Sábado, 24 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

JORNAL DE DEBATES > RUAS EM TRANSE

Imprudência na informação e a conjuntura aflitiva

Por Eduardo Ribeiro Toledo em 18/02/2014 na edição 786

Logo após ocorrer o evento que causou o falecimento do cinegrafista da Band, Santiago Andrade, uma considerável parte de articulistas da imprensa – nem tanto jornalistas –, de forma açodada, correu para escrever, desenfreadamente, afirmando que a culpa era dos tais “Black blocks”. Divulgaram a autoria do fato antes mesmo de surgirem os vídeos de celulares e de TVs de outros países, inclusive, que revelavam as imagens da cena ocorrida.

Antes da revelação das imagens do evento, não havia como afirmar a autoria do fato. Tanto é assim que a imprensa da Rede Globo – nem tanto jornalística – divulgou, por outro lado, que a autoria teria sido da polícia (ver aqui) e depois, na marra, retirou a matéria equivocada de seus veículos de comunicação na internet.

Posteriormente, com as imagens e a possível apuração do fato, confirmou-se que dois rapazes participaram do evento. Os dois foram identificados: um compareceu espontaneamente à delegacia; o outro, detido em fuga. De imediato, parte dos formadores conservadores da opinião pública decidiu divulgar, associar, ao fato de o deputado Marcelo Freixo (PSOL/RJ) oferecer assistência jurídica (a todo e qualquer tipo de sujeito acusado em inquéritos policiais, há anos) a suposta ligação dele com a autoria do evento.

CBN quer incendiar a cidade

Na carona dessa associação envolvendo interesses políticos partidários, não poderia resultar outra coisa. O advogado de um dos rapazes incriminados pronunciou-se, em entrevista, afirmando que os acusados eram “aliciados” e, mais ainda, “remunerados” (sic) por políticos e partidos. Todavia, o advogado “revelou o milagre, mas não teve peito de revelar o nome do santo” (ver aqui).

Para completar o estado de agonia urbana, encontra-se no perfil da CBN, na rede social do Facebook, a informação de que o vice-líder do PMDB da assembleia do Rio (ver aqui) já conta com 10 assinaturas para instaurar a CPI dos Black-blocks. Segundo o deputado, há de se apurar “quem seriam os financiadores da violência” (sic) (ver aqui) orquestrada – de um fato político que pertence à esfera do irracional, como diria Max Weber, em princípio com característica nitidamente difusa, fato não homogêneo.

Conclusão: (I) a CPI inventada possui todos os ingredientes para acabar em pizza; a menos que, (II) como já faz parte dos desdobramentos de apurações de responsabilidades e fatos políticos no Brasil, venha a aparecer um recibo de compra de fogos de artifício, apresentado por uma empresa que, ao longo de toda sua existência, tenha emitido apenas uma nota fiscal de venda – nota fiscal esta que “comprovaria” exatamente a ligação do rojão com o falecimento do cinegrafista; e que (III) a CBN, ao divulgar a notícia da CPI publicando esta foto do parlamentar – que mais parece fazer troça, sorrindo da nossa cara – deseja, em realidade, como Nero, incendiar a cidade.

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Eduardo Ribeiro Toledo é consultor jurídico e escritor

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