Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > ‘FÁBRICAS DE INFORMAÇÃO’

O império do mercado e a informação como produto

Por Bruno Bernardo de Araújo em 06/05/2014 na edição 797

Assisti recentemente a um documentário na televisão espanhola sobre as novas lógicas de produção de conteúdos, em muitas empresas da Espanha e de outros países europeus. Nos primeiros minutos, cheguei a pensar que estivessem falando de conteúdos publicitários, mas eis que um dos primeiros entrevistados era o jornalista de um jornal importante daquele país. Para meu espanto, as novas lógicas eram relativas à informação jornalística e, segundo o entrevistado, consistiam em contratar empresas de sondagem que aferissem as preferências dos leitores − neste caso, convenhamos, dos consumidores. Não estava diante de nada novo, mas era a primeira vez que via as coisas serem declaradas assim, tão espontaneamente. E o pior: o jornalista defendia essa “tendência” em tom indisfarçavelmente orgulhoso. Enquanto assistia, minha cabeça dava voltas e eu era acometido por uma terrível sensação de crise identitária, cuja manifestação maior se dava na pergunta: assim, para quê ser jornalista?

O episódio remeteu-me a um texto de Ignacio Ramonet, professor da Universidade Denis-Diderot, publicado em 2011 no Le Monde diplomatique, cujo título – “Autômatos da informação” − não poderia ser mais emblemático. O autor faz uma importante reflexão sobre as implicações das leis do mercado na sociedade atual e, em particular, no jornalismo. Segundo ele, apenas 15% do que os jornais publicam interessa realmente à maioria das pessoas. É cada vez maior o número de empresas que veem a informação jornalística como produto, como aquelas a que o documentário fazia referência. Por isso, o autor nos diz que estão em voga as chamadas “fábricas de informação”, em que as empresas pesquisam os gostos do público e, depois, pagam pela produção do conteúdo a um jornalista freelancer – o jornalista que, em outras palavras, faz do jornalismo um “bico”. Isso implica numa diminuição considerável dasredações, mas aumenta a lucratividade das empresas. A maior prejudicada, claro, é a informação e, em consequência, o público.

Dupla alienação

Vivemos, pois, numa sociedade completamente voltada para as questões mercantis, onde tudo (ou, quase tudo, felizmente!) é produzido para ser comercializado no mercado global, nacional ou regional. Nos tempos que correm, tudo parece ser questão de dinheiro. Quando esse pensamento atinge o jornalismo, como está a acontecer, torna-se inevitável responder a uma questão que é a chave para qualquer discussão acerca da qualidade e diversidade da informação a que temos acesso. Qual é a verdadeira função das empresas jornalísticas: formar o público − tornando-o mais esclarecido e preparado para enfrentar os desafios da vida em sociedade, através de uma informação credível e enriquecedora, − ou, pura e simplesmente, obter lucros? As posturas mais recentes dos grandes grupos de media, nomeadamente a questão das “fábricas de informação” exploradas por Ramonet, fazem crer, sobretudo, na segunda opção.

As pesquisas da Google, por exemplo, para saber quais os assuntos mais procurados pelos internautas são, cada vez mais, ferramentas preciosas para estes grandes grupos, na medida em que têm acesso às preferências do público, para que, de imediato, e nem sempre da melhor forma, as possam responder. É ou não a mesma lógica da oferta e da procura, que rege o funcionamento do mercado? Através do trabalho de milhares de colaboradores ou trabalhadores freelancers as empresas dão aquilo que lhes é pedido.

Estamos diante da clara materialização dos conceitos de alienação e autonomia (ou, da falta dela), ao estudo dos quais Karl Marx dedicou toda a sua vida. Em se tratando da lógica de mercado que gere parte da produção informativa dos nossos dias, temos uma dupla forma de alienação que, no seu conjunto, ceifa qualquer nível de autonomia dos jornalistas. Quando as empresas compram, a preços irrisórios, “peças” noticiosas produzidas pelos trabalhadores freelancers (caso da Demand Media, que paga 10 dólares a peça), há um total apoderamento do trabalho alheio. Aqui, a alienação é, sobretudo, de quem vende. Mas, não ficamos por aí: o jornalista também se aliena, quando perde, totalmente, a capacidade de determinar que informações são mais importantes para a audiência, ficando à mercê daquilo ela quer. O interesse público acaba, e cede lugar ao interesse do público. Caso a prática se generalize, talvez seja melhor deixarmos de falar em jornalistas e jornalismo, para falarmos apenas em produtores de conteúdos, cujos valores éticos e deontológicos (se é que existem) nem de longe se aproximam daqueles que norteiam o jornalismo.

Informação e desinformação

Ainda nesta mesma linha, não deixa de ser indispensável chamar a questão das indústrias culturais, bem como a transformação que produziram nas ideias de valor de troca e valor de uso da informação, dois outros conceitos trabalhados por Marx. Hoje em dia, a informação está muitíssimo mais próxima do seu valor de troca, ou seja, do seu preço de mercado. O valor deixa de existir em detrimento da sublimação do preço. Isso nos leva à imensa massa crítica produzida nos profícuos anos da Escola de Frankfurt. Adorno e Horkheimer, dois dos seus maiores expoentes, defendiam que a produção massiva de conteúdos pelas indústrias culturais (dentro das quais se incluem as empresas jornalísticas) não visa à qualidade dos produtos, mas, tão-somente à sua inserção no mercado. De forma ainda mais simples, seria o mesmo que: temos de estar no mercado a qualquer custo!E este “estar no mercado” é dar aquilo que o público quer, sob pena de perder competitividade.

Analisar a produção da informação jornalística sob a ótica do pensamento frankfurtiano nos conduz a outra característica das indústrias culturais cujos efeitos são nefastos para o jornalismo: a padronização. Num cenário em que a informação segue a lógica aqui descrita, e os seus produtores são cada vez mais os mesmos (os grandes oligopólios mediáticos), quem também se aliena é o público que, sem qualquer pluralidade informativa, estará exposto a pensamentos únicos sobre a realidade – esta, por natureza, tão complexa. Terceira forma de alienação.

Para reparar em tudo o que aqui mencionamos, não precisamos estar munidos de grandes quadros teóricos. Basta estarmos atentos aos interesses por trás dos conteúdos que, diariamente, entram pela porta da frente de nossas casas. Ir contra a noção de informação como produto, para vê-la como instrumento essencial para o exercício de uma cidadania plena no seio de sociedades democráticas, soa, aos ouvidos de muitos, como idealismo frouxo ou imensa ingenuidade. Não para mim. Não para os que acreditam que a solução para a crise do jornalismo está, precisamente, na reafirmação da sua qualidade, da sua capacidade de lançar olhares interpretativos sobre a realidade, que nos ajudem a compreendê-la com mais facilidade. Em tempos de redes sociais online, informação a mais gera desinformação, diz Umberto Eco. É por isso que o jornalismo de qualidade é indispensável para a qualidade da nossa cidadania e do nosso sistema democrático. Só esse tipo de jornalismo poderá demarcar-se dos pseudojornalistas que andam, sobretudo, por essa terra-de-ninguém que parece ser o mundo virtual.

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Bruno Bernardo de Araújo é jornalista, mestre em Comunicação e Jornalismo pela Universidade de Coimbra (Portugal) e doutorando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade de Brasília (UnB)

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