Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > MÍDIA & CULTURA

Bourdieu e os ‘gostos’ da ‘nova classe média’

Por Francisco Fernandes Ladeira em 05/08/2014 na edição 810

No livro A Distinção: uma crítica social da faculdade de juízo, o sociólogo francês Pierre Bourdieu assevera que a arte é um poderoso mecanismo de diferenciação social. Nesse sentido, fatores extra-econômicos (como frequentar bibliotecas, teatros e museus) são tão importantes quanto o rendimento monetário para que o indivíduo pertença a uma determinada classe. Segundo a ideologia burguesa, enquanto as classes altas teriam o “conhecimento necessário” (capital cultural) para “entender” a “grande arte”, para as classes baixas, “intelectualmente desfavorecidas”, restariam os produtos culturais populares. Portanto, conclui Bourdieu, o “bom gosto artístico” é um conceito criado pela elite para distinguir-se do povo. Enquanto os ricos teriam “gostos refinados” e seriam capazes de apreciar a bela arte, os pobres adotariam uma arte inferior, ou seja, teriam “mau gosto”. Para consumir determinado produto cultural, não basta apenas capital econômico, é preciso um conhecimento a priori (geralmente adquirido no seio familiar ou em instituições escolares).

Nessa “luta de classes simbólica”, uma das estratégias dos setores inferiores e intermediários da pirâmide social, ao ascender socialmente, é buscar agregar capital cultural à sua formação. Entretanto, essa realidade não se aplica à sociedade brasileira. Em nosso país, os indivíduos da chamada “nova classe média” (ou Classe C), limitam-se apenas a mimetizar o padrão de consumo dos setores mais abastados, ao invés de buscar melhorar sua formação intelectual, para assim poder “concorrer” com a elite no mercado de bens culturais. Desse modo, temos um enorme contingente populacional com relativo poder de compra, mas, paradoxalmente, extremamente vulnerável aos mecanismos persuasivos dos meios de comunicação de massa. Diante dessa realidade, não é por acaso que na sexagenária televisão brasileira predominem telenovelas, reality shows e programas de auditório de gosto duvidoso. Nesse sentido, o popularesco Esquenta, apresentado por Regina Casé, talvez seja o maior símbolo da Classe C na programação televisiva.

Pessoas ficam mais vulneráveis a padronizações

Em relação ao cenário musical, os membros da “nova classe média” consomem músicas descartáveis de estilos anódinos, como sertanejo universitário, funk carioca, axé e pagode. Não é por acaso que o sertanejo universitário e o funk ostentação (que ressaltam em suas letras o “carrão”, a roupa de grife e a balada da moda) são a trilha sonora desse segmento social extremamente consumista. As composições que fazem o repertório dos emergentes na pirâmide social têm basicamente os mesmos enredos: o sujeito era desprezado na época em que era pobre, mas passa a ser valorizado socialmente quando melhora sua condição econômica.

Ao contrário da tradicional classe média, grande parte dos membros da “nova classe média” não consome músicas e programas televisivos mais complexos, pois as pessoas de maneira geral tendem a não gostar daquilo que não conseguem compreender. A ausência de uma herança intelectual familiar sólida, os próprios desinteresses individuais em buscar conhecimento e a formação escolar comprometida (no péssimo sistema público de ensino e em faculdades particulares caça-níqueis) fazem com que a maioria desses indivíduos não tenha o poder de discernimento cultural necessário para fazer suas próprias escolhas e acabam assim absorvendo incondicionalmente tudo que lhes é imposto pelos meios de comunicação. Assim, parafraseando o pensamento de Bourdieu, inculcar na população brasileira o “mau gosto” é um importante mecanismo de alienação. Por sua vez, o filósofo alemão Theodor Adorno alertava que o efeito colateral da vertiginosa expansão dos meios de comunicação de massa seria o nivelamento cultural por baixo.

Segundo o supracitado Bourdieu, uma possível solução para esse impasse seria “universalizar o acesso ao universal”. Em outros termos, seria ensejar ao maior número de indivíduos os mecanismos intelectuais necessários para poder escolher de maneira autônoma entre os diferentes tipos de produtos culturais. Todavia, essa aspiração do sociólogo francês infelizmente está muito longe de se tornar realidade em nosso país. Parece que o passar dos anos deixa as pessoas mais alienadas e vulneráveis a padronizações. Como diria Zé Ramalho, na canção “Admirável Gado Novo”: “Vida de gado, povo marcado ê, povo feliz…”.

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Francisco Fernandes Ladeira é especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e professor de Geografia em Barbacena, MG

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