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Terça-feira, 21 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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JORNAL DE DEBATES > MOBILIDADE SOCIAL

A intolerância ou o shopping e o aeroporto

Por Angela Alonso em 18/02/2014 na edição 786
Reproduzido do Valor Econômico, 13/2/2014

No ponto de ônibus, o comercial da Fifa apela para “Star Wars”: um time de futebol formado pelo robozinho C3PO e soldados da força de paz intergaláctica, anuncia que todos são bem-vindos à Copa. O cartaz evoca a longeva autoimagem dos brasileiros como tolerantes. A ideia de que aqui os conflitos não grassam com a força que ganham noutras partes é antiga. Por exemplo, quando tensões entre regiões ameaçaram seriamente cindir o país, no Império, formou-se um governo autointitulado “Conciliação”.

A imagem se repete em escritos de intelectuais e discursos de políticos ao longo do tempo. Para ficar numa versão clássica, Gilberto Freyre argumentou que aqui vivemos num delicado e profícuo “equilíbrio de antagonismos”. Isto é, enquanto noutras partes diferenças éticas e religiosas e subordinações sociais geram guerra aberta entre grupos, aqui a sociabilidade amornaria o conflito. Nosso jeitinho, o pendor para o diminutivo, para pessoalizar em vez de ir à regra, teriam tornado suportáveis e até amenas desigualdades sociais tão pronunciadas. Assim é que a empregada da casa é “quase uma pessoa da família”, em linha com os escravos domésticos do Império. O “quase” aí faz a diferença. Indica que a distância entre uns e outros parece se anular, mas segue resguardada. Há afeto, desde que haja subordinação.

Esta elisão simbólica das diferenças via relações sociais funcionou longamente como colchão de amortecimento para desigualdades e hierarquias e ajudou a reproduzi-las. O mesmo se pode dizer da ascensão social pelo “talento”. Louva-se a ida aos céus de alguns, por “excepcionais” – por exemplo, Silvio Santos, Lula, Pelé, Joaquim Barbosa –, apresentados como exemplares da possibilidade de ascensão para todos, independente de origem social, regional ou étnica.

A tolerância à brasileira pressupõe subordinação

Mas como fica esse princípio de tolerância quando, em vez de indivíduos avulsos, que surgem de tempos em tempos, há uma multidão de ascendentes simultâneos? No mínimo, o princípio trinca. Está às escâncaras o incômodo que esta ascensão produz nos estratos mais altos. Isto se viu nos shoppings, com os rolezinhos, como nos aeroportos, que, na opinião de uma professora universitária – veiculada nas redes sociais –, decaíram a rodoviárias. O incômodo assoma no espaço público, onde não se pode ignorar a presença ostensiva do que uma moradora de Higienópolis nomeou tempos atrás de “gente diferenciada”.

Não cabe aqui discutir os mecanismos que possibilitaram o ingresso de milhões no universo do consumo, mas o fato é que, nos últimos anos, um estrato inteiro ascendeu. Mudança para a qual o bordão do ex-presidente, “nunca antes na história deste país”, não exagera. O fenômeno vem sendo nomeado como “classe C”. Termo impreciso porque se designa como classe grupo muito heterogêneo a partir de sua renda, quando classe designa sobretudo a partilha de uma experiência social, de um conjunto de vivências para além do consumo, que incluem formas de pensar, agir, sentir, se expressar. Não menos relevante, classe é um conceito relacional, existe por diferenciação e antagonismo, uma só tem sentido em relação a outra.

Por isso, usualmente, quando a distância social entre grupos diminui, os mecanismos de distinção social se sofisticam. Norbert Elias mostrou como isso aconteceu com a nobreza de corte francesa no século XVIII, que foi inventando maneiras cada vez mais rebuscadas de autoapresentação, uma etiqueta de difícil reprodução pelos ascendentes sociais. Pierre Bourdieu, tratando da França já no século XX, apreendeu o mesmo processo até no gosto artístico. Estudos deste tipo mostram que os grupos mais altos na hierarquia social, quando se sentem ameaçados, buscam novas formas de distinção, que podem ser novas formas de desigualdade.

Entram então em disputa os símbolos que permitem a cada indivíduo se localizar na hierarquia social. Parece que, no nosso caso, os shoppings e os aeroportos se revelaram dois espaços icônicos, por meio dos quais os grupos mais altos se distinguiam com clareza meridiana dos mais baixos. Consumo e viagens eram estratégias para demonstrar refinamento, sofisticação e traçar a linha entre elite e populacho. Mas quando muitos podem ter diploma universitário, comprar grifes e ir a Nova York, o prestígio que se auferia com essas prerrogativas se esmaece. O Tratado de Tordesilhas social, que divide os grupos, entra em risco. Agora é preciso diplomas com grife, shoppings “exclusivos”, destinos exóticos, para não se confundir com a “massa”.

Quando a renda por si não separa com nitidez, passam a relevantes formas sutis de diferenciação, como as maneiras – o modo de falar, andar, vestir – e os gostos – o musical, por exemplo. No caso dos rolezinhos e dos aeroportos, isto está no fulcro das reações. A tentativa dos shoppings de discriminar quem entra ou não se valeu desses critérios, os mesmos da professora da PUC em seu comentário jocoso no Facebook (“aeroporto ou rodoviária?”) sobre a vestimenta de um passageiro de avião. O juízo estético opera como meio de exclusão, aponta a inadequação da posição social desses indivíduos. Supõe-se que ali estão por transgressores. Estão fora do lugar.

Aí voltamos à tópica do país sem preconceito, que está na propaganda da Fifa. A tolerância à brasileira vicejou enquanto a subordinação de certos grupos a outros estava não só bem definida no âmbito da economia como no dos costumes. Agora que estas distâncias encurtaram – e olha que seguem enormes –, a tolerância encurtou também. As reações exasperadas dos frequentadores usuais de shoppings e aeroportos em relação aos novos usuários o evidenciam. A visibilidade dos antes invisíveis, da “gente diferenciada”, soa como insubordinação para grupos que se sentem ameaçados, a ponto de apelarem para a violência física, como em episódios homofóbicos recentes e no quase linchamento de um jovem negro.

Soa paradoxal que num país no qual já se pediu tanto por inclusão, por expansão de direitos e de prerrogativas, agora assomem no espaço público estas demandas por exclusão. Mudança gera conflito, mas não precisa gerar intolerância.

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Angela Alonso é professora livre-docente de sociologia da USP, diretora científica do Cebrap

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