Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > ECOS DA COPA

Vitórias de uma derrota

Por Luiz Egypto em 15/07/2014 na edição 807

Nem parecia que haviam perdido o jogo. A festa que a torcida argentina promoveu no centro de Buenos Aires no domingo (13/7), tão logo soou no Maracanã o apito final da partida que deu à Alemanha o tetracampeonato mundial de futebol, se de um lado trazia o peso da decepção pelo resultado do jogo, apresentou, em contrapartida, um incontido orgulho pelo desempenho de sua seleção na Copa do Mundo Fifa 2014 disputada no Brasil. Foi uma reação sincera da multidão, que os jornais e emissoras de rádio e TV argentinos souberam captar.

“¡¡¡Vamos Argentina!!! ¡¡¡Vamos que se puede!!!” era o grito de guerra, com as efusivas exclamações triplas. A torcida  – os hinchas  – esteve muito satisfeita com sua seleção, diferentemente de seus hermanos mais ao norte da foz do rio da Prata. A propósito da atuação da seleção brasileira, após a derrota de 3 a 0 para a Holanda, um comentarista do canal Direct Sports foi de uma precisão cirúrgica: “[O Brasil] é um plantel, não uma equipe”.

O sentimento dedicado ao desempenho do selecionado brasileiro variava entre o sarcasmo nutrido por um eterno rival em trajetória ascendente e o desapontamento pelas últimas e patéticas exibições do time de autômatos de Luiz Felipe Scolari, Parreira e cia. Para tripudiar, os hinchas contentavam-se em repetir ad nauseam o hit da temporada futebolística, a paródia construída sobre a melodia de uma canção (“Bad moon rising”) de mais de 40 anos da extinta banda de rock açucarado Creedence Clearwater Revival: “Brasil decime qué se siente/ tener en casa a tu papá./ Te juro que aunque pasen los años/ nunca nos vamos a olvidar…” E por aí ia.

Tripudiar sobre o time brasileiro, depois do acachapante 7 a 1 diante da Alemanha e da vexatória derrota para a Holanda, perdera a graça. Era como chutar um moribundo. As atenções agora estavam todas postas na grande final. E ao time de Alejandro Sabella não faltaram nem as boas graças da mídia nem o incentivo da propaganda oficial. As emissoras argentinas de TV promoveram uma cobertura massiva que tomou praticamente toda a programação às vésperas do jogo de domingo no Maracanã. Suas equipes foram à rua com uma desenvoltura de causar estranhamento nos defensores do dito "padrão Globo de qualidade", citado aqui apenas porque esta foi a emissora oficial da Copa no Brasil e porque, para o mal ou para o bem, mais para bem do que para mal, há décadas cria padrões e influencia a estética adotada pelas emissoras concorrentes, abertas ou fechadas.

Nos últimos dias da competição, os repórteres e produtores argentinos foram sem gravata nem uniforme para as ruas de São Paulo, Brasília e Rio, abrindo as câmeras para os torcedores, praticando um jornalismo duro, impactante, ao vivo e sem filtros, daquele tipo que alguns imaginam ter sido inventado pelo Mídia Ninja. Se o povaréu falava à vontade, sem cortes, os anunciantes também soltavam o verbo. “Vamos, carajo”, berrava um anúncio da cerveja Quilmes, marca pertencente à Inbev, multinacional cervejeira controlada por brasileiros.

“En busca de um sueño”, do músico e cantor cubano Silvio Rodríguez, era a trilha sonora da TV Pública argentina, que na noite de sábado (12/7) encerrou uma entrevista com o eterno Diego Maradona na qual ex-craque olhava para o alto, contrito, e pedia à alma de sua falecida mãe e à do presidente Néstor Kirchner que a Argentina ganhasse a Copa. ¡Increíble!

Batalha campal

Durante todo o “esquenta” para a grande decisão do Maracanã não havia na mídia jornalistas ou comentaristas, mas torcedores. De fato, os argentinos estavam – e estão – verdadeiramente encantados com a sua seleção de futebol. A TV Pública, com pouca desenvoltura para coberturas ao vivo, martelava anúncios hagiográficos, centrados na figura de Lionel Messi, atiçando os brios nacionais para a grande disputa que se aproximava. “¡Vamos Argentina¡. ¡Vamos que se puede!”

No dia do jogo, o caldo começou a entornar quando o árbitro italiano Nicola Rizzoli não marcou pênalti em uma violenta entrada do goleiro alemão Neuer no atacante Higuaín: “Para ser pênalti, no Brasil, só se for um chute na cabeça”, anotou um comentarista da TV Pública. “Sigamos soñando juntos que se puede. ¡Claro que se puede!”

Empatado no tempo regulamentar, o sonho argentino durou até o segundo tempo da prorrogação, quando um bate-pronto do atacante Gotze selou o destino do jogo. E da Copa.

O discurso da mídia argentina então rapidamente reconverteu-se em chamamentos ao orgulho nacional. Ao fim e ao cabo, os meios apenas refletiam o sentimento das ruas. Quando o jogo acabou, eram poucos entre as milhares de pessoas que se concentraram no microcentro portenho para assistir ao jogo – em TVs nos restaurantes e cafés, ou nos telões instalados nas ruas, em especial na Plaza San Martin – os que externavam algum sentimento assemelhado à decepção. Estavam tristes, abalados, mas orgulhosos do time montado por Alejandro Sabella. Sentiram a garra, a determinação e o empenho de sua equipe. Só faltou mesmo trazer a Copa para Buenos Aires.

“Estamos orgulhosos. O time caiu em pé”, repetia a TV. “A equipe vendeu muito caro a sua derrota”, coincidiam os comentaristas. “Heróis argentinos”, resumiam os títulos. Jogo findo, um repórter do canal all news TN consola o choro de um garoto de 11 anos: “O Brasil ficou em quarto, e você é o segundo”, dizia ele ao menino. “Orgullosos de ustedes”, reiterava o highlight na área inferior da tela de TN.

A opção da torcida brasileira em apoiar a Alemanha na disputa final causou estranhamento em mais de um entrevistado pelas equipes de reportagem da TN: “Uma lástima. Eles são da Europa…”, disse um deles. “Enfiaram 7 a 1 no Brasil e os brasileiros ainda torcem por eles”, estranhava outro, bem distante de entender as idiossincrasias e o pragmatismo de um torcedor capaz até mesmo de vaiar o hino de um país amigo.

Rivalidades à parte, o que se observou depois do fim do jogo decisivo foi uma festa. Por mais paradoxal que pudesse ser a comemoração de uma derrota, o motivo principal estava menos no resultado da partida e mais na performance do time argentino, que encarou um embate dificílimo contra a poderosa Alemanha contabilizando um dia a menos de descanso e o desgaste de duas prorrogações nos últimos jogos. Ainda assim, a equipe jogou com aquela paixão que só os argentinos conhecem – e que os brasileiros também chegaram a conhecer, um dia.

A massa deslocou-se, cantando, da Plaza San Martin em direção à Avenida 9 de Julio e daí para o sul, rumo ao Obelisco, plantado na confluência das avenidas Corrientes e Diagonal Norte. Ninguém, nem a polícia nem a imprensa, arvorou-se em calcular o número de pessoas que ali estavam. Uma observação ligeira podia concluir que havia algo aproximado a uma, talvez duas centenas de milhares de torcedores – jovens, adultos, crianças, famílias inteiras na rua.

Em que pese o tamanho da massa, não havia esquema prévio de segurança montado, nem um operativo para ordenar o tráfego da área. Soube-se depois que bateram cabeça a Polícia Federal Argentina (PFA), que faz o policiamento preventivo, e a Polícia Metropolitana bonaerense, vinculada ao governo da Cidade Autônoma de Buenos Aires. Mais adiante, por intermédio de Sergio Berni, secretário de Segurança da Nação, em declarações a uma rádio local, também se soube que uma briga entre duas torcidas organizadas – a do Club Atlético Independiente, presidido pelo líder sindical Hugo Moyano, e a do Chacarita Juniors, onde pontifica o senador e também sindicalista Luis Barrionuevo – fora o estopim que transformou a festa em uma batalha campal. “Foi planejado”, assegurou Berni.

Donos da festa

Pouco antes das 21h de domingo (13/7), uma grua do canal TN, instalada na calle Carlos Pellegrini (paralela a leste da Avenida 9 de Julio), quase foi tomada por torcedores mais exaltados, que ainda pareciam poucos. Minutos mais tarde, do lado oposto da avenida, no cruzamento de Liberdad com Avenida Corrientes, uma unidade móvel do canal C5N foi tomada por hinchas ensandecidos ­– havia rolado muito álcool desde antes de o jogo começar – que expulsaram os profissionais da TV e vandalizaram o veículo, que ficou inutilizado.

Até então os distúrbios estavam localizados e a polícia ainda não interviera. Os canais de notícias transmitiam ao vivo, a TV Pública desconhecia os fatos. Em torno das 22h começaram as primeiras movimentações policiais com o aparato de sempre: gás lacrimogêneo e balas de borracha. À falta de bombas de efeito moral, comuns na repressão a protestos nas cidades brasileiras, um barulhento esquadrão de motociclistas da Polícia Federal Argentina fazia as vezes da cavalaria dos tempos modernos: o condutor se aproximava e o policial na garupa encarregava-se da prisão. Ou do golpe de cassetete.

O grosso dos torcedores que estavam ali para festejar se dispersou, mas os que tinham outros planos permaneceram na lida da destruição de equipamentos públicos e dos saques. Já vimos esse filme. Foram três horas de pau puro. A situação só foi controlada perto da 1h de segunda-feira (14), o dia marcado para a chegada da seleção argentina à milongueira pátria de chuteiras. Pouco depois das 9 da manhã de segunda, os heróis nacionais desciam as escadas do Boeing 737-800 das Aerolíneas Argentinas, no aeroporto de Ezeiza.

“Gracias. Orgullosos de ustedes”, insistia o canal TN, enquanto cobria en directo o desembarque dos jogadores. “Una masa popular abraza la selección”, titulava a TV Pública, para arrematar: “Sabella, estamos agradecidos y orgullosos”. “Vocês estão dando ao mundo um exemplo de cidadania; parabéns”, disse em bom português um brasileiro não identificado, de sotaque nordestino, ouvido por TN no aeroporto de Ezeiza.

O primeiro compromisso da “seleção de 40 milhões de argentinos” era um encontro com a presidente Cristina Fernández de Kirchner, numa dependência da Asociación del Futbol Argentino, próximo a Ezeiza (aeroporto localizado 35 km do centro de Buenos Aires), com transmissão ao vivo, mas exclusiva da TV Pública. Estava previsto ainda o deslocamento da delegação até um palco montado perto do Obelisco, no centro portenho, que acabou cancelado – o que foi recebido com alívio por comerciantes e profissionais que trabalham nas imediações, em vista dos acontecimentos da noite anterior.

A presidente abraçou e beijou cada um dos integrantes do time e da comissão técnica, com especial atenção para o volante Mascherano. Fez questão de homenagear o goleiro Romero, um reserva alçado à condição de titular absoluto, e Higuaín: “¡Te rompieron lindo, querido!”, disse Cristina, sobre o choque do atacante com o goleiro alemão ocorrido na partida de domingo.

Recado dado

A presidente estava radiante, malgrado os resquícios de uma faringolaringite. Abriu a cerimônia agradecendo pela enésima vez, em nome da nação argentina, aos jogadores e deixou falar quem quisesse. Usaram da palavra o técnico Sabella e o capitão Messi. Cristina chamou ao microfone primeiro Mascherano, em seguida Romero, Lavezzi, Di Maria, Rodríguez e Demichellis. “Están más vivos que nunca, chicos”, disse ela.

Embora protocolar, o rápido discurso do técnico Alejandro Sabella suscitou um recado importante, assim como um gol de placa. Ele disse que os seus jogadores “deixaram a pele e a alma em cada jogada, em cada partida, em cada ação de jogo", e filosofou:  “A equipe é o outro”. Foi adiante:

“Falar de grupo significa falar de construções coletivas, que são muito mais importantes. A contribuição de cada indivíduo ao grupo é pensar, fundamentalmente, em dar – não em receber. Em dar ao outro para criar, nesse grupo de jogadores, um círculo virtuoso no qual cada um deles receba [algo] dos 22 restantes.”

Cristina fez gestos de plena aprovação e abriu um sorriso largo quando Mascherano sublinhou:

“Não pudemos trazer a Copa, mas deixamos valores para as pessoas, de como competir, de como fazê-lo, de uma maneira que, oxalá, marquemos um caminho que se possa seguir”.

Lições de hermanos.

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