Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

JORNAL DE DEBATES > MÍDIA & PRECONCEITO

Os estereótipos sobre a sexualidade da mulher de cor

Por Francisco Fernandes Ladeira em 29/07/2014 na edição 809

No inconsciente coletivo do brasileiro, a figura da mulher de cor está intrinsecamente associada à sexualidade. Desde o período escravista, passando pelas comemorações carnavalescas e chegando às telenovelas exibidas pela principal emissora do país, negras e mulatas geralmente são retratadas como pessoas que supostamente possuem a libido aflorada.

Segundo o historiador Paulo Prado, a sexualidade exacerbada é inerente ao povo brasileiro, pois basicamente dois motivos incentivaram a migração de portugueses para a colônia americana: cobiça e luxúria. Nesse sentido, a possibilidade de relações sexuais com negras ou indígenas e o possível enriquecimento fácil nas minas de ouro foram os principais motivos que fizeram milhares de homens solteiros cruzarem o Atlântico rumo ao Brasil.

No clássico Casa-Grande & Senzala, Gilberto Freyre assevera que não devemos buscar a verdadeira origem dos estereótipos sobre mulheres de cor em suas possíveis características libidinosas, mas nas aventuras extraconjugais dos senhores brancos. Para os donos de escravos, manter constantes relações sexuais com suas cativas, além de prazeroso, era vantajoso economicamente, pois, quanto maior o número de filhos que elas poderiam gerar, maior a reprodução de capital humano. Um preconceituoso ditado popular dizia que “a branca era pra casar, mulata para a cama e a negra para trabalhar”. Portanto, acusar negras e mulatas de apresentarem comportamentos promíscuos seria um pretexto para legitimar determinadas condutas moralmente condenáveis. Por sua vez, no livro A integração do negro na sociedade de classes, Florestan Fernandes destaca que boa parte da população negra convive com questões relacionadas à sexualidade desde a infância. Ao dividirem o mesmo cômodo com adultos, desde a mais tenra idade, inevitavelmente as crianças tinham contato com a intimidade afetiva dos pais.

Desafio para os setores progressistas

Por outro lado, os estereótipos relacionados à sexualidade da mulher de cor podem ser encontrados nos mais diversos âmbitos da sociedade brasileira. De acordo com o senso comum, negras são “mulheres quentes”. No carnaval, grande festa popular do país, a maior atração é o desfile de mulatas em seus trajes mínimos. Em nenhuma outra época do ano os estereótipos sobre as mulheres de cor se fazem tão presentes. Na música popular, inúmeras canções ressaltam os atributos físicos da mulher de cor. Durante a primeira metade do século passado, por exemplo, expressões como “mulata assanhada”, “morena sestrosa”, “vem cá, mulata” eram bastante comuns em composições de grande sucesso.

Entretanto, é na grande mídia brasileira, sobretudo na Rede Globo, que o estereótipo da mulher de cor associado à libido encontrou um terreno fértil para a sua propagação. Nas principais telenovelas, geralmente as atrizes negras interpretam a mulher de vida fácil, a “gostosona” ou a amante. Em 2004, a primeira trama protagonizada por uma atriz negra (Tais Araújo) trazia o tendencioso título de A Cor do Pecado (não é preciso fazer um longo exercício hermenêutico para constatar que o “pecado” em questão é a luxúria). Não obstante, o maior símbolo do carnaval da emissora da família Marinho é a “mulata Globeleza”, que costuma se apresentar de uma maneira extremamente sensual.

Já quando negras e mulatas decidem romper as barreiras da estigmatização e desempenham papéis para os quais não foram socialmente condicionadas, os preconceitos raciais, muitas vezes escamoteados pela hipocrisia cotidiana, tendem a aflorar. No concurso de Miss Brasil 1964, Vera Lúcia Couto, que concorria pelo então estado da Guanabara, sofreu inúmeras agressões verbais por ser negra. Para a racista sociedade brasileira da época, acostumada a imaginar mulheres de cor somente em situações relacionadas à sexualidade ou aos serviços domésticos, era inconcebível que uma afrodescendente pudesse participar do singelo mundo das misses.

Em suma, a sexualidade das mulheres de cor não é maior nem menor do que suas congêneres de outras etnias. A diferença está no fato de que negras e mulatas, por serem minorias duplamente oprimidas (em relação ao gênero e à raça), muitas vezes são impedidas de criar suas próprias identidades e estão mais vulneráveis à estigmatização. Evidentemente que em alguns casos elas acabam absorvendo determinados estereótipos. Todavia, um único exemplo de mulher de cor com conduta sexual moralmente condenável é o suficiente para generalizações. Ou seja, um único caso de afrodescendente que não se encaixe em nossos anacrônicos padrões cristãos de negação ao corpo é o suficiente para a “condenação moral” de todas. Portanto, reverter esse quadro racista é um importante desafio para os setores progressistas da sociedade de forma geral, e para negras e mulatas, em particular.

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Francisco Fernandes Ladeira é especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e professor de Geografia em Barbacena, MG

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