Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

JORNAL DE DEBATES > ENTREVISTA / GLENN GREENWALD

Um outro papel para o jornalista

Por João Luiz Rosa em 15/07/2014 na edição 807
Reproduzido do Valor Econômico, 11/07/2014; intertítulos do OI

Muitos jornalistas poderiam se sentir desconfortáveis por estar no centro da notícia, mas não Glenn Greenwald. Ainda mais quando a notoriedade conquistada se deve ao exercício da profissão. Em seu livro recém-lançado, Sem Lugar para se Esconder, o advogado, blogueiro e jornalista americano de 47 anos conta como quase deixou passar um dos maiores furos de reportagem dos últimos tempos – os documentos que mostram como os Estados Unidos espionaram líderes e companhias de países aliados, como a presidente Dilma Rousseff e a Petrobras.

“Fiz tudo o que podia para perder essa história”, diz ele, rindo de si mesmo. Nos primeiros contatos, Edward Snowden – o ex-analista que vazou os documentos da agência de segurança nacional dos EUA, a NSA – não dava indicações claras de quem era, o que deixou Greenwald, acostumado a denúncias vazias, com o pé atrás. “Minha caixa postal está sempre recheada de e-mails. Recebo de 200 a 250 mensagens por dia, mas 90% das vezes não é nada ou é algo muito louco, do tipo ‘meu chefe está controlando minha mente com um chip’”, afirma. Dessa vez, porém, a história não só era parte dos 10% restantes, como proporcionaria a Greenwald a chance de declarar sua fé em uma concepção não convencional e polêmica do ofício jornalístico. “Jornalismo é uma ferramenta para atingir objetivos. Também sou um ativista”, diz ele. “Dar opinião é parte do jornalismo.”

Em uma mesa do restaurante CT Brasserie, no bairro carioca de São Conrado, Greenwald – um nova-iorquino de nascimento que cresceu na Flórida – explica por que adotou o Rio como sua casa. “Adorei a cidade desde a primeira vez que estive aqui, no fim dos anos 90”, diz. A paixão foi tamanha que ele prometeu a si mesmo que não viria a passar férias em nenhum outro lugar. Na época, trabalhava como advogado em Nova York, para onde voltara na época da universidade, mas pensava em mudar de carreira. Depois de sucessivas viagens ao Brasil e de começar a aprender português – que fala fluentemente –, Greenwald decidiu passar uma temporada mais longa no país. Nem desconfiava que um imprevisto selaria sua permanência definitiva no Rio.

“Fazer jornalismo de um jeito novo”

“Eu estava perto da [praça] General Osório, em Ipanema, quando uma bola bateu e derrubou minha bebida”, conta. Quem veio pedir desculpas e recuperar a bola foi David Miranda, hoje parceiro de Greenwald, que estava jogando voleibol com os amigos. O que era para ser uma interação sem maiores consequências ganhou repercussões que duram até hoje. “Jantamos naquela noite e acabamos nos apaixonando”, relata Greenwald. Os dois estão juntos até hoje. Eles chegaram a entrar com um pedido na imigração americana para que Miranda pudesse morar e trabalhar nos EUA. Não conseguiram. Na época, uma lei federal americana – derrubada pela Suprema Corte no ano passado – impedia que os direitos previstos para casais heterossexuais fossem estendidos a uniões entre pessoas do mesmo sexo, afastando a concessão do visto de permanência. A decisão, então, foi ficar no Brasil, que concedeu o direito de permanência a Greenwald.

“Estou morrendo de fome”, diz o jornalista no começo da nossa conversa, enquanto estende a mão para se servir da entrada, que desprende um cheiro convidativo, difícil de resistir. Voltamos à questão da comida mais ao fim do encontro: “Você gosta de cozinhar?”, pergunto. “Não sei cozinhar. Tudo o que faço fica horrível. Ninguém consegue comer”, responde Greenwald, com uma sinceridade desconcertante. “O David sabe cozinhar muito bem, mas não gosta. Podemos ir a um restaurante muito bom e, dias depois, ele consegue repetir [a receita] em casa e até melhorar [o prato].”

Quando o caso Snowden começou, Greenwald trabalhava para o jornal britânico The Guardian, que deixou no ano passado para embarcar em um novo projeto. Ele já vinha discutindo com os amigos Laura Poitras, documentarista e cineasta, e Jeremy Scahill, também jornalista, a criação de uma publicação investigativa. Em meio às conversas, Greenwald foi procurado pelo bilionário Pierre Omidyar, fundador do eBay, que tinha interesse em criar uma publicação nos mesmos moldes. Foi coincidência. Eles não se conheciam: “Falei com o Omidyar pela primeira vez na vida em setembro.”

Omidyar nasceu na França, mas seus pais, iranianos, emigraram para os EUA quando ele tinha seis anos. Com o site de comércio eletrônico fez uma fortuna estimada atualmente em US$ 7,7 bilhões pela revista americana Forbes. Ainda preside o conselho de administração do eBay, mas gasta boa parte de seu tempo, e dinheiro, com filantropia. “Ele quase comprou o [jornal] The Washington Post, mas preferiu fazer jornalismo de um jeito novo”, afirma Greenwald.

Destino de Snowden é uma incógnita

O resultado dessa investida é o grupo First Look Media, no qual Omidyar planeja investir US$ 250 milhões, a mesma soma que outro magnata da internet – Jeff Bezos, da Amazon – gastou para comprar o Washington Post da família Graham no ano passado. O primeiro resultado concreto da First Look é o site The Intercept, lançado em fevereiro, no qual Greenwald e seus companheiros têm avançado com a publicação de notícias sobre a NSA e o governo americano. A revista eletrônica está em inglês. Com o tempo, a previsão é lançar versões em outros idiomas. Por enquanto, são 25 jornalistas, mas a equipe está incompleta. Novas publicações, com foco em outros assuntos, também estão previstas. Até o fim do ano a expectativa é que entre no ar uma publicação ainda sem nome, que será dirigida pelo jornalista Matt Taibbi e vai tratar de Wall Street e do mundo financeiro.

Com o site The Intercept, Greenwald pode pôr à prova o modelo de jornalismo que considera essencial para voltar a atrair a atenção do público – que tem abandonado a leitura de jornal em muitos mercados, como os Estados Unidos e a Europa – e recuperar a credibilidade eventualmente perdida. Para ele, as grandes publicações não dão a seus jornalistas uma liberdade essencial ao ofício, incluindo a de opinar, uma posição que tem lhe valido críticas. Em outubro, Bill Keller – colunista e ex-editor-executivo do New York Times – publicou no jornal americano uma sucessão de longas mensagens nas quais os dois esgrimem sobre temas como a objetividade jornalística. O título da coluna: “É Glenn Greenwald o futuro da notícia?”

O dilema, para Greenwald, é que, embora a internet dê liberdade ilimitada aos jornalistas ao colocar em suas mãos ferramentas como os blogs, faltam, na maioria dos casos, os recursos necessários para garantir um jornalismo investigativo sério. A lista inclui contratação de editores, recursos tecnológicos avançados, orçamento para viajar, advogados que defendam os profissionais em eventuais processos na Justiça – coisas que só costumam estar disponíveis nos grandes meios de comunicação. Encontrar o equilíbrio entre esse aparato e uma prática jornalística mais opinativa não é fácil, mas essa é a proposta.

Faz mais de um ano desde que o jornal The Guardian publicou a primeira reportagem sobre a NSA, em junho de 2013, mas o caso continua vivo. O destino de Snowden, que permanece na Rússia com visto temporário, é uma incógnita. Na quarta-feira (9/07) foi divulgado que ele pediu uma extensão do visto, cujo validade termina no dia 31. Nos últimos dias também veio à tona que um homem não identificado que trabalha para o serviço secreto da Alemanha foi detido sob a acusação de passar informações para os Estados Unidos sobre os trabalhos de uma comissão criada exatamente para investigar atos de espionagem americana em solo alemão. A comissão foi estabelecida depois que se soube que a NSA também havia monitorado mensagens da primeira-ministra alemã Angela Merkel.

“A felicidade é muito relativa”

“Você ainda fala com Snowden frequentemente?” “Quase todos os dias. Só ficamos sem nos comunicar durante as três semanas em que ele ficou retido no aeroporto russo” [o governo americano cancelou o passaporte de Snowden, que ficou impedido de entrar na Rússia ou embarcar para outro lugar].

Greenwald diz ter sido procurado por Snowden pelas reportagens que já havia escrito desde que iniciou seu blog, em meados da década passada, e por sua posição sobre jornalismo e mídia em geral. O receio do ex-consultor da NSA, afirma o jornalista, era que dependendo de quem assumisse a apuração apenas dois ou três documentos fossem divulgados, limitando a repercussão da história.

Aos 31 anos, completados no mês passado, Snowden parece ainda mais jovem nas poucas entrevistas que concedeu até agora, um ponto que ele mesmo já abordou, ao rebater críticas de que seria novo demais para ter acesso a tantos documentos secretos. “Idade não é tão importante quanto experiência”, observa Greenwald. O relacionamento com Miranda, diz, reforçou essa lição. “O David é órfão e cresceu na favela. Perdeu a mãe aos quatro anos e não conheceu o pai. Quando nos conhecemos, estava na faixa dos 20 anos, mas era maduro para a idade.” A experiência, para ele, forçou a maturidade.

Pergunto como Snowden está se sentindo longe da família e dos amigos e sem perspectiva de voltar a seu país natal. Greenwald recorda que quando se encontrou pela primeira vez com o ex-consultor da NSA, em Hong Kong, não parecia haver outro destino para Snowden a não ser voltar detido para os Estados Unidos, preso, para enfrentar um processo tumultuado e uma pena severa. “A felicidade é muito relativa”, diz o jornalista. “Quando você espera ir para a prisão pelo resto da sua vida, mas encontra uma situação de relativa liberdade, isso o torna feliz. Acho que Snowden é uma das pessoas mais felizes que conheço, talvez a mais feliz, e isso por causa da paz interior que ele sente.”

“Snowden protegeu os direitos humanos no Brasil”

Snowden não foi o único a ter sua vida pessoal duramente afetada pela revelação dos documentos. Em agosto, David Miranda foi detido no aeroporto de Heathrow, em Londres, durante uma escala entre Berlim e o Rio. Ele ficou sob interrogatório durante quase nove horas, sob a legislação antiterrorismo britânica. “O que você sentiu quando soube?” “Esse foi o dia mais difícil. Senti muita raiva de não poder fazer nada. Quando pegam a pessoa que você mais ama na vida, a prendem em uma sala e ameaçam colocá-la na prisão, você sente o que é o poder.”

Até esse momento, diz Greenwald, prevalecia uma certa sensação de vitória, mas a detenção de Miranda provocou um sentimento reverso, embora ambos já soubessem, desde o início, que poderiam correr riscos ao embarcar no caso.

O jornalista afirma que ainda tentou controlar a emoção, mas foi impossível. “Quando fui para o aeroporto [internacional do Rio, onde Miranda desembarcaria depois de deixar Londres], eram 4 horas da manhã. Os jornalistas me perguntaram se aquilo me faria parar e eu respondi que, ao contrário, seria mais agressivo; que também tinha documentos sobre o governo do Reino Unido e que eles iriam se arrepender”, conta Greenwald. “Nos três ou quatro dias seguintes, publicaram que eu iria me vingar, mas eu nunca disse isso.”

Enquanto comemos – Greenwald escolhe um fettuccine cremoso de funghi –, a conversa recai sobre a concessão de asilo a Snowden e, em particular, o papel do Brasil nessa definição. “Não há muitos países com a força e a eficiência necessárias para proteger Snowden, e que tenham sido beneficiados [pela revelação dos documentos]. O Brasil é um desses países”, afirma. “[Snowden] fez muito para proteger os direitos humanos no Brasil e o país tem a obrigação de fazer algo pelos direitos humanos também.”

“Eu não sou uma celebridade”

Já a volta de Snowden para os Estados Unidos parece impossível para Greenwald: “Isso não vai acontecer.” “Mas existem advogados cuidando disso, não é?” A questão, responde o jornalista, é de outra natureza. A NSA tem cerca de 90 mil funcionários no mundo, que trabalham para a organização direta ou indiretamente. Com tanta gente, é impossível proteger todas as informações confidenciais de eventuais vazamentos, o que a direção da NSA sabe bem. Segundo ele, a única opção que resta, então, é criar um “clima de medo”, com punições capazes de desestimular esse tipo de comportamento. “É por isso que [o soldado Bradley] Manning [que forneceu arquivos secretos para o site WikiLeaks] foi condenado a 35 anos de prisão sem machucar ninguém”, comenta Greenwald. “E é por isso que eles precisam que Snowden vá para a prisão durante muitos anos.”

O jornalista levou cinco meses para escrever Sem Lugar para se Esconder, cuja edição brasileira foi lançada em maio pela editora Sextante. O prazo para finalizar o livro foi curto, mas pelo menos superou o original, que era de três meses. Desde então, Greenwald tem participado de uma maratona para lançar o livro em vários países. Em agosto, ele será um dos convidados da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty.

Um público ainda maior que o do livro, no entanto, poderá ver a história no cinema. A Sony Pictures comprou os direitos para levar a obra às telas. O elenco não está definido, mas o estúdio já definiu que os responsáveis pela produção serão Michael G. Wilson e Barbara Broccoli, a dupla que responde pelos lendários filmes de James Bond, o agente secreto 007.

Antes de se decidir pela Sony, Greenwald diz ter conversado com quatro ou cinco estúdios. Ele vai atuar como consultor, mas não terá interferência direta na produção. Paralelamente, Laura Poitras prepara um documentário sobre o assunto, com cenas do primeiro encontro com Snowden em Hong Kong e o reencontro com Miranda no Rio, entre outros episódios.

Não deixa de ser curioso que uma reportagem transforme Greenwald em um personagem cinematográfico. O filme que mais o influenciou na infância também foi a transposição de uma história jornalística para as telas. Todos os Homens do Presidente, lançado em 1976, recontava a investigação de dois repórteres do jornal The Washington Post sobre o que ficaria conhecido como o caso Watergate, que culminou com a renúncia do presidente americano Richard Nixon.

No filme, dirigido por Alan J. Pakula, os repórteres Carl Bernstein e Bob Woodward são interpretados, respectivamente, por Dustin Hoffman e Robert Redford. Aproveito para perguntar a Greenwald se existe algum ator de Hollywood que ele gostaria de ver interpretando seu papel no cinema. “Ah, eu não vou responder a essa pergunta”, diz o jornalista, um pouco encabulado. Insisto, e ele explica o motivo da recusa, depois de falar sem reservas sobre assuntos mais espinhosos. “Eu não sou uma celebridade”, afirma. Qualquer resposta que desse à pergunta, prossegue, soaria pretensioso. Concordo, mas saio pensando em quem vai assumir, nas telas, o lugar do homem com quem acabei de almoçar.

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João Luiz Rosa, do Valor Econômico

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