Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

JORNAL DE DEBATES > LUPITA NYONG’O

Diante do espelho

Por Judith Thurman em 13/05/2014 na edição 798
A versão original, “Lupita in the mirror”, foi publicada na revista The New Yorker, em 1/5/2014; tradução de Felipe A.P.L. Costa

Em 22 de outubro de 1949, The New Yorker publicou uma matéria de Lillian Ross a respeito do concurso Miss América daquele ano. Começava assim:

“Existem treze milhões de mulheres nos Estados Unidos com idades entre dezoito e vinte e oito anos. Todas eram elegíveis ao título de Miss América, disputa anual realizada em Atlantic City, mês passado, desde que elas tivessem concluído o ensino médio, não fossem e nunca tenham sido casadas e não fossem negras.”

Ross não fez qualquer comentário adicional sobre a exclusão de mais de um milhão de mulheres negras e jovens do concurso, embora a alusão a elas fosse provocadora na época. Até 1948, seus pais e irmãos haviam servido em forças armadas segregadas. Isso se passou cinco anos antes de a Suprema Corte, na decisão de Brown vs. Conselho de Educação de Topeka [ver aqui], terminar com a segregação legal em escolas estadunidenses. E embora o concurso de Miss América tenha abolido a proibição de concorrentes negras em 1950, nenhuma competiria até 1970 e nenhuma venceria até Vanessa Williams levar a coroa, em 1984.

Seis anos mais tarde, a revista People lançou uma edição anual dedicada às “Cinquenta pessoas mais bonitas do mundo”. A mais bonita delas ganha a capa. (Existem atualmente cerca de 7 bilhões de adoráveis e desagradáveis seres humanos no planeta; a curta lista da People, no entanto, se restringe a celebridades.) Na semana passada, as honras de 2014 foram para Lupita Nyong’o [ver aqui], que ganhou um Oscar este ano por seu papel coadjuvante em 12 anos de escravidão. Nyong’o, trinta e um anos, nasceu no México, de pais quenianos, enquanto seu pai, um professor universitário, estava lecionando lá. Quando tinha três anos, eles voltaram para o Quênia, onde viveram, segundo ela, uma confortável vida “suburbana”. Ela foi educada nos Estados Unidos, na Faculdade Hampshire e na Escola de Arte Dramática de Yale. Sua postura, como a sua elegância, é impressionante, e a sua beleza é classicamente africana. Duas “mais belas” estrelas, de etnia africana mista, Halle Berry e Beyoncé, precederam Nyong’o, em 2003 e 2012, respectivamente. Ambas têm a pele notadamente mais clara.

Uma efusão de louvor e gratidão

Não há nada de crítico a dizer a respeito do novo título de Nyong’o, exceto, talvez, que ele parece tão radicalmente midiático. Já se passaram quase cinquenta anos desde que Malcolm X publicou sua autobiografia, na qual ele descreve as mortificações que as pessoas negras enfrentam para “se parecerem bonitas, pelos padrões brancos”. Para os soldados afro-americanos, esses padrões ainda têm o poder de oprimir. Eles atualmente estão contestando as novas regras do Pentágono para o penteado “apropriado”, regras, eles objetam, que os obrigaria a alisar sua cabeleira naturalmente lanosa e que limitariam os trançados – uma tradição de profundo simbolismo cultural na África e em sua diáspora. (Tranças, ironicamente, são emblemas de valor.) Em um artigo para esta revista sobre a indústria do penteado negro [ver aqui], eu escrevi a respeito dos esforços de Malcolm, ainda jovem, para “desenroscar” o seu cabelo com “congolene” caseiro: meia lata de soda cáustica Red Devil, misturada com duas fatias de batatas cozidas e dois ovos crus bem batidos, penetrando então através do couro cabeludo. Esse procedimento excruciante deu a ele uma cabeça de “cabelo vermelho brilhante… tão liso como o de qualquer homem branco”. E aqui, talvez valha a pena notar que, desde 1985, apenas um homem negro, Denzel Washington, venceu outro dos concursos de beleza entre celebridades da People – “O homem vivo mais sensual”.

Ao contrário do cabelo de Beyoncé, que estava loiro em sua capa na People, ou do cabelo da Halle Berry, usado em corte repicado, o cabelo curto de Nyong’o parece que não foi mexido. Mas o penteado não é a questão. Mulheres com fortes traços africanos e pele preta retinta são raras, mesmo hoje, com uma família negra na Casa Branca, nas páginas das principais revistas de moda ou como modelos de produtos de beleza de luxo. (Nyong’o recentemente assinou como o “rosto” dos cosméticos Lancôme.) A supermodelo Alek Wek, integrante do grupo étnico dinka, que nasceu no que é hoje o Sudão do Sul e fugiu para a Inglaterra como refugiada da guerra civil em seu país, foi uma das primeiras e ainda é uma exceção.

Nyong’o citou Wek como uma inspiração. Ao crescer, ela disse, “sonhava” em ter uma pele clara; Wek, que tem uma pele da cor da obsidiana polida, foi o primeiro espelho no qual ela pode ver a sua própria beleza. Oprah Winfrey observou que, se quando ela era garota Wek tivesse aparecido na capa de uma revista, “eu teria tido um conceito diferente de quem eu era”. Em todo o mundo, porém, a escolha de Nyong’o tem gerado uma efusão de louvor e gratidão, especialmente por parte de mulheres negras mais jovens, pela “validação” que ela representa – uma validação maculada pela sua raridade.

Dignidade exemplar e alguma reticência

Agunda Okeyo, escrevendo na revista eletrônica Salon.com [ver aqui], levantou outra objeção à apoteose de Nyong’o. Ela escreve: “Veículos da mídia, do Daily Mail à Forbes e ao Hollywood Reporter, têm descrito Nyong’o com uma palavra específica: ‘exótica’. Isso é basicamente um modo codificado de dizer que ela é bonita, a despeito de ser negra e ter a pele escura.” Nyong'o, ela argumenta, não é mais exótica do que Meryl Streep, uma aluna de Yale que teve uma criação semelhante de classe média.

Mas o epíteto “beleza exótica” é usado há séculos para caracterizar quase qualquer mulher colonial, cujo fascínio é realçado por sua alteridade. Ela tomou a forma, real ou fictícia, de Salomé, Cleópatra, uma gueixa, uma crioulo, uma judia, uma odalisca, uma dançarina árabe. Ela veste um sári ou um ao bai. Ela recarrega o cachimbo de ópio do seu amante ocidental e inspira a sua arte. A frase é impregnada de uma hipersensualidade alienígena e transforma duplamente em objeto a mulher que descreve: como um fetiche e como uma primitiva. (Patsey, a personagem de Nyong’o em 12 anos de escravidão, é repetidamente estuprada por um mestre brutal que imagina estar apaixonado por ela.)

Ao contrário da maioria das misses América, Nyong’o tem mostrado uma dignidade exemplar e alguma reticência nas entrevistas a respeito do alvoroço da People: ela evita se entusiasmar. Também não mencionou uma imagem recente de seu modelo no papel, Alek Wek, agora com trinta e sete anos e uma ativista dos direitos humanos, que vive no Ocidente desde quatorze anos de idade. Em outubro passado, Wek foi destaque na capa da revista Forbes Life Africa [ver aqui], vestindo nada (visível) além de uma coleira de ouro grossa que se assemelha aos rígidos anéis de alongamento do pescoço de tribos em Myanmar e na África do Sul. As tribos parecem ter pouco em comum, exceto, talvez, que suas donzelas e matronas, assim como bilhões de mulheres mundo afora, sofrem para serem consideradas bonitas.

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Judith Thurman é crítica literária da revista The New Yorker e escritora

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