Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Saber pensar, saber fazer

Por Sylvia Debossan Moretzsohn em 25/03/2014 na edição 791

A revista Cult deste março publica uma série de artigos, a que chama de “dossiê”, sobre as novas diretrizes curriculares para a formação em jornalismo, com uma chamada de capa que repete a conhecida estratégia discursiva na qual uma aparente pergunta é de fato uma afirmação. Assim, o ponto de interrogação poderia ser perfeitamente eliminado: pelo sentido geral das análises, as diretrizes estabeleceriam “o fim do jornalismo crítico”, ao criarem “um abismo entre teoria e prática”.

Decretar o fim do jornalismo crítico não é pouca coisa. Se a comissão de especialistas do MEC tem esse assombroso poder, supõe-se que, até o momento, em suas quatro décadas de existência, os cursos de Comunicação Social tenham formado legiões de jornalistas muito críticos. Que, entretanto, não devem estar trabalhando em jornal nenhum, ou não devem estar conseguindo exercitar seu senso crítico, a julgar pelos trabalhos acadêmicos que têm por objeto o jornalismo produzido nas grandes empresas de comunicação.

E não só por isso: de acordo com o professor Ciro Marcondes Filho, organizador do “dossiê”, o espírito crítico “se aprende e se desenvolve nos bancos universitários, não nos computadores das redações de jornal”. Pois – é a conclusão lógica – as redações de jornal são inescapavelmente alienantes: pura e simplesmente uma linha de montagem onde não há espaço para pensar.

Mas então não adiantaria formar jornalistas para trabalhar nessas redações. Ou, quem sabe, o que desejamos mesmo é formar críticos do jornalismo, desses que ignoram as condições de produção mas repetem o discurso afiado – e previsível – que rejeita tudo o que vem da “grande mídia”, porque, de alguma forma, o que vem dali serve aos interesses do capital.

Não deixa de ser interessante observar que, nas páginas internas, uma das ilustrações do “dossiê” reproduz capas de Última Hora, Realidade, Pasquim, Jornal da Tarde, Opinião: “jornalismo feito de grandes reportagens e engajamento político”, como diz a legenda. Jornalismo crítico, por suposto. Jornalismo dos anos 1950 aos 80. Produzido por jornalistas em geral autodidatas, de gerações anteriores à criação dos cursos de Comunicação, ou que passaram ao largo deles.

Manobra esperta

Professor titular da ECA-USP, Ciro inicia seu artigo com uma citação de Cláudio Abramo desdenhosa da “meia dúzia de atrevidos em Brasília” que se arrogam o direito de definir o que deva ser um curso de jornalismo. Manobra duplamente esperta, pois acena com um nome referencial no jornalismo brasileiro para pinçar um comentário feito há quase três décadas e legitimar uma crítica à “meia dúzia de atrevidos” da comissão atual. Além disso, sugere que o citado jornalista compactuaria com o ponto de vista geral do autor do artigo.

Pelo contrário. Morto em 1987, Abramo fazia críticas ácidas aos cursos de Comunicação Social de sua época. No livro póstumo que reproduz duas longas entrevistas sobre sua carreira e sobre o jornalismo (A regra do jogo, Companhia das Letras, 1988), são vários os trechos em que ele ironiza a formação dos estudantes. Por exemplo:

“Acho engraçado quando vejo nos currículos disciplinas como Teoria da Comunicação. Não sei o que é isso, não tenho a menor noção do que deva ser. (…) Teoria da Comunicação não tem nada a ver com jornalismo. (…)

“Quanto à semiologia, eu a gozo muito mas a conheço pouco. Uma vez li a tese de um amigo, em Paris, e me diverti muito porque aquilo não tinha sentido algum – todo o trabalho era desprovido de significado, uma algaravia só. Mas a tese acabou aprovada na Sorbonne e esse amigo deve agora estar dando aulas no Brasil” (p. 250).

Em relação às teorias, Abramo era uma metralhadora giratória. Desdenhava também de Adorno, Benjamin, escola de Frankfurt: “tudo lixo”. Logo em seguida emendava: “É interessante, mas não deve substituir o outro conhecimento, a outra cultura” (p. 248). Poderia estar completamente errado – e certamente estava, porque não é possível ignorar a relevância dos estudos sobre indústria cultural ou as contribuições da semiologia, semiótica e análise de discurso para a formação do jornalista –, mas era propositalmente enfático e exagerado, para provocar aqueles que despejavam teorizações sem vinculá-las à realidade concreta da profissão.

Homem culto, no sentido em que essa palavra era empregada antigamente, versado em literatura e artes, membro de uma família que aliava a cultura à militância, Abramo considerava que o jornalista precisava ter “uma formação cultural sólida, científica ou humanista” e a experiência prática do mundo, para poder atuar sobre ele: “É preciso andar na rua e saber que ela é feita de paralelepípedos. Não adianta apenas ler a respeito: é necessário pisar aquele chão, sofrer o sol, saber ver nos rostos da multidão o que é uma pessoa e o que é outra” (p. 113).

Criticava, também, a composição do quadro docente das escolas da época:

“É uma ironia que eu, Janio de Freitas, Mino Carta, Alberto Dines, Washington Novaes e outros não estejamos dando aulas na universidade. (…) a regra geral é a do professor que está ali apenas para fazer carrière universitária. Na verdade, a escola deveria ter aberto a carreira para jornalistas feitos, o que teria dado um outro viés aos cursos de jornalismo” (p. 250).

E, mais adiante:

“(…) os jornais e as empresas têm de lutar para que os cursos de jornalismo melhorem, têm de exigir que os professores sejam mais eficientes e examinados por bancas compostas por jornalistas competentes. É assim que se faz. Concentrando-se uma massa de bons professores, consegue-se fazer uma boa escola” (p. 251-2).

Rejeição ao profissional

Todas essas observações são diametralmente opostas às de Ciro Marcondes Filho, que deplora a tendência à valorização, na avaliação curricular para concurso público, à atuação profissional na área, em detrimento da produção acadêmica. Haveria um privilégio aos “academicamente menos competitivos”. Acadêmico “competitivo”, como se sabe, é aquele que “produz” muito – publica, publica, publica, às vezes o mesmo artigo eternamente reescrito: aquele que segue obedientemente as regras produtivistas da Capes, tantas vezes criticadas em diversos fóruns de pesquisadores, sem que nada de objetivo se tenha feito até agora para alterar essa situação.

As escolas – pelo menos as públicas e algumas de grande tradição no ensino privado – podem ser ainda precárias, mas melhoraram muito nas últimas duas décadas, e um dos grandes avanços foi a possibilidade de acolher professores oriundos do meio profissional, capazes de orientar a prática laboratorial, que evidentemente pressupõe experimentação, não simplesmente a reprodução de modelos. Mas, para orientar experimentações, é preciso saber fazer.

Pelo contrário, Ciro considera que “não são os profissionais do jornalismo que devem formar novos jornalistas”.

Com tantas divergências de fundo, é no mínimo curioso que o professor tenha resolvido abrir seu artigo com a referência ao renomado jornalista.

Mais curioso ainda é ler que “as escolas de jornalismo hoje em dia existem basicamente para dar emprego a jornalistas”. A substância do argumento se revela quando pensamos que, nesse caso, as escolas de engenharia existiriam para dar emprego a engenheiros, as de medicina, a médicos, e assim por diante.

Polêmica antiga

Parece bem evidente que a polêmica em torno das diretrizes – que não é nova, a rigor é tão antiga quanto a própria criação das escolas de Comunicação, e se acentuou há 15 anos, quando começaram as discussões a respeito da avaliação dos cursos – é uma luta política pela ocupação de espaços no meio acadêmico, indissociável da disputa sobre o que seja o jornalismo.

O documento aprovado pelo MEC é uma leitura penosa, que tropeça numa profusão de notas de rodapé, às vezes a cada palavra. Apresenta justificativas teóricas contraditórias, que afirmam a existência de uma nova concepção de jornalismo – não muito bem definida –, assinalam mudanças fundamentais ocorridas com a internet mas reafirmam o jornalismo como profissão aparentemente nos mesmos moldes de sempre.

Do ponto de vista da formação, ignora a hipótese de desenvolvimento de uma carreira acadêmica: aponta exclusivamente a via “profissional” para o jornalista. Talvez por isso, circunscreve a “trabalhos práticos de cunho jornalístico” os TCCs, descartando a hipótese de desenvolvimento de monografias de cunho teórico, o que é completamente inaceitável. 

Entretanto, isso não autoriza a dizer, como afirma o organizador do “dossiê” da Cult, que as diretrizes desvinculam “a formação do jornalista da cultura científica e humanística da área da comunicação”. No “eixo de fundamentação contextual”, o documento informa o objetivo de “embasar o conhecimento das teorias da comunicação, informação e cibercultura, suas dimensões filosóficas, políticas, psicológicas e socioculturais”, etc. Já o “eixo de formação humanística” visa a “capacitar o jornalista a exercer a sua função intelectual de produtor e difusor de informações e conhecimentos de interesse para a cidadania, privilegiando a realidade brasileira, (…) suas raízes étnicas, (…) cultura popular, crenças e tradições, arte, literatura, ciência, tecnologia” e assim por diante.

Ausência de debate

As suspeitas em relação ao sentido das diretrizes decorrem, provavelmente, do clima que separava os dois grandes grupos de professores desde o início da polêmica sobre a avaliação dos cursos: os que pretendiam estabelecer o jornalismo como curso específico e os que desejavam mantê-lo como habilitação da área de Comunicação Social. Na época, entre os que defendiam a autonomia, houve quem comparasse os profissionais a um computador: bastava “ligar na tomada e começar a trabalhar”. Isso, sim, representava o cancelamento de qualquer sentido crítico na formação do estudante.

Recordei esse comentário no início de 2009, numa crítica à condução dos debates – melhor dizendo, à falta de debates –, quando a comissão de especialistas esteve no Rio para uma reunião com professores e estudantes (ver “Duas surpresas na audiência do MEC“).

No “dossiê” sobre as diretrizes publicado agora, José Arbex Jr., jornalista e professor na PUC-SP, elogia o entendimento do ensino do jornalismo como campo específico, “que não deve e não pode ser diluído na geleia geral da Comunicação Social”, mas critica a orientação restritiva, voltada para “práticas adequadas às necessidades das grandes empresas e ao ‘mercado’”, o que esvaziaria “qualquer possibilidade de reflexão crítica”.

Na verdade, a perspectiva crítica dependerá, sempre, da qualidade do corpo docente e das demandas dos alunos. Mas a crítica principal é à falta de debate: Arbex lamenta que a comissão não tenha sequer considerado as propostas da Confecom, a Conferência Nacional de Comunicação, também realizada em 2009, “preparada por audiências públicas realizadas em 27 unidades da federação, envolvendo diretamente 30 mil pessoas”. É um importante chamado à realidade concreta: “O ensino do jornalismo não ocorre em qualquer época e numa localidade abstrata, mas no início do século 21 e num país chamado Brasil”.

Arbex condena, também, o nível de generalidade na descrição do quadro em que se pratica o jornalismo no país, sem qualquer menção ao monopólio da comunicação por meia dúzia de famílias e “às relações promíscuas entre os ‘donos da mídia’, os políticos e os grandes proprietários de terras, indústrias e sistema financeiro”. Esse nível de generalidade estaria evidente na escolha do enfoque teórico adotado: “Por exemplo, ao citar uma afirmação de Manuel Castells segundo a qual na ‘era da Informação (…) os meios de comunicação não são os detentores do poder’. Qualquer cidadão que conheça minimamente como funciona a esfera política brasileira terá que qualificar muito cuidadosamente essa afirmação”.

Fim da mediação (e do jornalismo)

Uma avaliação mais precisa e fundamentada sobre o papel do jornalismo no contexto da internet seria necessária para desfazer alguns equívocos que vêm se alastrando no meio acadêmico e entre militantes “midialivristas”. Bem a propósito, a Cult destaca em sua capa a entrevista com a professora Ivana Bentes (“Respeitosamente vândala“), ex-diretora da ECO-UFRJ, que aparece sorridente fazendo o gesto típico de alguém que manda os outros tomarem nas partes – e aqui não se sabe se ela se dirige aos leitores ou a “tudo isso que aí está”. A professora critica as diretrizes do MEC, que classifica de “quase tragédia”, fruto de um pensamento retrógrado e “corporativista”. Condena a manutenção da “mística da excepcionalidade da atividade jornalística”, ou seja, a preservação do papel do jornalista como mediador, como se esse papel não fosse cada vez mais necessário na algaravia das redes, para que possamos, todos, manter algum referencial de credibilidade em meio a tantos boatos, manipulações, montagens, fraudes e inconsistências que circulam no mundo virtual.

Pelo contrário, Ivana desdenha do “quê, quem, como, onde”, como se o respeito às informações elementares para a compreensão do que quer que seja decorresse do adestramento da “formação fordista”. E afirma, como tantos entusiastas do “fim do jornalismo”, que a mídia somos nós. “Odeia a mídia? Torne-se mídia!”

Sim, torne-se mídia e vá tentar apurar alguma coisa: crimes cotidianos como o da mulher que foi arrastada presa a um camburão, crimes financeiros, o contexto em que se deflagram greves, a situação dos hospitais e do transporte público. Vá apurar, porque jornalismo não existe sem apuração: quê, quem, como, onde, quando, por quê.

A não ser que “tornar-se mídia” signifique sair por aí dizendo o que der na telha.

Insistindo no óbvio

Mas talvez seja: um dos professores entrevistados para o “dossiê” sobre as diretrizes defende a destruição do “mito” de que o jornalista deva ser fiel aos fatos, pois o jornalista “é um produtor de sentidos para o mundo”.

Deveria ser óbvio que o jornalismo se distingue de outras atividades de comunicação justamente por esse compromisso com a objetividade – o respeito à verdade factual, como se diz. O que não quer dizer que deva se ater aos fatos, mesmo porque isso é impossível: todo relato carrega consigo uma interpretação. Mas uma coisa é desejar ater-se aos fatos, outra é ser fiel a eles. Jornalismo é, com certeza – e como todo discurso –, produção de sentido, mas precisa basear-se em fatos.

Toda escola, independentemente de seu grau e de seus objetivos, deveria existir para ajudar a formar cidadãos com autonomia intelectual. Os cursos de jornalismo, ou de Comunicação Social com habilitação em jornalismo – isso, a rigor, tanto faz –, existem para formar cidadãos com essa autonomia, que pretendem exercer a profissão de jornalista. Claro, no meio do caminho podem mudar de rumo, podem decidir seguir a carreira de pesquisadores: é uma opção. Mas não se pode perder de vista o objetivo principal: não se trata de formar “jornalistas teóricos” ou “teóricos do jornalismo”, mas jornalistas de fato, capazes de exercitar seu espírito crítico na prática diária da profissão, o que é certamente a tarefa mais difícil.

Para isso é preciso saber pensar, mas também saber fazer.

******

Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Repórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia (Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)

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