Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > CONCENTRAÇÃO & DIVERSIDADE

Piketty em todas as partes

Por Moisés Naím em 20/05/2014 na edição 799
Reproduzido do El País Brasil, 18/5/2014; intertítulo do OI

Em janeiro de 2012 escrevi: “A desigualdade será o tema central deste ano. Sempre existiu e não vai desaparecer, mas este ano ela vai dominar a agenda dos votantes, de quem protesta nas ruas e dos políticos… Vai terminar a coexistência pacífica com a desigualdade, e as exigências de luta contra ela – e as promessas de que assim se fará – serão mais intensas e generalizadas do que têm sido desde o fim da Guerra Fria”.

E assim foi. Denunciar que 1% da população é muito rico enquanto 99% das pessoas vivem de forma cada vez mais precária se tornou uma palavra de ordem mundial. Em 2012, o número de artigos acadêmicos sobre a desigualdade econômica aumentou 25% com relação a 2011 (e 237% com relação a 2004).

Muito mais importante foi que o papa Francisco e Barack Obama tenham dito que a desigualdade é o problema que define nosso tempo. Como combatê-la é um tema nos debates eleitorais em todo o mundo, inclusive em países como o Brasil, onde a desigualdade vem minguando.

E agora, dois anos depois do meu prognóstico, chegou Thomas Piketty. Dizer que é um economista francês, autor de um denso livro de 700 páginas intitulado O Capital no Século 21 (em tradução livre para o português) que é um best-seller mundial, é lhe fazer uma injustiça. Piketty é muito mais do que isso. É um surpreendente fenômeno político, midiático e editorial. Sua tese é de que a desigualdade econômica é um efeito inevitável do capitalismo e que, se não for vigorosamente combatida, a inequidade continuará aumentando até chegar a níveis que solapam a democracia e a estabilidade econômica. Segundo Piketty, a desigualdade cresce quando a taxa de remuneração do capital (“r”) é maior do que a taxa de crescimento da economia (“g”) ou, em sua já famosa formulação, a desigualdade aumenta quando “r>g”.

Óbvio, não?

Possivelmente nem tanto, mas não importa. O alcance do fenômeno Piketty vai além do que normalmente acontece com as ideias dos acadêmicos. Por exemplo, um artigo do The New York Times a respeito de como escolher a área da cidade para a qual se mudar recomenda averiguar antes o que os vizinhos leem. Para isso, sugere ir à biblioteca desse bairro e averiguar quais são os livros mais solicitados: “É um lugar mais tipo Piketty ou mais de romances de mistério?”, é a pergunta que devemos nos fazer, segundo a especialista. Outro artigo, sobre os espinhosos problemas que afligem aos casais no quais a mulher ganha muito mais do que seu marido, termina explicando que a essência do problema tem a ver “com o debate Piketty”… O sucesso de O Capital no Século 21 é tão enorme (100.000 exemplares em inglês vendidos em dois meses) que até seu editor começa a ser uma celebridade. E numa das entrevistas que concedeu descobrimos que seu sucesso editorial anterior foi a publicação de um sisudo livro intitulado On Bullshit (“sobre a bobagem”).

Exportação de angústias

A inesperada popularidade de livros acadêmicos de difícil leitura não é um fenômeno novo. Aconteceu, entre outros, com O Fim da História de Francis Fukuyama, publicado em 1992, e com O Choque de Civilizações, de Samuel Huntington, publicado em 2001. O improvável sucesso editorial de ambos se deve ao fato de terem sido publicados em momentos nos quais já existia no mundo um grande interesse pelos temas dos quais tratavam. Fukuyama publicou seu livro pouco depois do afundamento da União Soviética, e a percepção generalizada era de que o comunismo havia sido derrotado. O prognóstico de que o futuro do mundo seria definido por ideias liberais – pelos mercados e a democracia– chegou no momento preciso. Uma década depois, Huntington teve a mesma sorte. Seu livro, cuja tese é de que os conflitos ideológicos serão substituídos por conflitos religiosos, foi posto à venda um mês antes dos ataques terroristas de 11 de setembro. E agora foi a vez de Piketty.

Há uma década, quando o boom econômico estava em seu apogeu e ocrash financeiro ainda não havia enchido de angústia as famílias nos Estados Unidos e na Europa, não haveria um interesse tão intenso em entender por que a desigualdade é causada por r>g.

Isto apesar de, durante muito tempo, a desigualdade econômica ter sido um problema crucial para a maioria da população mundial. Na América Latina e na África, as regiões com a pior distribuição de renda do planeta, este tema não é novo.

O debate mundial se popularizou só quando a desigualdade se agravou nos Estados Unidos. A superpotência tem uma capacidade inigualada de exportar suas angústias e fazer com que o resto do mundo as compartilhe. Nesse caso, é uma boa notícia que seu problema também seja importante para quem o vem tolerando passivamente há bastante tempo.

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Moisés Naím é escritor, membro do Carnegie Endowment, em Washington

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