Domingo, 20 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

JORNAL DE DEBATES > DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA

Espécies invasoras, porcos ferais e erros de interpretação

Por Felipe A. P. L. Costa em 08/07/2014 na edição 806

Em 17/6, o renomado informativo eletrônico O Eco publicou o artigo “Se for exótica ‘atire primeiro e pergunte depois’, diz Simberloff“, de Fernando Fernandez e Bernardo Araujo. Trata-se de uma entrevista com o professor e pesquisador estadunidense Daniel Simberloff, cuja obra científica tem contribuído, entre outras coisas, para a solidificação da chamada “biologia da invasão” – um consórcio de temas, assuntos e problemas, básicos e aplicados, que despertam interesse e preocupação há muitas décadas (e.g., DARWIN 1859, ELTON 1958, BAKER & STEBBINS 1965).

Não sei se era intenção dos autores, mas penso que a entrevista veio a calhar como um contraponto, ou mesmo como um tipo de reparo, a um artigo que o primeiro autor publicou no ano passado. Estou aqui me referindo ao artigo “O Sus que deu certo“, de Fernando Fernandez, publicado em O Eco, em 24/6/2013.

O “Sus” no título tem um duplo sentido (inapropriado, em minha opinião), envolvendo, de um lado, o conhecido sistema de saúde do governo federal e, de outro, o nome do gênero a que pertencem os porcos domésticos e outras espécies afins. (A propósito, a família zoológica Suidae abriga hoje cerca de 20 espécies viventes de mamíferos artiodáctilos, as quais estão arranjadas em ao menos cinco gêneros: Sus, com 10 espécies, incluindo o porco doméstico e o javali; Hylochoerus, 1 espécie, o hilócero; Potamochoerus, 2; Phacochoerus, 2, o porco-africano; e Babyrousa, 4, a babirusa. É bom notar que a queixada e o cateto pertencem a uma família próxima, Tayassuidae; para comentários adicionais em português, ver ORR 1986; para detalhes técnicos, ver WILSON & REEDER 2005.)

Em seu artigo de 2013, Fernandez cometeu um sério erro de interpretação e, desde então, ao menos até onde pude perceber, ele não voltou a tocar no assunto, seja para ratificar o seu ponto de vista inicial, seja para retificá-lo. Visando apresentar e discutir tal problema, devo antes esclarecer o significado de alguns termos e conceitos.

Espécies exóticas, espécies introduzidas, espécies invasoras

As expressões “espécie exótica” e “espécie invasora”, diferentemente do que a imprensa costuma dar a entender (ver, por exemplo, as matérias “Porco-monteiro: invasor ou vizinho?“, de Fred Furtado, publicada na Ciência Hoje On-line, em 9/12/2002; e “Espécie de camarão europeu mata crustáceo exótico, sugere estudo“, publicada no portal G1, em 13/10/2013), não são equivalentes e, portanto, não devem ser tratadas como sinônimos. A confusão, a rigor, aparece até mesmo em obras escritas por técnicos e cientistas.

Uma espécie é chamada de exótica quando é encontrada vivendo além dos limites de sua área de distribuição geográfica original. A expansão para além dos limites habituais costuma ser promovida por atividades humanas, embora ocasionalmente possa ser o resultado de fenômenos naturais. No primeiro caso, diz-se que houve uma introdução. Espécies introduzidas são, portanto, aquelas espécies exóticas cuja expansão na área de distribuição foi promovida (deliberadamente ou não) por seres humanos (para um instrutivo relato histórico de introduções deliberadas, ver CROSBY 1997).

Algumas espécies exóticas (mas não todas) são também invasoras. No âmbito deste artigo, uma espécie invasora pode ser definida como toda e qualquer espécie exótica capaz de expandir por conta própria a sua (nova) área de distribuição (para comentários em português sobre invasão, ver COX & MOORE 2011; para aspectos ecológicos do fenômeno, ver BEGON et al. 2007; para uma discussão técnica a respeito da terminologia, ver FALK-PETERSEN et al. 2006).

Nem todas as espécies exóticas se comportam como invasoras, pois encontram barreiras locais (competidores, predadores etc.) que funcionam como freios, seja inibindo o crescimento numérico, seja impedindo a sua expansão para novas áreas. Um dos objetivos da biologia da invasão é justamente identificar o que faz com que certas espécies, ao menos sob determinadas circunstâncias, se convertam em invasores.

Espécies invasoras

O gato doméstico (Felis catus) é um exemplo notável de “invasor universal” (i.e., uma espécie exótica que quase sempre se torna um invasor; para detalhes e comentários adicionais, ver, neste Observatório, o artigo “O impacto negativo de uma paixão“), mas existem muitos outros.

Na lista das 100 “piores” espécies invasoras do mundo (ver “100 of the world’s worst invasive alien species“), por exemplo, constam alguns animais que são familiares aos brasileiros. É o caso do caramujo-africano (Achatina fulica), da mosca-branca (Bemisia tabaci; apesar do nome popular, esse inseto não é uma mosca; trata-se de um homóptero, parente próximo dos afídeos e das cochonilhas), da cabra (Capra hircus), do rato-de-telhado (Rattus rattus) e do porco-doméstico (Sus scrofa). Entre as plantas, penso que caberia chamar a atenção para o pinho-americano (Pinus elliottii), embora a única espécie do gênero que conste da lista seja outra (P. pinaster).

Além de predisposições inerentes a cada espécie, o sucesso do invasor depende de circunstâncias ecológicas. Sabe-se, por exemplo, que comunidades empobrecidas ou simplificadas são mais susceptíveis à invasão do que comunidades mais ricas ou complexas. Nesse sentido, a invasão tende a ser um processo de retroalimentação positiva: uma vez que o primeiro invasor tenha sido bem-sucedido, aumentam as chances de que a comunidade seja invadida por uma segunda espécie, uma terceira e assim por diante. O sucesso dos invasores, por sua vez, costuma ser acompanhado pelo desaparecimento de populações locais de espécies nativas, um processo que pode ter uma ampla, profunda e duradoura repercussão ecológica, incluindo a simplificação excessiva de teias alimentares, o desmantelamento de comunidades locais e, em última análise, a perda de serviços dos ecossistemas. No fim das contas, o impacto negativo de toda essa cadeia de eventos recai muitas vezes sobre os próprios seres humanos.

Interpretação equivocada

Voltemos então ao caso dos porcos ferais (ou porcos-monteiros) no pantanal. A certa altura do artigo “O Sus que deu certo”, o autor escreveu o seguinte:

“Segundo Arnaud e colegas, o fato de o porco monteiro ser a espécie preferida protege os grandes mamíferos nativos que coexistem com ele, como a queixada e o cateto, que em outros lugares sofrem intensa caça e já se tornaram regionalmente extintos em grande parte do Brasil, e raros no restante. Se esta interpretação está correta, o porco monteiro introduzido seria um importante fator para o Pantanal ser a única região do Brasil onde grandes mamíferos ainda são abundantes mesmo fora de Unidades de Conservação de proteção integral.”

Fernandez está se referindo a um artigo escrito por Arthur Desbiez e colegas (DESBIEZ et al. 2011), o qual, até então, eu não conhecia. Consegui uma cópia e me debrucei sobre o texto. Para meu espanto, ao final da leitura, percebi que o conteúdo daquilo que acabara de ler não combinava muito bem com as afirmações feitas pelo articulista.

Em primeiro lugar, a pesquisa conduzida por Desbiez e colegas visava tão-somente a investigar o comportamento dos caçadores, não o impacto ecológico do porco-monteiro. Além disso, a pesquisa se restringiu a entrevistar os caçadores, sem acompanhá-los em suas excursões de caça. E o mais importante: Desbiez e colegas concluíram apenas e tão-somente que os pantaneiros caçam os porcos ferais, deixando de lado (aparentemente) animais nativos de tamanho equivalente (cateto etc.). Ao final do artigo, eis um comentário dos próprios autores (DESBIEZ et al. 2011, p. 82; tradução livre):

“Nós não podemos, portanto, responder à questão crítica: o efeito tampão que a caça de porcos ferais representa para a vida selvagem nativa, contrabalança os potenciais impactos negativos da espécie na competição por recursos, degradação de hábitats e transmissão de doenças?”

O resultado da pesquisa, no fim das contas, nos dá apenas e tão-somente pistas a respeito das preferências de caça dos entrevistados, o que pouco ou nada nos diz sobre o impacto ecológico (positivo ou negativo) que o porco-monteiro teria sobre a biota pantaneira. A principal mensagem contida no artigo de Fernandez – a ideia de que essa suposta preferência dos caçadores aliviaria a pressão de caça sobre certos animais nativos e, o mais importante, sobre as teias alimentares locais – foi, portanto, uma conclusão equivocada, sem uma base apropriada de sustentação.

Pingos nos is

Assim que li o artigo, escrevi ao autor, sugerindo que examinasse o caso com mais atenção e, quem sabe, voltasse a tratar do assunto em uma próxima coluna. Mas não sei se ele chegou a receber a mensagem, pois não recebi um retorno. Seja como for, como já disse antes, temo que desde então ele não tenha voltado a tratar do assunto em seus artigos. Outros leitores, no entanto, se manifestaram publicamente.

Em 29/8/2013, o mesmo informativo publicou o artigo “Uma visão ampla sobre os perigos do porco monteiro“, de M. Noelia Barrios-Garcia e Daniel Simberloff. Os autores chamam a atenção para algumas questões gerais envolvendo espécies invasoras, além de discutirem alguns aspectos do caso do porco-monteiro no pantanal. Eles, porém, não chegam a apontar diretamente para a falta de sustentação das afirmações feitas por Fernandez em seu artigo, em particular a sua ideia de que “a introdução do porco monteiro foi um feliz acidente histórico que resultou na proteção das espécies nativas”.

Deliberadamente ou não, a entrevista recém-publicada em O Eco seria até certo ponto um jeito de reparar o problema, colocando alguns pingos nos is. Eis, por exemplo, o que o entrevistado (Daniel Simberloff) disse a certa altura sobre o caso do porco-monteiro no pantanal:

“Eu li os artigos que dizem que ele protege o cateto e o queixada porque as pessoas preferem caçá-lo, mas ainda não vi nenhum dado real acerca de impactos populacionais nessas duas espécies de porcos nativos. Primeiro, é necessário que haja alguma ciência de verdade aqui. Em segundo lugar, existem tantas coisas que o porco monteiro faz: eles arrancam raízes, e atacam espécies que possuem raízes carnosas e tubérculos, frequentemente eliminando-as localmente; eles misturam camadas orgânicas e minerais no solo alterando a sucessão de plantas; eles comem fungos, e podem espalhar fungos micorrízicos que podem ser úteis para plantas invasivas como fazem na região patagônica dos Andes; e eles comem tudo, desde ovos de pássaros que nidificam no chão até anfíbios, eles são onívoros. Então, alguém teria que estudar esse caso com muito cuidado e olhar para todos os variados impactos no pantanal para dizer que os porcos monteiros de fato auxiliam na conservação. E eu diria que isso é verdade para qualquer um desses exemplos de espécies invasoras que ajudam na conservação. Eu não diria que não existe nenhuma, mas é fácil demais olhar para apenas um efeito e dizer “olhe, isso é bom”. Eu tenho uma palestra sobre isso, onde abordo todos esses exemplos de invasões que supostamente ajudam a conservação, caso a caso, e mostro que cada um deles possui desvantagens além das vantagens previamente apontadas, e algumas delas são desvantagens tremendas. Então, talvez pudéssemos dizer a mesma coisa a respeito do porco monteiro no Pantanal. Dizem que ele está ajudando as duas espécies de porcos nativos, mas eu gostaria de ver os dados reais mostrando um impacto populacional nessas espécies. Só porque os caçadores estão atirando nos porcos monteiros isso não significa que as populações de catetos e queixadas estão se beneficiando.”

Coda

Erros e mal-entendidos não são exclusividades de repórteres e editores. Todos nós erramos. Quando isso acontece, no âmbito específico da divulgação científica, sou de opinião que o melhor é o autor discutir pronta e abertamente o seu erro – na hipótese, claro, de ele em algum momento ter reconhecido o problema. No caso referido neste artigo, há ao menos dois bons motivos para que isso fosse feito.

Em primeiro lugar, porque essa seria a melhor conduta de um autor que está comprometido com o ensino e a divulgação de alto nível, como penso ser o caso do professor e pesquisador Fernando Fernandez. Além de suas atividades acadêmicas, ele é conhecido do público pelos seus escritos de divulgação, envolvendo principalmente temas e assuntos de biologia da conservação (ver, por exemplo, FERNANDEZ 2000).

Em segundo lugar, porque erguer uma cortina de fumaça ou varrer o problema para debaixo do tapete nunca é uma boa solução, sobretudo quando estamos falando de animais barulhentos e vorazes, como são os suínos.

Referências citadas

** BAKER, H. G. & STEBBINS, G. L., eds. 1965. The genetics of colonizing species. London, Academic Press.

** BEGON, M.; TOWNSEND, C. R. & HARPER, J. L. 2007. Ecologia: De indivíduos a ecossistemas, 4ª edição. Porto Alegre, Artmed.

** COX, C. B. & MOORE, P. D. 2011. Biogeografia: Uma abordagem ecológica e evolucionária, 7ª edição. Rio de Janeiro, LTC.

** CROSBY, A. W. 1993. Imperialismo ecológico. São Paulo, Companhia das Letras.

** DARWIN, C. 1859. On the origin of species. London, John Murray.

** DESBIEZ, A. L. J. & outros 3 coautores. 2011. Invasive species and bushmeat hunting contributing to wildlife conservation: the case of feral pigs in a Neotropical lowland. Oryx 45: 78-83.

** ELTON, C. S. 1958. The ecology of invasions by animals and plants. London, Methuen.

** FALK-PETERSEN, J.; BØHN, T. & SANDLUND, O. T. 2006. On the numerous concepts in invasion biology. Biological Invasions8: 1409-24.

** FERNANDEZ, F. 2000. O poema imperfeito: crônicas de biologia, conservação da natureza, e seus heróis. Curitiba, Editora da UFPR.

** ORR, R. T. 1986. Biologia dos vertebrados, 5ª edição. São Paulo, Roca.

** WILSON, D. E. & REEDER, D. M., eds. 2005. Mammals species of the world: A taxonomic and geographic reference, 3rd edition. Baltimore, Johns Hopkins UP.

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Felipe A. P. L. Costa é biólogo e escritor,autor, entre outros, de Ecologia, evolução & o valor das pequenas coisas (2003)

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