Sábado, 17 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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Gabo segundo o ‘Jornal da Globo’

Por Maurício Caleiro em 22/04/2014 na edição 795

O espectador sem familiaridade com o universo literário, que tenha recebido a notícia da morte de Gabriel García Márquez por meio do Jornal da Globo (quinta-feira, 17/4), continua sem a mínima ideia da importância do escritor colombiano, de seu blending único de memória afetiva, imaginação prodigiosa e talento narrativo, de seu universo literário a um tempo realista e mágico, fincado em povoados míticos mas de expressão universal, da posição central que a América Latina – da qual tornou-se um ícone e um dos principais representantes – ocupa em sua obra e em sua vida.

A julgar pela matéria exibida pelo telejornal noturno, a impressão que fica é que García Márquez não passava de um escritor de gosto musical deplorável (pois fã dos boleros de Nelson Ned) e com afinidades políticas igualmente execráveis, notadamente pela amizade com “ditadores”, plural referente a Fidel Castro, como as imagens então exibidas corroboraram. Os altos números de vendagem de suas obras e a outorga do Prêmio Nobel foram os únicos pontos positivos mencionados, porém sem dar ao espectador a mínima chance de saber que méritos justificaram tais conquistas.

Conservadorismo caricato

É certo que o telejornal apresentado por Christiane Pelajo e William Waack (substituído, no dia em questão, por Carlos Alberto Sardenberg) vem se tornando, há tempos, o mais politicamente retrógrado dos veículos noticiosos da emissora, em que se tornou recorrente zombar do que quer que destoe do modelito neoliberal, particularmente de temas como a administração Kirchner, o regime cubano ou o legado de Hugo Chávez na Venezuela, seja através do sarcasmo explícito de Arnaldo Jabor ou das caretas sisudas de Waack.

O contágio ideológico da atração global chegou ao ponto, há algumas semanas, de noticiar como verdadeiro o hoax segundo o qual o ditador coreano Kim Jong-un havia determinado que todos os homens do país cortassem o cabelo como ele. Mesmo após a descoberta de que se tratava de um boato, o telejornal não desmentiu a “informação” ou pediu desculpas por iludir o seu público.

Ainda assim, preferir ataques pessoais mesquinhos à oferta de um retrato minimamente condizente da importância da obra de um dos maiores escritores latino-americanos, Prêmio Nobel de literatura, justamente por ocasião do anúncio de sua morte, parece excessivo até para os baixos padrões do Jornal da Globo.

A invisibilidade da América Latina

É fato que quem tem TV a cabo teve acesso a uma cobertura bem melhor e mais informada acerca da passagem de Gabo, com destaque para um depoimento precioso de seu tradutor e amigo Eric Nepomuceno, o qual refuta o rótulo “realismo fantástico” (ou “mágico”). Mas aqui, neste texto, interessa focar de forma específica na cobertura oferecida pelo Jornal da Globo, justamente por esta ser a principal opção telejornalística para quem chega tarde em casa e não tem TV a cabo.

O que primeiro chamou a atenção na matéria veiculada pelo telejornal no dia da morte de Gabo foi o colonialismo, traduzido na absoluta ausência de um referencial latino-americano na cobertura. O primeiro correspondente a ser chamado foi Jorge Pontual, de Nova York, que se limitou a citar a repercussão da notícia nos Estados Unidos. Nenhum correspondente latino-americano, nem mesmo o culto e informado Ariel Palacios, correspondente brasileiro radicado em Buenos Aires, foi convocado. Muito menos alguns dos principais críticos literários latino-americanos que se dedicaram à análise da relevância de Gabo foram entrevistados.

E tanto a Colômbia, país natal e referência recorrente na obra, quanto o México, seu lar nas últimas décadas, foram absolutamente negligenciados pela cobertura. Desnecessário assinalar que a Rede Globo, quarta maior emissora televisiva do mundo, teria todas as condições de investir em bom jornalismo e mobilizar equipes para tal, se assim o quisesse.

São erros particularmente graves em se tratando de Gabriel García Márquez, cujo histórico discurso proferido ao receber o Nobel explicita o protagonismo político e afetivo da América Latina em seu sistema de valores e um autor que deixou uma obra que propicia múltiplas interpretações, capaz de agradar ou desgostar por diferentes razões, mas que tem no ato de sublimar em fantasia, delírio e poesia a loucura latino-americana um de seus traços distintivos. Macondo, a mítica aldeia de Cem anos de solidão, é a um tempo metáfora e vetor da identidade latino-americana. Macondo somos nós.

Livros? Que livros?

Ainda mais insuficientes do que o retrato do artista e de sua relevância foram as considerações (não) oferecidas pelo Jornal da Globo acerca da literatura que García Márquez produziu durante quatro décadas.

Pode-se ponderar, com bastante boa vontade, que não é fácil, na era dos smartphones e da onipresença da internet, traduzir a um público leigo, volumoso e heterogêneo, no tempo escasso de uma matéria telejornalística, o universo temático, a especificidade formal e os efeitos inebriantes da literatura de García Márquez.

Mesmo se levarmos em conta o padrão literário em voga, em que as listas de mais vendidos subdividem-se entre livros de autoajuda, fantasias esotéricas e soft erotismo, com espaço mínimo para o engenho literário de mais fôlego e a ousadia estética, confirma-se a dificuldade de sumarizar em linguagem telejornalística a pletora de significados atribuíveis a Macondo e à saga dos Buendía; ou à trajetória do ditador sem nome de O Outono do Patriarca, quesobreviveu durante séculos, vendendo ao Império até o mar de seu país; ou qual a graça de se ler uma história cuja morte do protagonista tem lugar já nas primeiras páginas; ou como a triste história de Cândida Erêndira corresponde a um tratado poético sobre os mecanismos imperialistas de dominação econômica; ou porque os amores contrariados renderam mais e melhor literatura através da imaginação de Gabo.

Estética negligenciada

Mais do que a dificuldade para traduzir minimamente ao leitor não familiarizado o universo literário acima esboçado, a recusa em sequer tentar fazê-lo soa indicativa das limitações do telejornalismo cultural na TV aberta, tanto mais se levarmos em conta que, não faz tanto tempo assim, tais criações do realismo mágico ocuparam posições destacadas, e por longos períodos, nessas mesmas listas de best sellers ora povoadas de paulos coelhos e 50 tons de cinza.

Porém, ainda mais difícil, sobretudo para um telejornalismo que concebe seu espectador como um Homer Simpson, seja fornecer uma ideia das questões formais e estilísticas que distinguem a excelência da literatura de García Márquez. E não por estas serem propriamente herméticas, pois nelas a adjetivação abundante e o recurso frequente às comparações, metáforas e hipérboles, ao mesmo tempo em que contrariam – e desmentem – algumas regras não escritas para o bem escrever, tendem a facilitar a leitura de seus textos por um público variado, cujos méritos propriamente formais do texto talvez tendam a receber pouca atenção ante a imaginação prodigiosa das histórias e o vigor narrativo ao contá-las.

Estreitamento de referenciais

Ocorre, porém, que tematizar, no ambiente telejornalístico atual, as questões de cunho propriamente literário elencadas nos dois últimos parágrafos implica o estabelecimento prévio de um código – e na existência de um repertório referencial – entre emissor e receptor.

E é forçoso reconhecer que este código estreitou-se e delimitou-se nas últimas décadas. O crítico literário Roberto Schwarz afirma, em um texto clássico, que o hiato entre o golpe militar de 1964 e a promulgação do AI-5 foi paradoxalmente caracterizado como “os anos de hegemonia cultural da esquerda”. Corroborariam tal afirmação o teatro de Augusto Boal e Zé Celso Martinez Corrêa, a Tropicália e a música de protesto, a literatura de Antonio Callado e Carlos Heitor Cony, entre tantos outros exemplos possíveis.

Talvez não seja despropositado sugerir que, atualmente, o paradoxo se inverteu, e os 25 anos de democracia que se seguiram ao arbítrio vêm sendo marcados pela imposição e hegemonia de valores mercadológicos à produção artístico-cultural. Verifica-se tal afirmação já na legislação de fomento à cultura vigente nas duas últimas décadas no país, em que o poder decisório foi, na prática, transferido para os diretores de marketing das empresas. E ela se solidifica se observarmos como o processo de fabricação e manutenção de megasucessos ocasionais depende diretamente do poder de marketing das corporações de mídia que mantêm propriedades cruzadas (canais de TV abertos e fechados, estações de rádio, portais, jornais, revistas etc.).

O valor mercado

A manutenção de tal cenário por um longo tempo, sua penetrabilidade e sua correlação a fatores como o déficit educacional no país ou o não cumprimento de preceitos constitucionais relativos à formação cultural e educacional pelos concessionários de canais de TV acabaram não só por estreitar o repertório do referido código de comunicação entre emissores e receptores no âmbito televisivo, mas por redefinir em bases mercadológicas seu quadro de valores, seus parâmetros axiológicos.

O resultado, no âmbito da temática deste artigo, é que a riquíssima e exuberante contribuição que Gabriel García Márquez deu à literatura e à cultura universal, submetida a tal código, desaparece, na cobertura do Jornal da Globo, em prol do retrato de um artista “cafona e amigo de ditadores”, cujo grande mérito passa a ser a venda de 40 milhões de livros, não por acaso uma contribuição que se correlaciona diretamente ao mercado.

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Mauricio Caleiro é jornalista e doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense; seu blog

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