Terça-feira, 25 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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JORNAL DE DEBATES > DESEMBARQUE NA NORMANDIA, 70 ANOS

O Dia D de Vladimir Putin

Por Leneide Duarte-Plon em 10/06/2014 na edição 802

O desembarque dos aliados na Normandia, há 70 anos (6 de junho de 1944), representou um momento de graça para François Hollande, que nunca esteve tão baixo nas pesquisas de opinião que medem a aprovação de seu governo. O presidente francês teve a oportunidade de mostrar todo o savoir-faire da diplomacia francesa ao receber 19 chefes de Estado nas praias normandas que viram os aliados desembarcar no famoso Dia D, conhecido como “o dia mais longo da História”. Hollande não somente administrou perfeitamente todos os pepinos diplomáticos como ganhou em simpatia e proximidade com os franceses ao honrar, pela primeira vez na história, os cerca de 20 mil civis franceses que morreram nos dias que se seguiram ao Dia D.

Naquelas praias, americanos, ingleses, canadenses e franceses deram início à batalha da Normandia que, dois meses depois, possibilitou a libertação de Paris da ocupação alemã. No ano seguinte, graças ainda aos soviéticos que venceram o exército alemão na Frente Leste, o nazismo foi definitivamente derrotado. O Exército Vermelho foi fundamental para enterrar o Terceiro Reich.

Este ano, no mais espetacular aniversário do desembarque dos Aliados, a França não esqueceu de convidar os russos. O problema é que poucos meses antes das comemorações do 6 de junho Vladimir Putin anexara a Crimeia, dando origem a sanções contra seu país. Na véspera, ele não pôde participar do G-8 em Bruxelas que, com a ausência da Rússia, voltou a se chamar G-7.

As sanções e os protestos de americanos e europeus não foram suficientes para demover os russos de suas intenções de manter a Crimeia. Num clima de recrudescimento da velha Guerra Fria, Putin chegou às praias normandas para a comemoração dos 70 anos. Mas havia um mal-estar no ar. Barack Obama não queria o tradicional aperto de mão. Por isso, os diplomatas do Quai d’Orsay organizaram um balé em que os dois chefes de Estado passaram muitas horas no mesmo lugar sem se olhar ou estar lado a lado. A não ser quando o responsável pelas imagens projetadas resolveu dividir o telão ao ar livre instalado na Normandia com as imagens dos dois presidentes. Ao perceber a aproximação virtual na grande tela, Obama esboçou um sorriso. Putin fez um esgar. Dizem que ele não é muito dado a sorrir.

Hollande conseguiu o que a Europa e os Estados Unidos esperavam: provocou um encontro de Putin com o recém-eleito presidente ucraniano Petro Porochenko. O aperto de mão e a entrevista de 15 minutos entre os dois presidentes serviu como um reconhecimento formal da Rússia e foi descrito pelo presidente francês como “uma conversa normal”. O porta-voz do Kremlin resumiu: “Putin e Porochenko querem o fim do derramamento de sangue no sudeste da Ucrânia”.

Malabarismo diplomático

Na quarta-feira (4/6), o canal TF1 e a rádio Europe 1 deram um furo de reportagem ao pôr no ar uma entrevista exclusiva com Putin. O presidente russo parecia muito calmo e afável. Segundo os dois jornalistas que deram o furo, Gilles Bouleau e Jean-Pierre Elkabbach, ele não fez nenhuma restrição a qualquer tema. O resultado da entrevista é sensacional. Putin responde a perguntas muitas vezes incômodas.

Quando os jornalistas lhe perguntam o que achou da declaração de Hillary Clinton que o comparou a Hitler, ele reponde que “ela nunca foi muito sutil em suas declarações”. Ele acrescentou que isso não impediu que Hillary Clinton e ele se encontrassem em diferentes reuniões internacionais. “É sempre preferível não discutir com as mulheres”, disse. Algumas feministas francesas protestaram imediatamente contra a suposta reação machista do presidente.

Putin desmentiu veementemente que houvesse soldados russos na Ucrânia. Ele disse que não há nem nunca houve treinamento de militares pelos russos no leste ou no sul da Ucrânia.

Mas o momento mais forte da entrevista foi quando ele chamou os americanos literalmente de “mentirosos”, ao declarar que os russos ocupam o leste do país e treinam os separatistas. “Eles mentem”, disse. “Existe uma diferença entre fazer declarações e apresentar provas. Se os americanos têm provas, que eles apresentem”, desafiou o chefe do Kremlin. Ele lembrou que os americanos já fizeram esse tipo de declaração falsa em 2003, no caso das armas de destruição em massa que diziam que Saddam Hussein possuía. A realidade era outra.

Putin se disse pronto a dialogar com os Estados Unidos. Mas não foi ainda na França que o diálogo foi retomado.

Na noite de quinta-feira (5/6), véspera do Dia D, François Hollande deu provas de malabarismo diplomático. Tinha dois convidados que não podiam se ver e precisava jantar com os dois. Solução: jantou com Barack Obama, em Paris, no restaurante Le Chiberta, do chef Guy Savoy, às 19 horas. Às 21 horas, recebeu Vladimir Putin para um jantar de gala no Palácio do Eliseu. Má notícia para o regime do presidente que voltou a engordar depois que assumiu o poder.

A noite do Dia D foi reservada ao jantar de gala no Palácio do Eliseu para a rainha Elizabeth e o príncipe Philip. Pontos para a diplomacia francesa, que recebeu durante dois dias, num verdadeiro movimento de equilibrismo diplomático, dois dos maiores líderes do planeta, que preferem se manter distantes no momento.

Decisão corajosa

Os franceses não puderam ver um aperto de mão de Obama e Putin, mas presenciaram emocionados um abraço de dois ex-inimigos: o francês Léon Gautier e o alemão Johannes Boerner, de 91 e 88 anos, dois militares que estavam em campos opostos há 70 anos. Depois da guerra, os dois homens superaram os nacionalismos obtusos que os separavam e desenvolveram uma amizade sólida.

Na mesma semana, a esperança de aproximar inimigos foi ressaltada pelo papa Francisco ao reunir na Itália os presidentes Shimon Peres, de Israel, e Mahmoud Abbas, da Palestina.

As imagens dos dois homens num longo abraço serão suficientes para convencer Israel a se retirar dos territórios palestinos e negociar finalmente a paz, que Francisco diz ser uma decisão mais corajosa do que fazer a guerra?

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Leneide Duarte-Plon é jornalista, em Paris

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