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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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JORNAL DE DEBATES > LEITURAS DA ‘FOLHA’

China recria sistema do jornalista ‘embedded’ dos EUA

Por Leandro Marshall em 04/02/2014 na edição 784

O jornalista Marcelo Ninio, da Folha de S.Paulo, revelou na edição do dia 26/01/14 a adoção pelo Departamento de Propaganda da China de uma espécie de doutrinação marxista e comunista junto aos milhares de jornalistas em ação no país (ver aqui). A notícia informava que os integrantes da mídia chinesa estavam sendo orientados, dentro de “sessões” de treinamento, a nunca copiar “o sistema político do ocidente nem adotar o regime multipartidário e a separação entre poderes”.

Em linhas gerais, o artigo afirmava que há um processo crescente de controle da imprensa no país desde a subida ao poder do presidente Xi Jiping, num esforço para enquadrar os jornalistas nos ideais nacionalistas e obrigá-los a seguir as “ordens” do Partido Comunista. O texto chamava atenção, inclusive, para o fato dos jornalistas chineses estarem sendo “adestrados” para trabalharem como agentes de propaganda do Estado e que, em muitos casos, “além do trabalho tradicional, os repórteres têm uma função menos visível, que é a de preparar relatórios secretos”.

De certa forma, a informação da Folha não trouxe nenhuma grande novidade. Ele apenas mostra, mais uma vez, que em países onde não existe sistema democrático, como o sistema chinês, obviamente não existe imprensa livre. E mostra que os profissionais da imprensa destes países (não democráticos) são doutrinados para mostrar apenas a visão da verdade do partido dirigente deste país.

Pacto com os governos

O fato é que o verdadeiro valor da notícia da Folha estava em outro lugar. O ineditismo da informação reside, em primeiro lugar, na “ingenuidade” dos repórteres chineses em acreditar que, num país com controle estatal, a mídia poderia ter liberdade para retratar a realidade de acordo com os princípios jornalísticos e, num segundo momento, na “originalidade” da informação de alguns “jornalistas” daquele país que tiveram “coragem” de iniciar uma greve em 2013, mas o resultado desta iniciativa foi tão somente o endurecimento do Estado chinês com a imprensa.

Todavia, na realidade, o fato mais importante retratado pela notícia reside no fato de que, a partir dos dados apresentados pela Folha de S.Paulo, não existe imprensa, no sentido literal da palavra, na República Popular da China, apenas o exercício da propaganda e a atividade de Relações Públicas. Esta é a única verdade da reportagem. Por mais que a sociedade ocidental aceite e desfrute as vantagens do sistema capitalista chinês, não se pode confundir economia com política.

Praticamente todos os grandes pensadores contemporâneos – como Slavoy Zizek, Boaventura de Souza Santos e José Saramago – já anunciaram, mais de uma vez, o perigo iminente do mercado asiático “esmagar” os valores e os princípios do regime democrático, levando o ocidente a idolatrar o modelo totalitário adotado pelo mundo oriental. Por isso, uma abordagem bem mais interessante do jornal paulista poderia ser mostrar que o que os chineses fazem hoje, em seu sistema fechado, os Estados Unidos e a Inglaterra já fizeram em seu sistema, dito democrático e livre, nos anos 1990. Longe de querer defender o “controle” chinês (absurdo por natureza), não se pode “nunca” esquecer que os jornalistas britânicos e norte-americanos que cobriram a guerra do Iraque fizeram um pacto com seus governos.

O sistema do silêncio

Além de aceitar “carona nos tanques de guerra ou nos blindados aliados”, os jornalistas concordaram em não divulgar nenhuma informação sobre operações de guerra em andamento, nenhum dado sobre o tamanho e o poder de fogo das tropas inimigas e tampouco qualquer informação sobre a prisão de soldados iraquianos.

Em síntese: os jornalistas anglo-americanos aceitaram tacitamente adotar um regime de autocensura, em nome de uma suposta proteção das tropas americanas. Nisso, concordaram em sacrificar a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa pela “possível” liberdade das tropas cometerem “crimes” ou “injustiças” sem que houvesse a correspondente denúncia da imprensa daquele país.

Trocaram o soberano poder da fala, o chamado quarto poder, pelo totalitário sistema do silêncio, em nome de algumas poucas fotos, textos ou depoimentos. Com tudo isto, aceitaram “prostituir” os valores sagrados do jornalismo em benefício das empresas jornalísticas, que os pagavam, e deles próprios.

Anular a imprensa e a informação livre

Este pacto acabou cunhando (e eternizando) a expressão jornalista embedded, que pode ser traduzida como “jornalista alinhado, cooptado, alistado”, e passou a ser utilizada sempre que um profissional ou uma corporação jornalística aceita “vender” seus princípios em troca de um benefício noticioso. Esta não passa, na verdade, de uma grave transgressão dos princípios do sistema de liberdade plena dos países democráticos, com a ruptura do pacto entre instituições e o estabelecimento de um regime de cumplicidade ardilosa e nociva entre forças tão poderosas (como o exército e a imprensa).

É inquestionável a velha expressão (atribuída a Winston Churchill) de que em toda a guerra a primeira a morrer é sempre a verdade e de que, num regime de exceção (como numa situação de ditadura ou de guerra), os poderosos acabam sempre fazendo muito mais propaganda do que jornalismo. O que não pode ser normal (tampouco ser naturalizado) é o fato de jornalistas de um país livre aceitar um pacto que permita a agressão ao supremo valor da informação.

A verdade e a realidade não são “jamais” propriedade da imprensa, apesar dela acreditar nisso. O dever da imprensa restringe-se tão somente ao trabalho de fazer a mediação e a transmissão social das notícias, com o compromisso inalienável de defender sempre, e acima de tudo, o interesse público.

Os jornalistas chineses, cooptados pelo sistema antidemocrático da China, e os jornalistas anglo-americanos, cooptados pelo sistema dito democrático dos EUA e da UK, conseguiram, em suas respectivas épocas, anular o exercício da imprensa e da informação livre. E, além disso, acabaram sufocando, dentro de realidades sociais e políticas totalmente distintas (por vontade própria ou por exigência do governo), a condição sagrada e soberana do jornalismo.

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Leandro Marshall é professor, escritor e jornalista, Brasília, DF

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