. “Uma coisa é viver na cidade e outra é saber o que passa no outro lado dela. Existe um sentimento de que a cidade pertence a uns e não a outros.”

Os rolezinhos permitem que os jovens sintam que podem se expressar, que é possível ocupar a cidade, observa Adorno. “O jovem quer ser reconhecido. E é legítimo que seja assim. Por que não oferecer a esse jovem essa oportunidade?”

Responsabilidade de todos

A tensão causada pelos rolezinhos tem merecido análises que focalizam aspectos distintos do fenômeno. Parte das abordagens tenta fazer uma leitura pela lente do consumo, mas há quem as critique. “Esse não é o ponto principal”, afirma Aldo Fornazieri, diretor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo. “Em termos de volume total de gastos, os jovens da classe C gastam mais do que os das classes A e B. Compram produtos de marca em shoppings da periferia. O que se vê é uma certa demonstração de revolta com o modo urbano de ser.”

A ligação dos rolezinhos com a política tampouco é considerada um dado útil para explicar o fenômeno. “Esse jovem não é politizado, não é de direita nem de esquerda. Essas categorias analíticas não ajudam a explicar o que acontece”, diz Fornazieri. Para ele, o rolezinho não está ligado inicialmente ao protesto e, sim, ao comportamento, ao “zoar”. Em sua análise, como não está organizado em torno de um objetivo comum, só seria um movimento social no sentido “fraco do termo”, como movimento coletivo espontâneo que “reforça a ideia de confrontação com os padrões sociais estabelecidos e não com a ordem política”.

Adorno chama a atenção para o potencial de um grave efeito colateral dos rolezinhos: teme que o protesto se traduza em ódio de classe. “Esse ódio está se intensificando. Cabe à sociedade brasileira refletir sobre isso. É preciso desarmar essa bomba.” O sociólogo pondera que outros países são marcados por perseguições religiosas ou étnico-raciais e o Brasil, descontados todos os problemas conhecidos, não chegou a guerras civis dessa natureza, mas esse processo pode ser fomentado. Os jovens da periferia podem hoje ter mais acesso a bens, mas costumam tornar-se visíveis pela cor da pele ou em situações de protestos violentos, como no futebol. “Aparecem sempre no negativo e nas páginas policiais”, diz. Ele considera necessário o rompimento desse circuito. Faz parte dessa trajetória a polícia reagir com violência e o cidadão usar também violência para conter a polícia. “Tenho a sensação, mas isso precisa ser estudado, de que a polícia se sente agredida como corporação e precisa se afirmar na força para poder resgatar sua identidade.”

Crítico do tratamento dado pelo poder público aos jovens, desprovidos de espaços para a socialização adequada, Fornazieri entende que o rolezinho é responsabilidade de todos. “Cabe ao poder público a tarefa de iniciar um processo para que a juventude de amanhã tenha oportunidades de cultura, lazer e esporte em lugares adequados e com atividades atrativas. Devemos cobrar esse debate dos políticos, que foram eleitos para tomar decisões.”

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Helo Reinert, para o Valor Econômico

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