Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > BIÓGRAFOS & BIOGRAFIAS

O livro sobre a biografia proibida por Roberto

Por Matheus Magenta, Juliana Gragnani e Marco Rodrigo em 27/05/2014 na edição 800
Reproduzido da Folha de S. Paulo, 21/5/2014; título original: “Sem alarde, autor lança livro sobre a biografia proibida por Roberto”, intertítulo do OI; O réu e o Rei, de Paulo Cesar de Araújo, 528 pp., Companhia das Letras, São Paulo, 2014; R$ 45,00

O biógrafo Paulo Cesar de Araújo lançou nesta terça (20/5), sem alarde, o livro O Réu e o Rei, sobre bastidores da disputa que levou à proibição da biografia Roberto Carlos em Detalhes, de 2006. A obra foi recolhida em 2007 após acordo entre cantor, editora (Planeta) e autor.

O Réu e o Rei, editado pela Companhia das Letras, chegou às livrarias sem a habitual divulgação que precede o lançamento de livros desse porte e sem o conhecimento de Roberto Carlos e seus advogados, uma estratégia para evitar que o título não chegasse às estantes.

No livro, Araújo relata 16 anos de pesquisa, centenas de entrevistas que fez para Roberto Carlos em Detalhes e a relação dele próprio com as músicas de seu ídolo.

Após o lançamento de Roberto Carlos em Detalhes, o cantor alegou que a biografia invadira sua intimidade, e acionou o autor e a editora nas esferas cível e criminal.

“Senti a necessidade de mostrar a gravidade da situação”, diz Araújo. “Sou um fã de Roberto que viveu uma situação dramática. Mas o Roberto tem uma multidão de fãs, eu sou apenas mais um. E minha trajetória, minha relação com suas músicas, é comum a muitos fãs dele.”

Avisado do lançamento pela Folha, Marco Antônio Campos, advogado de Roberto, afirmou que iria comprar o livro para examinar se há trecho considerado ofensivo.

Ao saber que o livro cita os encontros do artista com a cantora Maysa (1936-1977) e a atriz Sonia Braga, considerados “invasão de privacidade” no processo de 2007, Campos disse que o autor está invadindo “área delicada”.

Araújo diz não temer novos processos. “Se eu fosse me preocupar com os advogados de Roberto, eu não iria escrever nenhum livro nunca mais. Tenho compromisso com a história da cultura brasileira”, afirmou.

Em O Réu e o Rei, Araújo conta que, segundo Roberto, o biógrafo é um usurpador da história alheia, “como se a história de uma figura pública não pertencesse também à coletividade nem fosse de interesse geral”.

Hoje é possível barrar biografias feitas sem a autorização de biografados ou herdeiros por meio de dois artigos do Código Civil. A Câmara aprovou neste mês um projeto que permite a publicação de biografias sem autorização. O texto seguiu para o Senado e, caso seja aprovado, vai à sanção presidencial.

A discussão sobre a necessidade de autorização prévia para esse tipo de obra também corre no Supremo Tribunal Federal. Na semana passada, Roberto Carlos entrou no tribunal em defesa dos artigos, alegando que garantem o direito à privacidade.

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Editora diz que resolveu assumir riscos

Na manhã desta terça (20/05), as livrarias receberam milhares de exemplares de um livro que desconheciam.

As lojas só foram informadas no dia anterior sobre a distribuição das 30 mil cópias de O Réu e o Rei.

Para lançamentos desse porte (dez vezes maior que a média), há um contato prévio entre editoras e livrarias para preparar a divulgação.

A estratégia inclui propaganda, entrevistas com autor, festa de lançamento com autógrafos e espaço privilegiado nas prateleiras.

“Foi uma operação logística difícil. Estamos cientes dos riscos e resolvemos assumi-los”, conta Otávio Marques da Costa, publisher da Companhia das Letras.

Para evitar possíveis ações por parte dos advogados de Roberto, a editora trabalhava sigilosamente no livro de Paulo Cesar de Araújo desde setembro do ano passado.

Marques da Costa diz que a editora está preparada para disputas judiciais, mas avalia que o livro não será proibido e recolhido como Roberto Carlos em Detalhes.

“São situações completamente diferentes. O primeiro livro era uma biografia tradicional. Este agora é a história do Paulo Cesar, a visão dele sobre toda essa experiência. Os fundamentos que levaram à proibição da biografia não se aplicam neste caso. Essa é a nossa defesa.”

O publisher também avalia que hoje há um clima mais favorável ao tema.

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Advogado vai analisar obra e ouvir o cantor

O advogado de Roberto Carlos, Marco Antônio Campos, não sabia do lançamento do livro O Réu e o Rei, em que o jornalista Paulo César de Araújo conta bastidores do processo que tirou de circulação a biografia Roberto Carlos em Detalhes.

Campos disse que procuraria Dody Sirena, empresário do cantor, e o músico. “Vamos ter que fazer a análise e passar ao Roberto. Dependemos de sua opinião.”

“Paulo Cesar fez desse assunto a carreira dele” diz Campos. “Não poderia haver nova edição daquele livro. Como livro novo, não pode violar a lei.”

No novo livro, Araújo elenca pontos questionados pelos advogados de Roberto Carlos durante o processo, como passagens sobre encontros amorosos entre Roberto e a cantora Maysa (1936-1977) e a atriz Sonia Braga.

Detalhes

“Não lembro se a questão é a existência do encontro ou se é algum detalhe. Ele está invadindo uma área delicada. Se repetiu o fato que caracterizava injúria, estaria incidindo novamente na prática do crime”, diz Campos.

O novo livro também cita trechos de canções de Roberto em que ele faz alusão ao acidente sofrido na infância.

“É um fato conhecido, agora, se você faz uma descrição explícita, sensacionalista, aí está ultrapassando o limite narrativo”, diz Campos.

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Trechos

O juiz Tércio Pires nos recebeu de pé com os promotores Fausto Junqueira de Paula e Alfonso Presti. A escrevente Silvana Mori também já estava lá.

Antes de sentar, todos se cumprimentaram apertando as mãos – o que não aconteceu entre mim e Roberto Carlos. Não por indelicadeza, mas pelo lugar que logo ocupamos na sala. O cantor se posicionou do lado direito do juiz, enquanto eu fui para o esquerdo, ficando do outro lado da mesa de reunião. Para haver o aperto de mão, precisaríamos dar uns três passos em direção ao outro, mas nem eu nem ele tomamos a iniciativa. Exatamente nesse instante me lembrei de um verso de “Pensamentos”, uma de suas canções pacifistas, que diz: “Quem me dera que as pessoas que se encontram/ Se abraçassem como velhos conhecidos/ Descobrissem que se amam/ E se unissem na verdade dos amigos”.

“Você escreveu que eu participei de orgias com garotas menores no apartamento de Carlos Imperial! Você me chamou até de covarde neste livro!”

Nesse momento tive certeza de que o cantor não havia lido a biografia. Qualquer leitor de Roberto Carlos em Detalhes sabe que ali não existem essas acusações. Respondi: “Roberto, você talvez seja a única pessoa que viu isso no meu texto. Nem mesmo seu advogados que aqui estão acreditam que escrevi tais coisas sobre você.”

Roberto Carlos nada falou sobre o Brasil, sobre o governo Lula, sobre o papel dos Estados Unidos no mundo. É assim desde que ele despontou para o sucesso, há mais de 40 anos. Como não gosta de falar de política e também não se interessa por filosofia, economia, sociologia ou literatura, os temas de suas entrevistas costumam ficar restritos basicamente à sua vida pessoal e a alguns aspectos da carreira. Foi o que aconteceu mais uma vez nesse depoimento ao Fantástico, em que, para justificar a censura a um livro, argumentou que “privacidade é uma coisa fundamental em ser protegida” [extraídos de O Réu e O Rei].

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Matheus Magenta, Juliana Gragnani e Marco Rodrigo Almeida, da Folha de S.Paulo

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