Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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JORNAL DE DEBATES >

A violência e nós

Por Helena Celestino em 18/02/2014 na edição 786

Para treinar seus jornalistas em coberturas difíceis, a BBC manda-os para um workshop em que são capturados por um grupo terrorista, ficam em cativeiros, passam por uma semana de horrores, tudo em nome de minimizar os riscos de uma profissão cada vez mais perigosa. Diante do Occupy Wall Street, o movimento de protesto que montou acampamento em Manhattan, a ombudsman do “New York Times” pediu ajuda aos grandes nomes da mídia e da academia americana para ajudar a pautar os repórteres, numa tentativa de melhorar a cobertura e diminuir antagonismos desnecessários entre o movimento e os jornalistas.

Enfrentar a violência e o desagrado de grupos políticos entrou na vida de nós todos, jornalistas: cada vez mais, pelo mundo e aqui, manifestantes, repórteres e policiais feridos fazem parte do cotidiano de protestos nas ruas. A dramática morte de Santiago Andrade poderia virar a senha para repensar essa trágica crônica das cidades brasileiras, o momento de a sociedade se unir contra a violência, seja ela política, policial ou sinal de barbárie.

Aconteceu na Espanha, há muito tempo, quando todos foram para a ruas contra o ETA, o grupo separatista basco, cuja ação política era expressa em atos terroristas contra o Estado e seus símbolos. A sociedade se uniu contra a violência e em defesa da ainda frágil democracia na Espanha, recém-saída da longuíssima ditadura franquista. O mundo mudou e o final desta história é quase feliz: militantes do ETA acabam de ser libertados pelo Tribunal Europeu de Direitos Humanos e seus líderes negociam a dissolução do grupo, sem abrir mão da luta separatista, agora democraticamente expressa numa proposta de plebiscito.

Os black blocs do século XXI não se lembram do ETA, mas reivindicam-se herdeiros dos manifestantes de Seattle, aqueles primeiros grupos a romper o consenso liberal de Washington e ir para as ruas com gritos e pedras contra a globalização, a cada reunião de líderes mundiais ou encontro do FMI. Encontravam cidades sitiadas, e a violência explodia: após alguns mortos, muitos presos e certas vitórias político-ideológicas, eles se aliaram a movimentos pacíficos de direitos humanos e contra a desigualdade, expressando-se nos fóruns sociais da vida, em Porto Alegre, Índia ou África.

Ambiente polarizado

Cerca de duas décadas e uma revolução digital depois, os jovens foram de novo para as praças, chamando-se de indignados e reclamando do papel reservado a eles neste mundo globalizado em crise, que deixou grande parte de uma geração sem emprego e sem futuro. Todos vimos: de praça em praça, os protestos na Espanha, no Cairo ou em Nova York, Rio, Santiago ou Kiev, cada um em seu momento, mostrou o poder do espaço público, ainda a melhor das arenas para expressar opinião, reivindicar liberdade, gritar contra a política oficial. Parecia a realização de algumas utopias, mas foram duramente reprimidos e trouxeram como efeitos colaterais a violência, de novo a escolha política errada para marcar presença.

No Brasil, especialmente no Rio e em São Paulo, o confronto entre uma polícia violenta/despreparada e manifestantes com escolhas irresponsáveis/equivocadas ganhou espaço nas ruas, num clima de radicalização e levando, junto, a hostilidades a jornalistas. “A lógica dos black blocs era a violência simbólica, a lógica da polícia era a proteção, a lógica do governo era responder aos desafios sociais com cuidado e compromisso, a lógica da sociedade era rejeitar a barbárie. Todos erramos, violamos nossas lógicas”, diz a professora da Universidade Federal de São Paulo Esther Solano Gallego, desde agosto monitorando os black blocs no Brasil e na Europa.

É tempo de fazer autocríticas e punir os culpados. A estratégia do poder público de só tratar com os manifestantes através da polícia não deu certo. Tá bom, não é fácil negociar com um grupo que aceita qualquer um com uma máscara na bolsa, não tem líderes e não acredita no poder público. “Mas é preciso fazer um gesto para baixar a tensão social”, alerta a professora.

A dolorosa morte de Santiago não foi um ataque à imprensa, foi resultado da violência crescente nas ruas, uma crônica da tragédia anunciada. Nós, jornalistas, nos sentimos mais vulneráveis pela obrigação de estarmos em lugares onde mora o perigo. Desde a morte de Tim Lopes, tomamos medidas de proteção extra e temos como mantra evitar riscos à segurança ao cobrir a violência do Rio, os conflitos sectários de Bagdá ou a tsunami do Japão. No quadro político polarizado e armado, os números de baixas crescem, mas temos de continuar de olhos e cabeças bem abertas para entender o mundo e escapar das armadilhas da psicose da violência.

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Helena Celestino, do Globo

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