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Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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JORNAL DE DEBATES > ECOS DE MOMO

Pedreiro Waldemar

Por Ben-Hur Demeneck em 11/03/2014 na edição 789
Reproduzido do Diário dos Campos nº 32.163 (Ponta Grossa, PR), 2-5/3/2014

O Carnaval inspira quem tem gosto pela fantasia, mas também aguça os praticantes da demagogia. Ora um juiz proíbe gastar dinheiro público nessa manifestação popular, ora um político avisa que irá destinar o dinheiro da festa para setores importantes. No Brasil, a cultura continua assunto secundário. Grupos conservadores elogiam qualquer atitude de contingenciamento. Porque o dinheiro do Carnaval servirá para resolver os problemas da educação, da saúde e da segurança. Ou pelo menos irá ajudar. Até porque a cultura não tem nada a ver com educação, saúde, segurança. Muito menos com geração de emprego e de renda. É assunto de gente desocupada, idealista e que procura ler nas horas vagas.

Opções jornalísticas pouco originais também marcam presença na cruzada anti-Carnaval. Em 2013, uma matéria do UOL Notícias (8/2) fez uma comparação fantástica: “Prefeituras de capitais vão gastar R$ 172 milhões com o Carnaval, o equivalente a 3.000 casas populares”. Como sabemos, a habitação é mesmo tema recorrente no portal. Nunca passa mês sem que o UOL publique um dossiê contra a especulação imobiliária e as manobras em planos diretores das cidades contrariando o espírito da República. Ou seja, nada mais justo que o veículo pendure na conta do Rei Momo uma cotação baseada em casas populares.

Ao lado daquela matéria, uma enquete perguntava se “as prefeituras deveriam bancar o Carnaval?”. As alternativas eram: a) “Não, deveria ser tudo pago pela iniciativa privada. Dinheiro público é para outras coisas”; b) “Sim, é uma festa importante que traz retorno para as cidades”; c) “Não tenho opinião”. Na contabilidade parcial (valor em aberto até agora), 84,97% dos 1.232 votos resultou de cliques feitos na opção “a”, aquela que sugere aplicar dinheiro em “outras coisas”. Portanto, o maior acontecimento cultural do país não seria suficientemente “coisa” para ser levado a sério. Dependesse dessa eleição, estava feita a oposição “Habitação versus Carnaval”.

Falta de interesse pela cultura

Garanto que se houvesse um vídeo do cantor Blecaute cantando “Pedreiro Waldemar”, a balança penderia para outro lado. A marchinha, composta por Wilson Batista nos anos 1940, começa com a pergunta retórica se conhecemos esse personagem da construção civil. Ele pergunta e logo responde: “Não conhece,/ mas eu vou lhe apresentar!” Waldemar já de madrugada toma o trem da Circular. E embora ele seja um mestre em seu ofício, “faz tanta casa/ e não tem casa pra morar”. Embora construa edifício, depois não pode entrar. A equação muda para “Carnaval + o paradoxo da Habitação”.

Na Copa do Mundo de 1950, outra marchinha não figurou apenas num artigo de jornal. Depois de o Brasil fazer o sexto gol em partida contra a Espanha, uns 150 mil torcedores entoaram “Touradas de Madri” no Maracanã. A composição de João de Barro e de Alberto Ribeiro fez sucesso em 1938, mas estava lá guardada na memória da multidão, que pagou seu tributo a Euterpe, Calíope e Érato.

Saindo do salão para a avenida, a roupa-escultura criada por Hélio Oiticica era vestida/executada por passistas da Mangueira bem antes de se tornar uma obra disputada por bienais de artes. E enquanto todos continuavam acusando o Carnaval de despolitizado, Joãosinho Trinta apresentou o enredo “Ratos e urubus – Larguem a minha fantasia” em 1989. Estilizou a miséria e teve seu “Cristo Mendigo” censurado.

Em contrapartida à criatividade, os discursos anti-Carnaval acima comentados tendem a se concentrar na aplicação de um falso problema de gestão pública – porque não querem falar realmente de administração. Apenas destacam sua falta de interesse pela cultura – seja pelo Carnaval, por bibliotecas ou por festivais de teatro.

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Ben-Hur Demeneck é jornalista e doutorando em Ciências da Comunicação na ECA/USP

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