Segunda-feira, 22 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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JORNAL DE DEBATES >

Jornalistas contra a mediocridade musical

Por Dioclécio Luz em 29/04/2014 na edição 796

Já não temos mais o direito de errar. Basta de mediocridade musical (MM). A trilha sonora do país não pode continuar sendo o lixo que atinge o cérebro, polui o coração e atrai as moscas varejeiras lambedoras de jabá. Convoco os colegas jornalistas para que ergam a cabeça e caiam na dança do Zarastustra nietzschiano não se deixando abater pela MM que assola o Brasil.

Invoco o espírito dos deuses ateus e a energia dos poetas deste país e do mundo. Invoco a deusa música, ateia e anarquista por natureza, razão e metafísica, para desfazer as trevas que se abatem sobre o país. Precisamos cravar uma estaca no coração dos vampiros que sugam a arte e a criatividade musical.

Música ruim sempre existiu, mas há pelo menos 30 anos que a música de má qualidade tomou posse das rádios, TVs, jornais e revistas, sites, “faces”, blogs. Agora é nossa obrigação enquanto jornalistas usar o cérebro e dizer a verdade. Por uma questão de estética e também de ética. Não se pode ficar calado enquanto o povo é enganado, levado a consumir o lixo, levar para casa e armazenar na alma esta coisa ruim que eles chamam de música.

Um país que tem Elomar e Caetano, Gil e Chico César, Lenine e Beto Brito, um Brasil que já deu Luiz Gonzaga e Caymmi, João Gilberto, Tom Jobim e Jackson do Pandeiro, não pode cair tanto. É preciso vergonha na cara e alegria da alma para dizer em alto e bom som estéreo: longe mim a MM!

Buraco musical

Não podemos deixar nos abater pelo mau gosto generalizado. Menos constrangimentos e mais verdade é o que peço aos colegas radialistas e jornalistas. Devemos ser sinceros. Devemos a sinceridade ao mundo. Sim, claro, esta convocação é para os caranguejos que têm cérebro, para os que fazem rádio e jornalismo e os que sabem de música, sabem de arte e desconfiam dos negócios que alguns chamam de arte. Menos jabá e mais arte, é o espírito do nosso manifesto.

Este é um manifesto pelo saber da música. Para fugir da língua fácil, da vida fácil, do jeito mais fácil de falar dessa MM. Este manifesto faz a defesa da poesia e da inteligência e por isso é contra bordões do tipo “e agora o sucesso do momento”. Vamos nos educar.

Sim, para ouvir música é preciso o mínimo de educação musical. Uma educação que começa pelos ouvidos. O povo, esse ente inexistente, assim definido porque é massa para ser comandada, infelizmente, é enganado, censurado. Censuram o acesso a nossa riqueza maior, o grande patrimônio sonoro musical do mundo. Dizem as empresas e os que fazem a MM: “temos que respeitar a vontade do povo”; ou dizem: “o povo gosta disso”. E é uma dupla mentira, primeiro porque povo não existe, o que existe é gente, ser humano, sociedade, pessoas… Segundo porque, na verdade, são eles que não respeitam essa gente, vendendo o pior da nossa música – sertanejo de plástico, pagode de televisão, “forró” elétrico, axé, romântico de feira livre, arrocha… Essa uma meia dúzia de gêneros que domina as rádios e TVs brasileiras, produtos pasteurizados, homogeneizados, de uma indústria criadora do descartável, do supérfluo. O consumismo na música é a nossa desgraça musical. Bandas e cantores e “músicas” têm prazo de validade: produtos de mercado, são autodestrutíveis como os programas da Microsoft, como o galã da novela, como os filmes de Hollywood. Baumann explica o consumo; Freud esclarece sobre a patologia; Ariano Suassuna enterra a MM.

Vamos pulverizar o sofisma mofado do mercado: “gosto não se discute”. Discute-se sim. Principalmente quando ele não é uma escolha, mas uma imposição do mercado, produto da censura e do jabá. Como acreditar que se trata de gosto popular se ao ouvinte lhe foi imposto esta música ruim? Ludibriado pelo jabá, ele acredita que escolhe. E não é isso. A bem da verdade o “povo” tem gostado do que lhe determinam gostar. Para perceber isso não é preciso que um médium invoque os rapazes da Escola de Frankfurt. Hoje, ouvir música boa é coisa de elite. Elite hoje é Luiz Gonzaga, Chico Science, Orquestra Contemporânea de Olinda, Papete, Siba, Fagner, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Ivanildo Vilanova, Oliveira de Panelas, Eddie, Otto, Chico Science, Zeca Baleiro e tantos outros cantores e cantoras segregados pelo jabá porque não fazem ou cantam música medíocre. Só uns poucos ouvintes podem mudar de estação. Porque rádio ou TV comercial que não seja só jabá não há em todo canto. Restam as emissoras livres para escolher o que tocar: são as educativas, públicas/estatais, comunitárias. Todavia, deve ser feita a exceção as muitas rádios que se apresentam como comunitárias (e têm até a “autorização” do Estado) mas pertencem a padre, pastor, empresário ou político.

Este manifesto é contra o fascismo do jabá porque ele segrega, discrimina, censura a nossa arte e o povo brasileiro.

Este manifesto não defende o sertanejo de raiz, a música de raiz, o regional, ou coisas do gênero, como se neles estivesse a nossa salvação. Porque isso é bom, mas não é o bastante. O que se defende aqui é a música enquanto arte – o que ela traz de novidade, originalidade, criatividade. Quando dez ou vinte bandas tocam do mesmo jeito com a mesma letra e a mesma melodia, chamar isso de música é uma agressão à cultura e à inteligência humana. No limite é uma arte menor, pobre. O que você diria de um pintor que pinta o mesmo quadro e faz uma exposição com 20 pinturas iguais? Chamaria de artista? E se vinte pintores pintassem a mesma coisa, gerando 400 quadros iguais? Poderiam ser chamados de artistas? Mas é assim que a MM se propaga, seu espírito de PVC sobrevive se copiando, repetindo-se, clonando-se. São vampiros de plástico que, como tal, produzem gases de efeitos estufa sobre a alma brasileira.

Isso tem a ver com a possibilidade de o planeta virar churrasco devido às mudanças climáticas. A nossa capacidade de adaptação, que é uma virtude dos seres vivos, no caso das mudanças climáticas é a nossa desgraça. As pessoas, os governantes e as instituições estão se adaptando à possibilidade de fim de mundo. Se o clima está cada vez mais quente, ao invés de propor mudanças no sistema de produção e alimentos, a Embrapa pesquisa sementes que se adaptem ao forno anunciado. Na música ocorre algo parecido, a MM infesta cada vez mais o mundo e a gente – jornalistas e radialistas – se adapta, aceita isso como se não tivéssemos o poder de reclamar, opinar, denunciar, exigir coisa melhor. Chegamos ao buraco musical, chafurdamos na lama, somos obrigados a comer lixo, porque o jornalista de cultura desistiu, adaptou-se; ele não reclama – anuncia o lixo, a MM, do mesmo modo que anuncia um show de craques como Yamandu Costa, Uakti, Marisa Monte, Luiz Melodia, Ednardo, Wado ou Belchior. Já não diferencia a mediocridade do que é bom, sujeita-se à ditadura do mercado, ao fascismo do mau gosto.

Coração congelado

Este manifesto é contra a produção em série do mercado, quando uma pretensa arte se esgota nas gôndolas de emissoras e revistas de fofocas. Isso sempre existiu, mas a arte sempre foi maior do que isso. Este manifesto faz a defesa da arte. A arte que gerou a Tropicália, o Movimento Armorial, o Clube da Esquina, a Vanguarda Paulista, o Mangue Beat, Pessoal do Ceará e tantos outros movimentos sem nome, tantos bons cantores e cantoras, não pode retroceder para a música de plástico. O país que tem Vanessa da Mata, Ná Ozzeti, Marisa Monte, Gal Costa, Elza Soares, Rita Ribeiro; o país que já deu Marinês, Nara Leão, Elis Regina, Claudia Nunes, Ângela Maria, Maysa, não pode se representar por vendedoras de xampu e cerveja que se apresentam como cantoras de música. Não são estas que nos orgulham. Vender xampu exige uma arte e uma inteligência, mas a música é outro tipo de arte.

Na verdade, a arte de verdade não tem pais de origem. Quando ela é grande ela se perde da pátria de origem. Yamandu Costa, Hamilton de Holanda, Dimas Sedícias, Roberto Correia, Hermeto Paschoal são grandes em qualquer língua. Do mesmo modo é bem-vinda a boa música de todos os lugares. Precisamos, porém, exorcizar esta alma de cachorro vira-latas anunciada por Nelson Rodrigues e olhar de frente, ao mesmo tom e volume, a música de fora. O maluco beleza Raul Seixas já debochou de quem acha que tudo de bom está vem dos States: “Lá em Nova York todo mundo é feliz”, dizia. E faz tempo. Mas quem ouviu Raul? Tem gente ainda comprando e ouvindo o lixo do império somente porque vem de lá.

Acordai radialista: também se faz música na Itália, Chile, Moçambique, Israel, Espanha, Portugal… Não tenha medo de procurar fora do eixo Nova York-Londres. A boa música, a mais criativa, a mais original, não frequenta as boates de Manhattan. Fique à vontade para usar o cérebro e dizer que essa música bate-estaca e suas muitas variáveis poderiam ter sido feitas por uma minhoca ou por uma bactéria. Atenção, a MM internacional prefere o inglês. Se você jornalista só ouve música em uma língua – o inglês do patrão, ou o português da Casa Grande –, acredite, é porque ainda não conhece a boa música do mundo.

Radialistas e jornalistas, não se deixem iludir pelo mercado que diz que o samba é o único gênero brasileiro, ou o maior de todos. Esse dogma foi feito pelos mercadores não pelos artistas. O samba é somente um dos milhares de gêneros musicais que brotam no Brasil. O país ganhou arte com a música de Cartola e Noel, Monarco e Martinho da Vila, mas esse bom samba não resume o Brasil. Neste país mestiço, onde se mistura sushi com feijoada, a cada dia brotam milhares de opções musicais. Elas estão por toda parte. Você ouviu, colega jornalista? Abra os olhos, cabra! Falar de música sem conhecer música é um crime contra os ouvintes e os leitores.

Este manifesto é contra a axé e em favor da Bahia de todos os sons. Feliz quem nasce na Bahia de João Gilberto, Moraes Moreira, Baby do Brasil, Pepeu Gomes, Armandinho, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Bethânia, Rudnei Monteiro, Raul Seixas, Xangai, Elomar. A Bahia é grande, mas a boa música que muitos ainda fazem é confinada aos guetos, cercados por uma muralha de axé. A Bahia, que já me deu régua e compasso para ampliar os limites do mundo, foi aprisionada numa pretensa “música baiana”, feita de plástico e silicone, identificada por ser igual a todas.

Este manifesto é contra a música gospel entrando pelos sete buracos da minha cabeça e destruindo meus neurônios. Ninguém suporta mais essa praga que tomou o dial de tudo que é rádio do Brasil. Pelo amor de Deus, respeitem os meus cabelos brancos, respeitem meu direito ao silêncio, respeitem a minha epifania que é gostar de arte. Católicos e evangélicos do meu Brasil sejam menos zelotas e mais cristãos, menos ambiciosos e menos avarentos, deixem as emissoras tocar música. Já paguei todos os meus pecados sendo tolerante a esse ruído que vocês chamam de música. Eu sei que vocês se amam como a si mesmos, mas sejam tolerantes e respeitem a minha alma. Toquem para vocês e deixem meus ouvidos em paz.

Quanto a isso que carimbam como música sertaneja, Herbert Daniel, o Betinho, explica que sua origem é dos anos 1970, quando a soja se expande e surgem os latifúndios, e os fazendeiros modernos. É quando os novos ricos do campo nem no campo moram mais. Frequentadores de Miami não queriam ser confundidos com a gente do Brasil. E dos Estados Unidos trouxeram a fantasia de vaqueiro de faroeste e a pretensa música country. Junto veio o rodeio. Como no Texas, onde a pena de morte é lei, trata-se de uma festa marcada pela crueldade contra o boi e o cavalo. A trilha sonora desta festa pobre é a MM. E ela é tal qual o gado nelore no pasto: tudo igual, nascido para morrer.

Senhoras e senhores radialistas e jornalistas, a MM não contesta, não provoca, não tem nada de original. Somos contra a MM porque ela faz mal ao cérebro e provoca o congelamento do coração. Somos contra a MM porque ela dá a entender que o Brasil se reduziu a isso. Que toquem a música MM – afinal, sempre existiu música MM –, mas que todos saibam que ela é menor e não representa a nossa riqueza musical. Pavões de lantejoulas de níquel, elas são muitas, mas não sabem avoar.

Inteligência e sensibilidade

Este manifesto é em defesa da boa música. Porque dela o artista sempre pode capturar um pedaço, parte ou partida, plantar e fazer algo maior. A boa música não tem prazo de validade – imune ao tempo, não precisa de botox para ser feliz; como toda boa arte o tempo passa e ela fica, baobá na alma da gente.

Este manifesto é contra o fim do mundo anunciado nas praias e clubes e baladas onde essa praga toca. É contra essa poluição que mata, aniquila, devora cérebros humanos. É preciso que o Ibama e a Organização Mundial da Saúde sejam chamados porque muitos morrerão nesse apocalipse que já se instalou nas praias a bordo de carrões e sonzões e botecos chiques ou fedorentos… Todos tocando a mesma MM numa Babilônia que nenhum profeta poderia prever. Se existe o inferno, a MM é a música mais pedida por lá.

Por fim, convoco os gestores de recursos públicos, prefeitos e secretários de Cultura, a não patrocinarem a MM. O povo merece o melhor. Se o que há na mídia é educação para o consumo do lixo, é obrigação do gestor mudar o rumo. Gestor de cultura que patrocina evento com esse tipo de música concorre para a inutilidade do cargo, é prova de que não entende nada de cultura. É a pessoa errada no lugar errado.

Esse manifesto defende a inteligência, a beleza, a alegria, a poesia, a música que o Brasil e o mundo produzem de melhor. Defende que o “povo” tenha acesso a músicas boas e não somente a essa coisa ruim, a MM. Defende que o “povo” tenha acesso a todo tipo de música e não somente as medíocres como ocorrem hoje, para que ele possa escolher o que ouvir. Convoca os colegas, jornalistas e radialistas, para que usem a inteligência e a sensibilidade para opinar, criticar, exigir dos meios de comunicação mais respeito com a nossa cultura, nossa história musical. A música brasileira é muito maior que a MM que nos vendem.

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Dioclécio Luz é jornalista e radialista, autor do livro A arte de pensar e fazer rádios comunitárias

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