Terça-feira, 18 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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JORNAL DE DEBATES >

Entidade contradiz a própria história

Por Mário Augusto Jakobskind em 19/08/2014 na edição 812

Ao retornar de viagem ao Rio de Janeiro, depois de cerca de duas semanas de ausência, recebi telefonema da ABI com um recado transmitido pelo associado Wilson Carvalho em nome do diretor administrativo provisório, isto é, imposto por decisão judicial, Orpheu Santos Salles, comunicando que a diretoria decidiu me destituir da presidência da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da ABI, bem como me suspender por 60 dias.

Anteriormente, por outros motivos, a mesma diretoria havia imposto uma suspensão de 60 dias, posteriormente revogada pelo Conselho Deliberativo da ABI, órgão máximo da entidade.

O que decidiu a atual diretoria da ABI entra em choque com posicionamentos históricos da entidade em defesa da democracia e de respeito à opinião de conselheiros e associados.

A absurda decisão, comunicada por telefone e não, até agora, por escrito, deve-se ao fato de a Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos, em nota assinada pelo presidente e pelo segundo secretário Alcyr Cavalcanti, ter se posicionado em defesa da diretoria do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro.

Como se recorda, a diretoria estava sendo vítima de grupos golpistas que tentavam a sua destituição tendo como pretexto uma mentira publicada no jornal O Globo. A diretoria da ABI, em nota oficial firmada por Domingos Meireles, Jesus Chediak e pelo presidente provisório Tarcísio Holanda posicionou-se contra a diretoria sindical, tendo por base a mentira publicada no jornal mais vendido do Rio de Janeiro.

É lamentável que uma diretoria, mesmo sendo provisória e imposta pela Justiça, se posicione publicamente tendo por base a manipulação da informação e a mentira.

Representação legal

O jornal O Globo tinha “informado” a seus leitores que a diretoria do Sindicato carioca estava sendo questionada porque durante uma entrevista coletiva um grupo de jornalistas fora desrespeitado com o beneplácito da presidenta do sindicato, Paula Mairán. A ocorrência, ainda segundo o jornal, culminou com a expulsão de repórteres da sede do sindicato, responsabilizando inclusive a presidenta pelo fato.

Nada do que foi dito por O Globo aconteceu. Houve uma entrevista coletiva, convocada uma semana antes de fatos lamentáveis em que jornalistas foram agredidos na saída de presos na penitenciária de Bangu. A convocação tinha sido feita pelo Grupo Tortura Nunca Mais-RJ e Justiça Global para mostrar que prisões irregulares tinham sido decretadas pela justiça.

O Globo inventou então a história segundo a qual a diretoria tomou partido contra jornalistas na sede do Sindicato carioca. A diretoria da ABI, sem ouvir sequer a direção do Sindicato, posicionou-se em favor de um esquema golpista, executado pelo jornal e por um grupo de jornalistas que tinha concorrido na eleição sindical do ano passado e sofrido derrota. Em assembleia da categoria, o desejo do grupo de jornalistas derrotados na eleição sindical foi rejeitado por ampla maioria.

Como se não bastasse, a diretoria da ABI decidiu, sem sequer debater os argumentos constantes no relatório do mês de julho da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos em solidariedade ao Sindicato carioca, lançar nota desautorizando-a e agora suspendendo, por 60 dias, o Conselheiro que preside a Comissão.

Outros fatos servem para ilustrar a falta de democracia que vigora atualmente na ABI. Um dos exemplos é o que ocorre com o presidente provisório da entidade. Tarcísio Holanda, residente em Brasília, delegou poderes, por meio de uma procuração, para um associado representá-lo no Rio de Janeiro. Pelo estatuto da ABI, tal procedimento é impeditivo.

Qual a representação legal de uma diretoria provisória que tem um presidente ausente e que, em vez de agilizar as eleições como determinou a Justiça, resolveu rasgar o seu estatuto e dar as ordens de Brasília, onde é radicado, por procuração?

Qual a representação legal de uma diretoria provisória que cancela assembleias legitimas que usa o Jornal da ABI para fazer campanha, enquanto persegue conselheiros que se opõem a tais anomalias?

Tarcísio Holanda, algum tempo atrás, conforme consta em vídeo gravado, denunciou Domingos Meireles pela insidiosa campanha que promovia contra o então presidente da ABI Maurício Azedo, falecido em 25 de outubro de 2013. Agora, Holanda e Meireles estão de braços dados impondo decisões arbitrárias na ABI.

Eleições próximas

É importante que jornalistas e outros setores sociais sejam informados como age autoritariamente a atual diretoria da ABI, que está levando a entidade de 106 anos a desrespeitar a própria história de luta em favor dos valores democráticos.

A seguir agindo como tem feito a atual diretoria, as perspectivas da ABI são sombrias, porque uma entidade destinada a defender a democracia não pode exercer valores opostos e que remetem a tempos sombrios como foram os 21 anos de ditadura vigente no Brasil a partir de abril de 1964.

Resta aos associados da ABI fazerem a opção nas eleições de 25 e 26 de setembro próximos, ou seja, ou compactuam com o arbítrio representado pela atual diretoria imposta pela Justiça ou apoiam o restabelecimento da democracia na entidade que no último mês de abril completou 106 anos de existência. 

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Mário Augusto Jakobskind é jornalista

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