Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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JORNAL DE DEBATES > ISRAEL x PALESTINA

Somos todos terroristas perante a verdade

Por Bruno Kruchin de Oliveira Lima em 19/08/2014 na edição 812

Durante a operação israelense em Gaza tive a sensação de que o fluxo de informações havia aumentado. Senti como se minha realidade estivesse sendo inundada por artigos de blogs, textos de jornais, reportagens de noticiários, entrevistas, depoimentos, vídeos, músicas, dados acadêmicos, números, discursos, análises, opiniões e mais e mais e mais. Senti que, apesar da dificuldade, deveria buscar objetividade em meio à avalanche de colocações subjetivas e visões parciais – de alguma forma, meu compromisso com a verdade deveria ser maior que os meus princípios políticos. Por diversas vezes, senti que para realizar essa tarefa não era suficiente ler diariamente o New York Times, o Washington Post, o Haaretz, o Ynet, a Al-Jazira e uma série de blogs. Da mesma forma, não bastava acompanhar em tempo real os noticiários israelenses e deixar o site da BBC aberto para qualquer verificação. O meu mestrado em Ciência Política já não me dava todas as respostas. A realidade exigia mais de mim, muito mais. A busca pela verdade parecia um objetivo impossível de ser alcançado, talvez até ingênuo de ser sonhado.

Não culpava as pessoas por diminuírem a importância da mídia israelense ao tratar de uma operação em Gaza, apesar de alguns argumentarem que somente em Israel pode-se entender verdadeiramente a situação – paradoxalmente, a fonte de autoridade parecia ser a mesma da parcialidade. Tampouco as culpava por trazerem informações que apenas os seus minúsculos círculos sociais utilizavam para “ler a realidade”. Não as culpava, pois sabia que a guerra de informações não era uma luta conjunta pela verdade, mas pela imposição de uma narrativa formada por um seleto número de fontes. A batalha não era pela contemplação da realidade e pela justiça dos fatos, mas pela imposição de uma ordem. No campo da psicologia política, chamamos esse fenômeno de “racionalização motivada” – o processo em que buscamos (e não descansamos até encontrarmos) as informações que melhor sustentam o nosso ponto de vista. A ideia é de que temos pré-disposições, motivações constituídas por valores e princípios que se consolidaram ao longo dos anos. Todos temos essas predisposições – elas são parte inerente do ser humano. A questão é que o entendimento da realidade requer a neutralização desses pré-conceitos e parcialidades, e esse processo é árduo e sacrificante. O “compreender a vida” exige de nós ganhar consciência das motivações que nos fazem ler um artigo e negligenciar outro. Somente assim a verdade tem uma chance.

Mas não sou ingênuo. Sei que estamos fadados a ler informações idênticas de forma distinta – não importa quão racionais e conscientes queiramos parecer, seguiremos com nossos erros sistemáticos e nossas naturais irracionalidades.

Ideia equivocada

Por exemplo, no jornal A lemos a seguinte notícia: “Na cidade de Rafah, localizada ao sul de Gaza, há 100 civis e todos são usados como escudo humano pelo Hamas. Em uma ofensiva do exército israelense, 30 desses civis foram mortos.” No jornal B, no entanto, lemos: “Na cidade de Rafah, localizada ao sul de Gaza, há 100 civis, todos usados como escudo humano pelo Hamas. Em um ataque realizado na região, o exército israelense evitou a morte de 70 desses civis.”

Os jornais A e B publicam a mesma notícia – factualmente idêntica. Sempre imaginei que nós, seres “iluminados” pela razão e pela lógica, nunca permitiríamos que um mero jogo de palavras nos faria entender a realidade de forma tão distinta. Doce ilusão. São os discursos que nos contam a história, queiramos ou não. No exemplo acima é inevitável que o leitor do jornal A seja mais crítico a Israel e condene o governo israelense pela morte dos civis. Não há nada de errado nessa postura – essa é a realidade que ele está lendo. Já o leitor do jornal B tenderá a assumir uma posição mais favorável a Israel, provavelmente justificando a morte dos civis. Tampouco há algo de errado nessa visão – essa foi a narrativa que lhe foi apresentada. Não me entenda mal. Não estou aqui explicando a origem do relativismo moral e dando justificativas para distorções. Minhas explicações se restringem ao campo psicológico e à forma pela qual lemos a realidade. Minhas análises também são frutos dos discursos em que estou imbuído e das predisposições que me inquietam na busca incessante por uma verdade objetiva.

Nessa guerra de informações, quem perde somos todos nós. Criamos regras para um jogo sem fim e sem propósito. Formamos exércitos ideológicos e nos armamos com as info-munições que temos acesso. Ninguém está salvo. Nessa batalha passamos a acreditar que estamos diante de um “jogo de soma zero” – ou ganho eu ou ganha você. Deixamos de lado a soberania da razão e nosso anseio por coexistência para enaltecer nossas emoções e alimentar nossos egos sedentos. Se ao menos soubéssemos que a neurociência e a psicologia já constataram que nossas decisões são tomadas seis segundos antes de ganharmos consciência delas; que antes desse processo de conscientização – racionalização ex post facto – essas decisões são tomadas intuitivamente, baseadas nas tais predisposições. Talvez dessa forma entenderíamos que a busca pela verdade exige a união de forças. Perceberíamos que nos tornamos terroristas cruéis quando trata-se da defesa dos nossos discursos e da imposição das nossas narrativas. Somos todos antidemocráticos perante a verdade.

Aliás, é interessante notar que o mesmo conceito de “jogo de soma zero” associado ao embate entre discursos, aplica-se ao conflito em Gaza. O governo israelense e o Hamas constroem seus discursos com base na ideia equivocada de que haverá apenas um vencedor. Observe os dados abaixo e perceba você mesmo quão deturpada é essa perspectiva.

Processo de moderação

A operação já custou aos cofres israelenses cerca de 10 bilhões de dólares, fora os prejuízos que ainda serão sentidos. O Hamas conseguiu fazer com que os embaixadores de Brasil, Chile, Peru, Equador e El Salvador fossem chamados para consultas, causando, no mínimo, um desconforto diplomático. O Hamas conseguiu estremecer as relações entre Israel e seu maior aliado, os Estados Unidos, ao condicionar o secretário de estado americano, John Kerry, a apresentar uma proposta de cessar-fogo estrategicamente desfavorável a Israel. O Hamas praticamente fechou o aeroporto internacional Ben-Gurion por dois dias e fez com que companhias aéreas europeias diminuíssem o fluxo de voos de e para Israel. Não apenas pelo simbolismo político de ter a sua porta de entrada fechada, essa conquista tem sérios efeitos econômicos – diretos e indiretos.

O Hamas conseguiu manter um dos exércitos mais fortes e sofisticados do mundo em uma operação militar por mais de um mês. Durante a operação, o Hamas conseguiu manter seus lideres completamente imunes aos ataques israelenses. As táticas de guerrilha utilizadas pelo Hamas demonstram a vulnerabilidade dos valores ocidentais e a problemática condição geográfica de Israel diante do terrorismo. A operação militar permitiu que o mundo conhecesse a realidade de Gaza pelos olhos do Hamas, dando margem à deslegitimização do bloqueio à região e criando uma imagem negativa a toda e qualquer ação israelense. O Hamas conseguiu evidenciar quão desfavorável é a opinião pública internacional a Israel e, de certa forma, fomentou o antissemitismo no mundo.

Israel será investigado por crimes de guerra pela Comissão dos Direitos Humanos da ONU.

Basta. Chega de pontos negativos referentes à operação militar. Os defensores incondicionais de Israel começarão a ficar incomodados com a verdade. É hora dos críticos “sofrerem” um pouco. Israel, Egito, Jordânia, Autoridade Palestina e Liga Árabe nunca tiveram interesses tão alinhados, criando uma oportunidade política única para retomada das negociações. Israel tem a possibilidade de impor suas condições em um ambiente mais “amigável”.

A operação militar foi capaz de mostrar ao mundo a verdadeira face do Hamas. Apesar da opinião pública ser negativa a Israel, as pesquisas apontam que as táticas utilizadas pelo grupo terrorista lhes tira a legitimidade política que este almeja estabelecer. Israel conseguiu expor o sistema financeiro do terrorismo, revelando o Qatar como um patrocinador importante da luta armada. Essas transações monetárias já não passarão imunes. Israel fez um investimento de milhões de dólares evaporar. Há quem argumente que a operação acarretará no estrangulamento econômico do terrorismo e na necessidade de patrocinar o braço político do Hamas. Dessa forma, avalia-se que o movimento passará por um processo de moderação similar ao do Fatah.

Nada disso é verdade

O exército israelense conseguiu destruir uma grande parte da infraestrutura terrorista em Gaza e neutralizou a ameaça dos túneis. Israel conseguiu isolar diplomaticamente o Hamas no mundo árabe. Mesmo os flertes de Nasrallah e o cortejo iraniano já não são mais suficientes para sustentar politicamente o movimento. Apesar dos conflitos diplomáticos que ocorreram ao longo da operação, Israel obteve um amplo apoio dos líderes ocidentais, principalmente no início.

Acho que já é suficiente para os defensores incondicionais de Israel saciarem a sede de vingança retórica. Não tem nada a ver com a verdade, apenas com a vitória discursiva. Aliás, não tem nada a ver com Gaza, civis, justiça e paz, apenas com quem ganha o debate oral. É uma pena. Nessa batalha facebookiana já não interessa saber que 46% da população de Gaza acredita que não há vencedores nessa operação militar. Já não é mais relevante considerar que 92% dos habitantes de Gaza são a favor de um cessar-fogo, 64% afirmam que investimentos em infraestrutura são preferíveis a restauração do poder bélico e que 72% querem paz. De fato, já não interessa saber que após 30 dias de uma justificável operação militar, 34% da população israelense não se sente nem mais nem menos segura, que 51% acredita não haver vencedores nessa guerra e que 53% afirma ser necessário fortalecer Mahmoud Abbas. Nada disso interessa. Aliás, nada disso é verdade. O problema é que também não é mentira.

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Bruno Kruchin de Oliveira Lima é mestre em Ciência Política

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