Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

JORNAL DE DEBATES > RUAS EM TRANSE

Da violência da mídia à violência dos black blocs

Por Jaime Amparo Alves em 18/02/2014 na edição 786

A magia da retórica autoritária: de repente, uma preocupante afinidade discursiva entre alguns representantes da imprensa alternativa e a grande mídia. A morte do cinegrafista da TV Bandeirantes Santiago Andrade se transformou em um prato cheio para jornalistas progressistas vomitarem adjetivos como “criminosos”, “homicidas” e “terroristas”, como se trabalhassem nas redações de Veja ou da Globo. A ativista Elisa Quadros “Sininho” é classificada como “fria e com uma disposição quase infinita para tocar o terror”, o deputado Marcelo Freixo visto como “financiador da violência” e advogados-militantes como coparticipantes em atos delinquenciais.

Com um pouco de boa-fé dá para saber que os dois jovens acusados pelo “homicídio” de Santiago Andrade não premeditaram “assassinar” um profissional da imprensa, como a verborragia fascista quer fazer crer. Os black blocs são controversos, mas não são terroristas. Ao invés de seguirmos a trilha perigosa da direita brasileira, deveríamos ser mais inquisitivos sobre a mensagem que nos querem transmitir e mais curiosos ainda sobre o contexto político que possibilitou seu surgimento entre nós.

Os black blocs surgem no Brasil em um contexto de repressão policial e de monopólio da voz que deixa poucas alternativas para as vozes dissonantes. Quando um deputado federal rasga na tribuna da Câmara uma revista semanal de informação, o faz porque a violência da mídia sequestra seu direito, julga, assassina reputações, enfim, a mídia mesmo se converte em um atentado à liberdade de expressão. A violência legítima do parlamentar não pode ser comparada à violência da mídia. No mesmo sentido, ainda que os black blocs nos assustem, sejam instrumentalizados e desagreguem algumas bandeiras de luta, tratar sua violência como “terrorismo social” (sic!) é desconhecer as implicações políticas do uso de tal termo e os custos a serem pagos por introduzi-lo no léxico político do país. As manifestações “extremas” estão acontecendo em um contexto extremo de abuso do poder público, de violência policial e de autoritarismo midiático. Não estariam os black blocs na verdade reivindicando para si parte da violência monopolizada pelos meios de comunicação e pela polícia? Não estaria aí a razão da tentativa, em vão, da Globo e cia. em tirar dividendos políticos das manifestações?

A exploração do “assassinato”

No bojo da etiqueta “terrorismo” vem a tática fascista que a direita parece ter conseguido pulverizar entre muitos de nós: a criminalização dos movimentos sociais. Esta é a nossa maior derrota política e o governo Dilma Rousseff realmente não necessita desta trágica vitória. Os governos autoritários de Sérgio Cabral (PMDB) e Geraldo Alckmin (PSDB) têm na violência policial, muito antes do surgimento dos black blocs, sua tática de guerra, assim como o jornalismo econômico tem sua tática do caos.

Ainda que boa parte dos protestos de junho de 2013 tenha desembocado em uma agenda partidária/midiática na busca pela inviabilidade do governo e da reeleição da presidenta Dilma – e ainda que haja uma violência condenável por parte de jovens aderentes ao quebra-tudo – seria uma tragédia os petistas (e a blogosfera simpatizante) convergirem com Veja e Globo na exploração insidiosa da morte do cinegrafista da Band e na criminalização dos ativistas sociais. Aqueles e aquelas torturadas na ditadura como terroristas, assassinados nas favelas como bandidos, espancados nos protestos pela reforma agrária como neobobos… sabem que a linha que demarca os limites do protesto e da ordem é bastante arbitrária porque depende de quem tem o poder de defini-la. Parafraseando a própria presidenta Dilma – em sua indisposição em enfrentar a violência diária da mídia –, não é preferível o barulho das ruas do que o silêncio da ditadura?

Há leis suficientes no Brasil que regulam as manifestações populares e protestos. Não necessitamos de uma lei anti-terror para conter a violência de alguns manifestantes, ou de grupos infiltrados (black blocs, P2…) nas lutas sociais. O que nos faltam são uma polícia civilmente preparada para a democracia e governos mais abertos às vozes das ruas e mais intolerantes com o autoritarismo da mídia. A morte de Santiago Andrade foi uma tragédia, não foi um cálculo politico de jovens terroristas. Ouvindo a exploração do “assassinato” no editorial do Jornal Nacional fica mais visível que profissionais como Andrade são também vítimas das empresas nas quais trabalham. O jornalismo criminoso praticado nas grandes redações expõe seus profissionais e é combustível perigoso para uma juventude que não encontra canais de expressão para suas pautas políticas.

Discurso da ordem

Quando do julgamento da ação penal 470, enviei um e-mail pouco educado ao deputado Ivan Valente cobrando uma postura coerente. Não havia visto um posicionamento seu, tampouco do partido, em defesa das lideranças do PT “assassinadas” politicamente. O silêncio de boa parte da esquerda em relação à flagrante agenda autoritária do complexo STF/conglomerados de mídia de destruição do PT – em que pesem os erros estratégicos dos governos Lula e Dilma – é uma covardia que deixa aqueles à esquerda do PT mais pequenos. O “mensalão” conseguiu reunir, por cumplicidade e omissão, esquerda e direita contra o PT. Do mesmo modo, se unir ao coro de Globo e cia. na criminalização do PSOL é um caminho que empobrece e suja a história do Partido dos Trabalhadores.

No que diz respeito à imprensa alternativa, Conversafiada, Brasil 247, O Tijolaço, Blog da Cidadania, O Cafezinho… e outras referências do jornalismo alternativo têm nos últimos acontecimentos no Rio de Janeiro a sua prova de fogo. É assumir os ideais da esquerda democrática – o que significa empurrar o PT à esquerda – ou sucumbir ao discurso da ordem a qualquer preço. Se a escolha for pela segunda opção, então não encham o saco. Já estamos satisfeitos com Folha, Veja e Globo.

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Jaime Amparo Alvesé jornalista e antropólogo

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