Sábado, 24 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

JORNAL DE DEBATES > RUAS EM TRANSE

A tragédia anunciada do cinegrafista

Por Carlos Tautz em 18/02/2014 na edição 786
Reproduzido do Blog do Noblat, 11/2/2014; intertítulo do OI

A tragédia do cinegrafista da TV Bandeirantes Santiago Andrade não foi somente pessoal nem inesperada. O rojão que o assassinou também violentou o direito de toda a sociedade ser informada e demonstrou, mais uma vez, a total vulnerabilidade de jornalistas que cobrem nas ruas os fatos que desde 2013 vem redesenhando dramaticamente o cenário político no Brasil.

Igualmente, o drama de Santiago coloca uma enorme interrogação sobre a vontade e a capacidade de empresas de comunicação e autoridades públicas garantirem a segurança de repórteres que trabalharão durante este ano inteiro de manifestações.

Já nos protestos de 2013, dezenas de jornalistas foram agredidos (em São Paulo, um perdeu o olho). A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo estima que 114 profissionais sofreram violências no País. O Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro tem outra metodologia de cálculo e chega a um número ainda pior.

Elemento fundamental

Somente nesta cidade, 49 profissionais de imprensa foram atingidos por balas de borracha, cassetadas, pedradas, tapas, socos e ameaças de todos os tipos, vindas dos dois lados do confronto, o que já configura impacto sistêmico e particular contra uma categoria que vai às manifestações para exercer sua profissão.

Todos a quem cabe responsabilidade em evitar essas violências, e também são responsáveis em maior ou menor grau pela morte de Santiago, há muito possuem conhecimento do que já aconteceu e do que está por vir. Essas responsabilidades vão além, inclusive, do assassino direto do cinegrafista e é necessário que todos finalmente evitem que outras mortes se consumam.

A TV Bandeirantes precisa assumir a responsabilidade por ter enviado seu funcionário à linha de frente da manifestação dando-lhe como equipamento de proteção e identificação apenas um crachá. E, se lhe deu o equipamento adequado e Santiago não o utilizou, sua culpa continua, porque a empresa precisava tê-lo impedido de trabalhar.

Afinal, há muito o estado de guerra no Brasil mata tanto quanto conflitos convencionais e exige garantia de segurança a jornalistas do front da notícia. Tanto é que, ao socorrer Santiago, usavam capacetes os dois repórteres da BBC – emissora de larguíssima experiência na cobertura de todo tipo de conflito no mundo inteiro.

Enorme responsabilidade também tem o Secretário Estadual de Segurança Beltrame, que desde novembro passado foi procurado pelo sindicato para estudar como garantir a segurança dos jornalistas, mas desde então se omite. Finge desconhecer que jornalistas nestas situações precisam ter garantidos direitos como cidadãos, como trabalhadores e como operadores do direito de a sociedade se informar – este elemento fundamental para o exercício da própria democracia. Mas, a esta altura, é o caso de perguntar: alguém liga para a democracia?

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Carlos Tautz, jornalista, coordenador do Instituto Mais Democracia – Transparência e controle cidadão de governos e empresas

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