Domingo, 09 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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Hostilizados, jovens judeus europeus vão para Israel

Por Diogo Bercito em 19/08/2014 na edição 812

Marc Leiba, 31, colocou na balança durante o ano passado dois de seus traços de identidade: ser “francês” e ser “judeu”. Quando sentiu que a religião tinha mais peso, decidiu sair da França e imigrou a Israel, onde vive.

“Eu vi que ser judeu, que é uma coisa pessoal, me definia mais do que ser francês”, diz à Folha. “Saí da França porque acho que os judeus não têm futuro ali.”

A conclusão não é só dele. Leiba é um dos milhares de judeus que, diante do antissemitismo em ascensão, têm deixado o continente europeu e migrado para Israel.

O caso francês é agudo. No primeiro semestre de 2013, 811 judeus franceses fizeram a “aliyah” –imigração a Israel. No mesmo período deste ano, foram 2.831.

O conflito entre Israel e militantes da facção palestina Hamas motivou, na França, diversas manifestações contrárias ao governo israelense, respingando também na população judaica.

De acordo com Yonathan Arfi, vice-presidente da federação de judeus na França, oito sinagogas foram atacadas em Paris em julho, mês do início da operação militar Margem Protetora, em Gaza. “Pela primeira vez, tivemos gangues atacando sinagogas. Até então, esses crimes eram cometidos por indivíduos.”

Crescente

A tendência, diz Arfi, ganhou força nos anos 2000, quando já se pensava que o antissemitismo estava em rápido declínio na Europa, décadas depois do Holocausto.

O início da Segunda Intifada, revolta violenta de palestinos contra Israel, motivou ataques a sinagogas e judeus no continente. Em 2006, um garoto foi sequestrado e morto por ser judeu. Em 2012, um atirador matou quatro em uma escola judaica.

Arfi nota que, se no passado o antissemitismo era uma causa da direita europeia, o preconceito foi adotado também pela periferia. “As populações pobres consideram os judeus o rosto do sistema.”

A francesa Leah Stora, 24, que também imigrou a Israel, diz nunca ter sido alvo de antissemitismo. Ela se mudou por discordar da “atitude individualista” na França. “Eu nunca tive medo de andar nas ruas de Paris. Se você não é religioso, as pessoas nem sabem que você é judeu.” Mas Stora conta, também, que ouvia frases como “vocês, judeus, mataram Jesus”.

A comunidade judaica na França é numerosa –cerca de 600 mil–, e os que fazem a “aliyah” ainda são uma pequena parcela.

Coletivo

A Espanha, de onde judeus foram expulsos em 1492 por decreto real, tem atualmente uma pequena população judaica. Procurado pela Folha, o Ministério do Interior relatou apenas três incidentes antissemitas em 2013, incluídos pela primeira vez nesse ano como “crimes de ódio”.

Mas, de acordo com a federação judaica espanhola FCJE, “os preconceitos antigos seguem existindo e aumentando nos últimos anos, tomando novas formas”.

“Não temos um grande volume de ataques a pessoas ou propriedades”, diz a diretora Carolina Aisen, “mas há aumento do antissemitismo no âmbito educativo, especialmente universidades, e nos meios de comunicação.”

“Há um antissemitismo no inconsciente coletivo. É um profundo desprezo pelo judeu que se demonstra em expressões como “judiar” e em festas populares que tratam da difamação de judeus.”

Na Escócia, Jonathan Litewski, 26, arrecada dinheiro para financiar sua imigração a Israel. “Não aguento mais morar em Edimburgo.”

Litewski também reúne fundos para ir à Justiça contra sua recente demissão de uma loja de móveis. Ele diz ter sido dispensado por usar uma estrela de Davi no pescoço e ter contado à chefe seu plano de se juntar ao Exército israelense.

***

Cidades de nomes como ‘mata-judeus’ provocam polêmica

Preocupados com o avanço do antissemitismo e pressionados por organizações judaicas, governos europeus têm combatido a discriminação contra judeus também no mapa do continente.

A Espanha votou, em maio deste ano, para mudar o nome do pequeno vilarejo de Castrillo Matajudíos (“campo mata-judeus”) para Castrillo Mota de Judíos (“campo monte de judeus”).

A alteração foi um projeto do prefeito Lorenzo Rodríguez e devolveu à vila um nome semelhante ao seu original, Castrillo Motajudíos, que remonta ao século 11. “Mata-judeus” foi cunhado no século 17.

A França passa por processo semelhante. Uma organização judaica pressiona o governo para que troque o nome da vila de “La Mort aux Juifs”, traduzido como “morte aos judeus”.

De acordo com a agência de notícias AFP, houve uma tentativa de mudar o nome de La Mort aux Juifs em 1992, sem sucesso.

A comunidade local discorda que o termo, com origem no século 11, signifique que seus moradores sejam, realmente, antissemitas. (D.B.)

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Diogo Bercito, da Folha de S.Paulo, em Madri

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