Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > LÍNGUA & LINGUAGEM

Eita língua dura, sem jogo de cintura!

Por Pasquale Cipro Neto em 20/05/2014 na edição 799
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 15/5/2014; intertítulo do OI

Faz algum tempo que não pego no pé dos meus colegas de jornal, rádio, tevê e internet, daqui e dali. Não foi por falta de assunto, que isso não falta nunca. A coisa continua braba, muito braba, brabíssima.

Na tevê, por exemplo, insiste-se em definir “crime doloso” como “aquele em que há intenção de matar”, o que deixa de cabelos em pé quem lida com o direito (e com a língua). Vejamos o que diz o “Houaiss” sobre “dolo”: “Em direito penal, a deliberação de violar a lei, por ação ou omissão, com pleno conhecimento do que se está fazendo”.

Percebeu a sutileza, caro leitor? Você certamente já ouviu ou leu declarações de certos delegados de polícia que consideram doloso o comportamento de quem, embriagado, dirige veículos e causa acidentes com mortos e/ou feridos. Para esses delegados, esses cidadãos irresponsáveis sabem que, quando ébrios ao volante, podem mutilar ou matar, o que justifica o enquadramento no dolo, mas é claro que não se pode garantir que o/a bebum que invade a calçada e mata duas pessoas que lá estavam tinha a intenção de matar exatamente aquelas duas pessoas, que provavelmente o/a bebum nunca vira.

Outro ponto em que muitos redatores continuam insistindo é o da falta de clareza resultante da ordem em que são dispostos os termos das orações ou as próprias orações.

Veja este exemplo, estampado na capa de um site: “Clima de revolta e surpresa onde um dos suspeitos de ter matado torcedor mora”. Elaiá! Esse título se referia ao bárbaro episódio dos vasos sanitários atirados da arquibancada do estádio do Santa Cruz (o Arruda, no Recife). É muito comum nas Redações a máxima de que a ordem boa é a direta (“Escreva sempre na ordem direta!”), o que equivale a antepor o sujeito ao verbo, norma cumprida no título que acabo de citar, já que o sujeito da forma verbal “mora” é “um dos suspeitos de ter matado torcedor”. Como se vê, o longo sujeito foi posto antes do verbo.

Solução é ler, ler, ler…

Muito bem: “norma” cumprida, compreensão dificultada. Xô, cintura dura! Xô, engessamento! Xô, cumprimento estrito e restrito de “normas” discutibilíssimas! O caro leitor já percebeu que, no caso em tela, a anteposição do verbo ao sujeito torna muito mais rápida a assimilação da mensagem? Vamos ver como fica: “Clima de revolta e surpresa onde mora um dos suspeitos de ter matado torcedor”. Que tal? Desnecessário comentar, não?

Antes que alguém diga que o redator talvez tenha precisado adequar-se ao espaço, ao tamanho das linhas, digo que a manchete ocupava duas linhas: a primeira terminava em “um dos”, o que significa que era perfeitamente possível jogar para baixo “um dos” e levar para cima “mora”. Lembre-se de que estamos falando de sites, de internet, em que a questão do espaço é bem mais maleável do que num jornal de papel.

O problema mesmo é o gesso, o maldito piloto automático, o que talvez se explique pela falta de contato com outras sintaxes, além da “direta”. A solução? Ler, ler, ler…

Ler o quê? Tudo, sem preconceito de época, estilo etc. Um bom remédio para aprender a extrair o máximo das diversas possibilidades de ordenar os termos é ler os autores barrocos, mestres insuperáveis na arte da inversão. Assim, conhecem-se as duas possibilidades, o que certamente facilita a opção por uma ou outra ordem. É isso.

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Pasquale Cipro Neto é colunista da Folha de S.Paulo

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