Segunda-feira, 28 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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JORNAL DE DEBATES > MÍDIA & CIÊNCIA

Os três biomas brasileiros

Por Felipe A. P. L. Costa em 25/03/2014 na edição 791

Nos últimos anos, o termo “bioma” passou a ser usado pela imprensa brasileira com bastante frequência – ver, por exemplo, as matérias “Cerrado pode sumir em 2060” , de Juliana Boechat, publicada no Correio Braziliense, em 23/10/2009; “Cresce área plantada com soja no bioma Amazônia” , de Célia Froufe, publicada na revista Veja, em 13/10/2011; “Centro da cidade era coberto por esse tipo de bioma” , de “R. B.”, publicada no Estado de S. Paulo, em 16/10/2011; e “Desmatamento na mata atlântica é o maior desde 2008”, de Fernando Tadeu Moraes, publicada na Folha de S.Paulo, em 4/6/2013.

A palavra, ao que parece, passou a ocupar no jargão jornalístico o espaço anteriormente dado a expressões como “paisagem”, “vegetação”, “formação” ou mesmo “região biogeográfica”. Ocorre que em todos os exemplos acima – e em muitos outros – o termo está sendo usado de modo inadequado, induzindo o leitor não familiarizado com o assunto a erros e mal-entendidos.

Esse lado do problema, no entanto, não chega a surpreender; afinal, repórteres em geral costumam reproduzir aquilo que ouvem das fontes. O que mais preocupa talvez seja perceber que o uso inadequado do termo ganhou ares de “oficial”, tal a facilidade com que aparece em materiais divulgados por órgãos governamentais, como o Ministério do Meio Ambiente (e.g., ver aqui) e o próprio Ministério da Educação. Eis, por exemplo, o que diz um documento recente do MEC (BRASIL 2013):

“O planejamento dos currículos deve, obviamente, considerar as fases, as etapas, as modalidades e os níveis dos cursos, e as idades e a diversidade sociocultural dos estudantes, bem como suas comunidades de vida, dos biomas e dos territórios em que se situam as instituições educacionais.”

Ainda que vagas e imprecisas, afirmações “oficiais” como esta tendem a encontrar acolhida fácil no texto dos livros didáticos – estou me referindo aqui aos livros de Ciências (ensino fundamental) e Biologia (ensino médio), embora o problema deva se repetir nos livros de Geografia –, talvez pelo fato de o governo federal ser um cliente tão importante…

O conceito de bioma

Vista do espaço, a superfície da Terra é dominada pela cor azul. Isso ocorre por causa da presença dos oceanos, grandes corpos de água cuja composição química lhes dá uma coloração ligeiramente azulada. As terras emersas aparecem como grandes blocos esverdeados ou amarronzados, dependendo do tipo de cobertura e do grau de exposição do solo – o verde predomina em regiões onde a vegetação é densa e fechada, enquanto o marrom predomina quando a vegetação é rala ou o solo está exposto (para detalhes e comentários adicionais, ver PIMM 2005).

Examinando as terras emersas mais de perto, é possível perceber que alguns blocos de vegetação distribuídos ao longo de uma mesma faixa latitudinal são bastante semelhantes entre si, embora estejam situados em continentes diferentes. A esses conjuntos de blocos semelhantes daremos aqui o nome de bioma. No caso das terras emersas, o termo pode ser aplicado a um tipo característico de paisagem, ocupando uma área geográfica relativamente extensa e descontínua, quase sempre envolvendo dois ou mais continentes.

O conceito de bioma – do grego, bi(o)-, vida + –oma, agrupamento, massa – foi apresentado publicamente pelo biólogo estadunidense Frederic F. Clements (1874-1945), em um encontro científico ocorrido em 1916. O ponto de partida de Clements foi a noção de que plantas e animais são elementos essenciais em virtualmente todas as grandes comunidades do mundo. Embora o significado original levasse em conta a composição de espécies, o termo mais tarde passou a ser usado apenas em alusão à fisionomia da paisagem – i.e., como um substituto mais amplo para outras expressões, como “formação” ou “fitofisionomia”. Em 1939, ele e um colega trataram do conceito de bioma em um livro-texto (CLEMENTS & SHELFORD 1939) – curiosamente, porém, a palavra não foi incluída na extensa lista de termos (e.g., formação, associação, consórcio, sociedade, família, colônia etc.) apresentados e definidos em outro livro-texto do qual ele foi coautor, publicado apenas um ano antes (WEAVER & CLEMENTS 1938).

A interface clima/vegetação

É importante ressaltar que cada tipo de bioma reúne blocos descontínuos de paisagem, mantidos juntos sob uma mesma denominação em função do grau de semelhança fisionômica que exibem, não importando a composição específica de suas biotas. O critério decisivo é, portanto, o aspecto da paisagem, não a identidade das espécies presentes. Blocos de vegetação natural que prosperam nas proximidades da linha do equador, por exemplo, tendem a exibir certas propriedades que definem um tipo comum de paisagem, quer estejamos na América do Sul, na África, na Ásia ou na Austrália.

A semelhança de aspecto nesses casos é o resultado de um fenômeno mais geral chamado evolução convergente. O que ocorre é que linhagens de plantas que vivem sob circunstâncias ecológicas semelhantes (e.g., grau de insolação e regime de chuvas) tendem a desenvolver “soluções” mais ou menos parecidas, o que muitas vezes se reflete em semelhanças na conformação geral do corpo e/ou no comportamento. Em regiões de clima quente e úmido, por exemplo, predominam árvores de grande porte, cujas folhas são largas e duradouras; se o clima é quente e seco, passam a predominar plantas de porte mais baixo, armazenadoras de água e cujas folhas tendem a ser diminutas e decíduas. Padrões característicos correspondentes podem ser igualmente identificados em plantas que prosperam em regiões de clima frio e úmido ou frio e seco.

O clima de uma região é muito influenciado pela latitude do lugar – sobre os padrões climáticos que caracterizam o território brasileiro, ver, neste Observatório, o artigo “Climatologia para jornalistas” . Não é de estranhar, portanto, que os principais tipos climáticos estejam distribuídos em faixas latitudinais ao redor do planeta. Ora, se os principais climas estão distribuídos desse modo e se o aspecto da vegetação é muito influenciado pelo clima, devemos então detectar algum padrão latitudinal na distribuição da vegetação. E é justamente isso o que ocorre (para exemplos, detalhes e comentários adicionais, ver WALTER 1986). Na verdade, as coincidências entre os mapas de clima e de vegetação são espantosas, a tal ponto que é possível prever a presença de um sabendo apenas da presença do outro.

Dicotomias básicas e o número de biomas

Os biomas de terra firme costumam ser definidos em função do aspecto geral da vegetação dominante (= fitofisionomia). A fisionomia da vegetação, por sua vez, varia de acordo com a abundância relativa de diferentes formas de vida. Levando em conta a dicotomia “árvore perene” vs. “erva anual”, três fisionomias básicas podem ser identificadas: as florestas, quando há um predomínio de plantas arbóreas; os campos, quando predominam as plantas herbáceas; e as savanas, quando árvores e ervas são codominantes. Essas diferenças nem sempre são definitivas; trata-se, muitas vezes, de um equilíbrio dinâmico (para detalhes técnicos, ver, por exemplo, ACCATINO et al. 2010).

Além da arquitetura das plantas, o aspecto da vegetação varia com as dimensões e o comportamento da superfície fotossinteticamente ativa. No primeiro caso, uma distinção fundamental costuma ser feita entre as plantas que sustentam folhas “largas” (plantas latifoliadas, quase todas angiospermas) e aquelas que sustentam folhas “estreitas” (plantas de folhas aciculares, quase todas gimnospermas). No segundo caso, é costume distinguir entre as plantas que ficam sem folhas em alguma época do ano (caducifólias ou plantas de folhas decíduas) e aquelas que nunca ficam desfolhadas por abscisão (perenifólias ou plantas sempre-verdes).

Com base nessas dicotomias, a vegetação natural das terras emersas poderia ser arranjada em apenas sete biomas (para detalhes e comentários adicionais, ver McNAUGHTON & WOLF 1984), a saber: floresta ombrófila (vegetação arbórea, latifoliada e sempre-verde); floresta caducifólia (vegetação arbórea, latifoliada, mas decídua); floresta boreal (vegetação arbórea, com folhas aciculares); savana (vegetação predominantemente herbácea, entremeada por árvores); campo (vegetação herbácea, formando um estrato contínuo); tundra (vegetação herbácea, mas formando um estrato descontínuo); e deserto (vegetação escassa ou inexistente).

No que segue, vamos examinar rapidamente cada um deles.

Floresta ombrófila

A floresta ombrófila (= floresta pluvial, floresta úmida ou floresta tropical) é caracterizada pela presença de vegetação arbórea, latifoliada e sempre-verde.

Os climas sob o qual esse bioma prospera são predominantemente quentes e úmidos. A temperatura média anual é sempre igual ou superior a 18°C. A pluviosidade anual costuma ser superior a 1.500 m. As médias mensais variam pouco ao longo do ano, principalmente as da temperatura. Todavia, dependendo do grau de sazonalidade no regime de chuvas, algumas espécies de árvores podem perder suas folhas na época mais seca do ano.

Essas condições climáticas caracterizam três regiões do planeta, todas localizadas majoritariamente no hemisfério Sul: (i) a bacia amazônica, com áreas adicionais na América Central, e a borda oriental do Brasil; (ii) a bacia do rio Congo e Madagascar, na África; e (iii) o Sudeste da Ásia, parte do Nordeste da Austrália e mais as ilhas entre a Ásia e a Austrália (incluindo Nova Guiné e Bornéu).

Floresta caducifólia

A floresta caducifólia (= floresta decídua) é caracterizada pela presença de vegetação arbórea, com folhas largas (latifoliadas) e decíduas. Significa dizer que, durante uma época do ano, todas ou quase todas as árvores perdem suas folhas.

Os climas sob o qual esse bioma prospera são em geral moderados. A temperatura média anual é sempre inferior a 18°C. A pluviosidade anual gira em torno de 1.000 mm. As médias mensais variam muito ao longo do ano, com verões amenos e invernos frios, durante os quais a água congela. Dependendo do rigor e da extensão do inverno, as árvores podem permanecer mais ou menos tempo desprovidas de folhas.

Essas condições climáticas caracterizam três grandes regiões do planeta: (i) a borda oriental da América do Norte (EUA e Canadá); (ii) quase toda a Europa e parte do Noroeste da Ásia (incluindo partes da Rússia e da China); e (iii) parte da borda oriental da Ásia, incluindo o Japão e ilhas próximas.

Floresta boreal

A floresta boreal (= floresta de coníferas ou taiga) é caracterizada pela presença de vegetação constituída por árvores sempre-verdes e com folhas aciculares.

Os climas sob os quais esse bioma prospera são frios ou gelados e relativamente secos. A temperatura média anual varia entre -5 e 5 °C. A pluviosidade anual em geral é inferior a 700 mm. As médias mensais variam muito ao longo do ano, com invernos rigorosos alternando com verões relativamente brandos. Embora o volume de chuvas seja modesto, o solo está sempre úmido, devido à baixa evaporação.

Essas condições climáticas caracterizam duas regiões do planeta: (i) o Norte da América do Norte (Canadá e Alasca); e (ii) o Norte da Europa e da Ásia.

Savana

A savana é caracterizada pela presença de um estrato denso e quase contínuo de vegetação herbácea (sobretudo gramíneas e plantas assemelhadas), entremeado por vegetação arbórea.

Os climas sob o qual esse bioma prospera são quentes e relativamente úmidos. A temperatura anual é igual ou superior 18ºC. A pluviosidade anual gira em torno de 1.000 mm ou mais. As médias mensais variam muito, principalmente as da pluviosidade, com verões quentes e úmidos alternando com invernos quentes e secos. A densidade do estrato arbóreo costuma variar de acordo com o rigor e a duração (de 3 a 8 meses) da estação seca. No inverno, com a diminuição acentuada no volume de chuvas e a manutenção de temperatura elevadas, as camadas superficiais do solo passam por um período mais ou menos prolongado de déficit hídrico.

Essas condições climáticas caracterizam três regiões do planeta: (i) o Centro-Oeste e o interior do Nordeste brasileiro; (ii) a África meridional (com exceção da bacia do Congo e do extremo Sul); e (iii) o Norte da Austrália.

Campo

O campo (= campina, pampa, pradaria ou estepe) é caracterizado pela presença de um estrato denso e contínuo de vegetação herbácea (sobretudo gramíneas e plantas assemelhadas), naturalmente desprovida de árvores.

Os climas sob o qual esse bioma prospera são frios e secos. A temperatura média anual varia entre -10 e 10ºC. A pluviosidade anual em geral é inferior a 500 mm. As médias mensais variam bastante ao longo do ano: verões quentes ou brandos e úmidos alternam com invernos frios e secos. A pluviosidade pode oscilar bastante de um ano para o outro, caracterizando o clima como particularmente variável e incerto no curto prazo.

Essas condições climáticas caracterizam quatro regiões do planeta, duas em cada hemisfério. No hemisfério Norte: (i) o Centro-Oeste da América do Norte; e (ii) a Ásia Central. No hemisfério Sul: (i) o Centro-Sul da América do Sul; e (ii) a borda oriental do extremo Sul da África.

Tundra

A tundra (ou “planície pantanosa”) é caracterizada pela presença de um estrato descontínuo de vegetação herbácea. A vegetação está concentrada em “moitas”, que podem abrigar alguns arbustos.

Os climas sob os quais prospera esse bioma são muito frios e secos. A temperatura média anual é sempre negativa, variando entre -15 e -5° C. A pluviosidade anual é inferior a 200 mm. As médias mensais variam bastante, de tal modo que invernos longos e rigorosos alternam com verões curtos e brandos. Uma espessa camada do solo (o permafrost), situada em geral a apenas alguns centímetros da superfície, permanece congelada o ano inteiro, inclusive no verão. Essa camada, que pode ter centenas de metros de espessura, funciona como uma dupla barreira, impedindo tanto a penetração das raízes como a infiltração da água. Desse modo, a água fica acumulada acima do permafrost, umedecendo ou mesmo encharcando as camadas superficiais do solo.

Essas condições climáticas caracterizam duas grandes regiões do planeta: (i) o Norte da América do Norte, incluindo a Groenlândia; e (ii) o extremo Norte da Europa e o Norte da Ásia. Essas regiões estão acima da latitude 60º N, dentro do chamado círculo polar ártico.

Deserto

O deserto quente se caracteriza pela escassez ou completa ausência de vegetação permanente.

Os climas sob o quais esse bioma prospera são quentes e secos. A temperatura média anual é superior a 18º C. A precipitação anual é baixa (quase sempre inferior a 250 mm) e errática. A variação sazonal é relativamente pequena, exceto pela concentração dos dias de chuva, que geralmente caem durante o inverno. Embora a temperatura do ar varie relativamente pouco ao longo do ano, há uma acentuada oscilação diária: de 40ºC ao meio-dia a 15ºC ou menos durante a noite. (A oscilação da temperatura do solo é ainda maior, indo de mais de 60º C durante o dia a cerca de 0º C durante a noite.) Em alguns desertos, o regime de chuvas é supraanual – i.e., a queda de chuvas ocorre a intervalos superiores a um ano. O solo em geral é arenoso, estando em permanente estado de déficit hídrico.

Essas condições climáticas caracterizam seis regiões do planeta, três em cada hemisfério, todas nas proximidades da latitude de 30º (N ou S). No hemisfério Norte: (i) Sudoeste dos EUA e Noroeste do México; (ii) norte da África; e (iii) Oriente Médio. No hemisfério Sul: (i) borda ocidental da América do Sul (Chile e Peru); (ii) pequena borda ocidental no Sul da África (Namíbia); e (iii) grande parte do interior da Austrália.

Zonação altitudinal

Os biomas mencionados acima exibem algumas complicações, como as zonas de transição ou mesmo a presença de manchas isoladas de um dentro dos domínios de outro. Uma “intromissão” particularmente comum é a reprodução altitudinal dos padrões latitudinais de distribuição.

Em muitas elevações montanhosas ao redor do mundo, é possível observar uma zonação equivalente àquela que se observa à medida que caminhamos da zona equatorial em direção aos pólos: florestas fechadas dão lugar a florestas abertas, as quais são então substituídas pela floresta boreal ou por uma vegetação do tipo savana; a substituição pode prosseguir em direção a uma vegetação inteiramente herbácea (campo ou tundra, dependendo do lugar) e daí a um topo de montanha inteiramente desértico.

De um modo geral, portanto, o aspecto da vegetação tende a mudar ao longo de gradientes de altitude, sobretudo no caso de grandes elevações. Em localidades situadas nas proximidades da linha do equador, por exemplo, a floresta ombrófila que domina a base das montanhas tende a ser substituída nos pontos mais elevados (> 1.000-1.500 m) por uma vegetação mais aberta, com predomínio crescente de plantas de pequeno porte: a floresta ombrófila dá lugar a uma vegetação savânica, que é então substituída por uma vegetação inteiramente herbácea, desprovida de árvores.

Quantos biomas existem no país?

Dos sete biomas descritos acima, três – e apenas três – ocorrem em território brasileiro: a floresta ombrófila, a savana e o campo. Salvo melhor juízo, nenhum dos livros didáticos disponíveis hoje no mercado adota uma classificação tão enxuta.

O que em geral ocorre é que os autores desses livros identificam como “biomas” o que os autores do passado identificavam como “paisagens brasileiras típicas” – para detalhes e comentários adicionais a respeito dos grandes complexos vegetacionais do país, ver EITEN 1992. Assim, dependendo do autor, o número de “biomas” irá variar de modo significativo, desde cinco (floresta amazônica, cerrado, floresta atlântica, caatinga e campo sulino) ou seis (os cinco anteriores, mais o pantanal) até oito (os seis anteriores, mais a restinga e a mata de cocais) ou mesmo mais.

Para evitar esse tipo de confusão, cabe lembrar que (COSTA 2003): a paisagem “original” do país incluía 61% de florestas do tipo ombrófila (47% de floresta amazônica, 14% de floresta atlântica), compostas por árvores altas, que crescem próximas entre si e em geral sustentam folhas o ano inteiro; outros 37% de florestas abertas ou vegetação do tipo savana (24% de cerrado, incluindo o pantanal mato-grossense, e 13% de caatinga), compostas por árvores baixas, retorcidas (cerrado) ou espinhentas (caatinga), que crescem afastadas umas das outras e em geral perdem todas as folhas na estação mais seca do ano; e 2% de vegetação essencialmente herbácea (campo sulino), onde as árvores são naturalmente raras ou ausentes.

Por fim, para ajustar esses complexos vegetacionais à classificação mundial, basta ter em mente o seguinte: as florestas fechadas (floresta amazônica e floresta atlântica) correspondem ao bioma floresta ombrófila; as florestas abertas (cerrado, incluindo o pantanal, e caatinga) correspondem ao bioma savana; e o campo sulino, desprovido de árvores, corresponde ao bioma campo.

Coda

O conceito de bioma é necessariamente um conceito a ser usado em comparações em larga escala, intercontinentais. Nesse sentido, dizer que a caatinga é um bioma genuína ou exclusivamente brasileiro, como é costume entre alguns autores, é induzir o leitor a erros e mal-entendidos. Problema semelhante ocorre quando se alardeia que um “novo e exclusivo bioma” foi descoberto – ver, por exemplo, a matéria “Formações rochosas guardam região mais preservada do Pampa”, de André Luiz Azevedo, publicada no portal G1, em 22/6/2012.

Existem termos mais apropriados a serem usados em alusão aos diferentes padrões de vegetação intracontinental ou regional – e.g., “ecorregião” (para detalhes técnicos, ver, por exemplo, OMERNIK 2004). Em termos regionais, aliás, temos outros tipos de problemas a corrigir. Por trás do rótulo “caatinga”, por exemplo, não existe um padrão vegetacional único e homogêneo, como a priori se poderia imaginar. A rigor, a caatinga é um grande e heterogêneo mosaico (para detalhes e comentários adicionais, ver EGLER 1951, ANDRADE-LIMA 1981), a exemplo do que acontece com os outros grandes complexos vegetacionais brasileiros. Mas essa já seria outra conversa…

Referências citadas

** ACCATINO, F. & outros 4 coautores. 2010. Tree-grass co-existence in savanna: interactions of rain and fire. Journal of Theoretical Biology267: 235-42.

** ANDRADE-LIMA, D. 1981. The caatingas dominium. Revista Brasileira de Botânica 4: 149-63.

** BRASIL. 2013. Diretrizes curriculares nacionais para educação básica. Brasília, MEC, SEB, DICEI. (O documento pode ser capturado aqui <http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=293&Itemid=358>.)

** CLEMENTS, F. E. & SHELFORD, V. E. 1939. Bio-ecology. New York, Wiley.

** COSTA, F. A. P. L. 2003. Ecologia, evolução & o valor das pequenas coisas. Juiz de Fora, Edição do Autor.

** EGLER, W. A. 1951. Contribuição ao estudo da caatinga pernambucana. Revista Brasileira de Geografia 13: 65-77.

** EITEN, G. 1992. Natural Brazilian vegetation types and their causes. Anais da Academia Brasileira de Ciências 64 (Supl.): 35-65.

** McNAUGHTON, S. J. & WOLF, L. L. 1984. Ecología general. Barcelona, Omega.

** OMERNICK, J. M. 2004. Perspectives on the nature and definition of ecological regions. Environmental Management34 (Suppl. 1): S27-S38.

** PIMM, S. 2005. Terras da Terra. Londrina, Planta.

** WALTER, H. 1986. Vegetação e zonas climáticas. São Paulo, EPU.

** WEAVER, J. E. & CLEMENTS, F. E. 1938. Plant ecology, 2nd edition. NY, McGraw-Hill.

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Felipe A. P. L. Costa é biólogo e escritor, autor, entre outros, de Ecologia, evolução & o valor das pequenas coisas (2003)

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