Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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JORNAL DE DEBATES >

Desigualdade entre países deve aumentar

Por Jorge Arbache em 10/06/2014 na edição 802

Em seu celebrado livro Capital in the Twenty-First Century, o economista francês Thomas Piketty fez contribuição importante ao explicar a evidência de aumento da concentração da riqueza numa perspectiva funcional e de longo prazo.

Mas o livro de Piketty é útil para explicar a desigualdade especialmente dentro de países desenvolvidos. Já o problema de países em desenvolvimento é a tendência de aumento da desigualdade entre países, a qual decorre, dentre outros, da mudança da natureza dos bens que consumimos, da integração dos mercados e da forma como aqueles bens são produzidos e comercializados.

De fato, consumimos, e cada vez mais, bens com conteúdo crescente de serviços.

Trata-se de duas famílias de funções de serviços “embarcados” – os serviços de custos, como terceirização da produção, montagem e logística, e os serviços de agregação de valor e customização, como pesquisa e desenvolvimento, inovação, projetos, design, marcas e marketing.

A questão é que a segunda família de serviços leva porção elevada e crescente do valor final dos bens – no caso do iPad, por exemplo, eles são 93% do valor final.

Peças, serviços de montagem e logística ficam com os restantes 7%.

Comércio e competitividade

Diferentemente do que estamos acostumados a ouvir – que a desigualdade de renda entre países se explicaria, ao menos em parte, pela modéstia do setor industrial e magra participação em cadeias globais de valor –, hoje, países em desenvolvimento recebem vultosos investimentos industriais e são componentes fundamentais daquelas cadeias.

O problema é que aquela participação se dá, e cada vez mais, por meio das funções de custos, enquanto as funções de agregação de valor e customização estão concentradas nos países desenvolvidos. Por isso, é muito provável que a desigualdade entre desenvolvidos e em desenvolvimento volte a aumentar assim que os efeitos da crise financeira se dissiparem.

Essa nova dinâmica do capitalismo não se contrapõe às conclusões de Piketty acerca da concentração da riqueza e suas implicações para os países ricos – o desafio deles é como repartir a renda que para lá está fluindo.

Já o desafio de países como o Brasil é desenhar estratégias que lhes permitam romper com a armadilha em que estão metidos e crescer mais e de forma sustentada dentro do contexto da economia global. Uma estratégia promissora é a de se integrar mais à economia mundial para se beneficiar das muitas oportunidades ainda disponíveis de acesso à tecnologia, conhecimento e investimentos que podem contribuir para elevar a densidade industrial.

Países com mercados internos grandes e em expansão e com maior potencial de industrialização das suas vantagens comparativas, como o Brasil, terão melhores perspectivas de sucesso na empreitada. Mas essa estratégia poderá não ser suficiente.

Em vista da crescente importância da tecnologia para as perspectivas de crescimento e para determinar a distribuição da renda entre países, será preciso integrar as discussões sobre comércio e competitividade à agenda do desenvolvimento, incluindo as dimensões da tecnologia, inovação e capital humano.

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Jorge Arbache é professor de Economia da UnB e assessor econômico da presidência do BNDES. Foi, até 2010, economista sênior do Banco Mundial em Washington

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