Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > LÍNGUA & LINGUAGEM

Falso chique

Por Pasquale Cipro Neto em 08/07/2014 na edição 806
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 3/7/2014; intertítulo do OI

A tentação é grande. O uso de uma forma linguística insólita, às vezes estrangeira, esnobe, para chamar a atenção, para parecer chique ou mesmo porque se acha que a coisa realmente é daquele jeito, nem sempre gera bons resultados.

Vou preparar o terreno para os exemplos do que acabo de citar. Vamos lá. No futebol, antes do início da Copa, houve, aqui e lá fora, uma sequência de casos de racismo fartamente noticiados. Se o caro leitor não se lembra de algum deles, ajudo: o caso que envolveu um árbitro numa cidade do Rio Grande do Sul, as manifestações contra Arouca (jogador do Santos), Tinga (do Cruzeiro – o fato ocorreu no Peru), Daniel Alves, na Espanha, e Balotelli, na Itália etc. Durante a Copa, um boboca mostrou tatuagens nazistas a um jogador. De qual seleção era mesmo a vítima do infame nazista? Bem, já sei, alguém dirá que “infame nazista” é pleonasmo… E é mesmo, mas a tentação por esse tipo de pleonasmo é infrene.

O fato é que, revirando os meus arquivos de preciosidades, verifiquei uma estranha coincidência: muitos desses casos foram “manchetados” aqui e ali com frases em que a preposição “a” aparece de forma no mínimo estranha. Vejamos alguns: “Inter bate Aimoré em jogo com protesto contra racismo a árbitro”; “FPF leva caso de racismo a Arouca à Justiça e interdita estádio de Mogi Mirim”; “Racismo a Balotelli gera revolta; fãs pedem saída da seleção”.

Que me diz o leitor das passagens “racismo a árbitro”, “racismo a Arouca” e “racismo a Balotelli”? Alguém diria (ou já ouviu) algo como “Mas isso é racismo aos imigrantes”? E que tal algo como “O racismo aos negros ainda está longe de acabar no Brasil e no resto do mundo”?

Parece que existe uma fortíssima atração pelo aparente chiquismo que a preposição “a” confere, como se vê nos casos citados e em outros, como este, publicado num site: “Conheça os 10 melhores destinos de acordo a nossos viajantes”. “De acordo a”? Que língua é essa? Alguém já disse ou ouviu algo como “De acordo ao médico, o remédio não apresenta…” ou “De acordo à presidente da estatal, o contrato é legalíssimo”?

Como se lê

Não invente, não, caro leitor. Não copie isso, não, caro leitor. Não caia na tentação do falso chique, do falso culto, do falso correto. O racismo, por si só, já é uma desgraça suficientemente grande. Não é preciso piorar essa chaga com estruturas linguísticas infelizes. “Racismo a fulano” é uma bobagem sem tamanho, que pode (e deve) perfeitamente ser trocada por “racismo contra fulano”.

“De acordo a nossos viajantes” também é uma bobagem sem tamanho. Não tenha medo do simples e óbvio, ou seja, não tenha medo da construção “De acordo com…”

Por falar em Copa, alguns dos nossos colegas do rádio e da TV não perdem a mania de anglicizar tudo e mais um pouco, o que é “chique no último”. No fim do jogo Uruguai x Inglaterra, o técnico da Celeste pôs o jovem zagueiro Coates no lugar do extenuado Suárez. O prenome de Coates é Sebastián (que é oxítona e se escreve com acento em espanhol), mas é claro que na boca de alguns dos nossos profissionais virou “Sebástian”. São os mesmos que disseram várias vezes que fulano de tal joga no Manchester “Círi”, como se esse time fosse estadunidense.

Talvez seja melhor agir como os espanhóis e hispano-americanos, que pronunciam tudo como se lê na língua deles (veja-se o caso do colombiano James, que no começo da Copa era chamado por aqui de “Djeimes”), ou tentar saber como é na língua de origem. Fora disso, o risco de cair no falso chique é imenso. É isso.

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Pasquale Cipro Neto é colunista da Folha de S.Paulo

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