Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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JORNAL DE DEBATES > RIO => SINDICATO EM CRISE

Uma polêmica – ou ‘tudo que é sólido desmancha no ar’

Por Carol Barreto em 19/08/2014 na edição 812

Na quinta-feira (7/08), participei de plenária convocada pela diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro. O objetivo do espaço era esclarecer a categoria a respeito do que aconteceu na coletiva com as famílias dos ativistas presos por formação de quadrilha armada na véspera da final da Copa do Mundo. Afinal de contas, diferente do que foi noticiado nos veículos das Organizações Globo – com a honrosa exceção da GloboNews –, nenhum jornalista foi expulso da coletiva ou agredido. Além disso, a presidente do sindicato condenou o tempo todo ao longo da coletiva as agressões a jornalistas, particularmente as perpetradas por ativistas na véspera, em Gericinó. Eu estive presente ao espaço e foi isso que vi. Também foi isso que foi noticiado por vários veículos que estão longe de ser de esquerda, como o Estado de S.Paulo, por exemplo, mas que fizeram aquilo que a sociedade espera deles: bom jornalismo, ancorado no compromisso com a narrativa dos fatos.

Em que pese o fato de que, na minha opinião, o sindicato não tenha cometido nenhum erro naquela ocasião, sua diretoria achou por bem apresentar à categoria uma autocrítica. Nas palavras da presidente Paula Máiran, “em função da agressão a jornalistas que ocorreu na véspera na porta do presídio de Gericinó, deveríamos ter repensado a realização da atividade, que foi contaminada pelos acontecimentos do dia anterior. Não o fizemos, e por isso pedimos desculpas à categoria”. O sindicato fez sua autocrítica. Já as Organizações Globo, que mentiram descaradamente sobre o que ocorreu na coletiva com os familiares dos ativistas… talvez daqui a 50 anos, né? Quem sabe…

A autocrítica feita não foi capaz de refrear os ânimos dos que exigiam a renúncia da diretoria eleita. O jornalista Fernando Molica se dirigiu ao plenário para informar a todos que aquela diretoria já havia acabado. Na argumentação esgrimida, o centro de sua tese era a ideia de que a condenação às agressões a jornalistas por parte da diretoria mudava dependendo de quem as havia cometido: quando a violência partia da polícia, o tom era firme, mas quando vinha de manifestantes, o sindicato abrandava a crítica.

Na tentativa de comprovar sua tese com um exemplo prático, Molica chegou a ler trechos de duas notas lançadas pelo sindicato após a morte do repórter cinematográfico Santiago Andrade: uma, logo após a ocorrência do fato, quando ainda não se sabia quem havia disparado aquele fatídico rojão, e outra depois de descobertos os autores do disparo. Outro exemplo citado por ele foi o fato de o sindicato ter ido a uma audiência pública com a OEA denunciar apenas as agressões a jornalistas que partiam da polícia, deixando assim de fora da denúncia os black blocs.

Espetáculo de ousadia

Diante disso, fiz da minha intervenção um espaço de diálogo com a do colunista do jornal O Dia. Comecei afirmando que, no que tange ao episódio que resultou na morte de Santiago, as notas publicadas pelo sindicato apresentavam diferenças de tom porque não era possível, num primeiro momento, apontar culpados. Isto não cabia ao sindicato… “Quem acusa sem provas, como, aliás, já foi feito aqui hoje mesmo, faz mau jornalismo, coisa que o sindicato não faz, e por isso me representa”, eu disse. E segui sustentando a tese de que há razões para a diferença no tratamento dado às agressões que partem de policiais e às que partem de ativistas. A primeira delas talvez seja o próprio fato de que, segundo todos os levantamentos feitos até agora, desde junho do ano passado, mais de 70% das agressões a jornalistas durante manifestações partiram da polícia. Desse modo, parece natural que seja mais condenado aquele tipo de agressão que mais se repete. A segunda é a de que existe, de fato, uma diferença qualitativa entre as agressões que partem da polícia e as que são perpetradas por ativistas: no chamado Estado democrático de direito em que dizem que vivemos, o papel do Estado e, consequentemente, da polícia, é proteger os cidadãos, e não agredi-los. Partindo desse pressuposto, a violência policial é muito mais grave, o que piora ainda mais se levarmos em consideração que, além de tudo, a polícia tem armas – pagas pelo dinheiro dos nossos impostos.

Eu acho muito grave ser obrigada a financiar a violência da polícia contra mim mesma – sim, é isto que todos nós fazemos hoje por meio do pagamento de impostos. Enquanto isso, as “armas” dos manifestantes… quando existem, como no caso do rojão que matou Santiago, são bem menos sofisticadas e foram financiadas com recursos próprios. Por fim, demonstrei ser descabida a queixa de que o sindicato não denunciou a violência dos black blocs na audiência da OEA. Ora, a Organização dos Estados Americanos trata somente, por razões a meu ver bastante óbvias e até autoexplicativas, das agressões cometidas por forças a serviço de Estados nacionais. É este o papel dela, de maneira que cobrar que o sindicato fizesse qualquer denúncia diferente naquela ocasião não faz o menor sentido.

“Mas quem é essa pirralha para falar assim com o Fernando Molica? É muita ousadia…” Segundo alguns colegas que estavam sentados perto do grupo que exigia a renúncia da diretoria do sindicato, foi mais ou menos essa a reação à minha fala. A esse respeito, em primeiro lugar devo dizer que fico lisonjeada com o adjetivo “pirralha”. Logo eu, que já estou chegando perto dos 30 e, como quase todas as mulheres dessa idade, já começo a me achar meio velha… Bom saber que os outros não acham! Em segundo lugar… sim, talvez eu seja ousada. No entanto, a ousadia é o espírito do nosso tempo. O que foi junho do ano passado senão um grande espetáculo de ousadia?

Jornalismo sem edição

De repente, da noite para o dia, as pessoas saíram às ruas em massa, ousando questionar governos, megaeventos esportivos, partidos políticos, a polícia militar e – o que talvez doa profundamente a muitos jornalistas por aí – a própria mídia. Sim, a crise de representatividade pegou a todos. E quem não repensar de maneira autocrítica a sua atividade… corre o risco de ficar em maus lençóis.

É lógico que é muito ruim que jornalistas apanhem no exercício de sua atividade profissional. Ruim e inócuo para os objetivos de quem bate, já que o jornalista é um trabalhador muitas vezes sem grande influência sobre a linha editorial do veículo em que trabalha. No entanto, muito pior ainda é o descrédito social em que o jornalismo tradicional parece ter caído – e que, em muitos casos, fez por merecer. O que as ruas estão nos dizendo – embora de maneira torta, muitas vezes – é que a sociedade está farta do mau jornalismo que muitas vezes fazemos.

Um jornalismo que julga e condena, muitas vezes sem provas, extrapolando assim a sua função, que é a de narrar os fatos, como bem lembrou uma das falas na plenária convocada pelo sindicato. Um jornalismo de abutres, que destrói reputações de maneira irresponsável. Um jornalismo sensacionalista, muitas vezes mais interessado em vender jornal do que no impacto social do que é publicado. Um jornalismo que pratica sistematicamente grandes doses de violência simbólica… principalmente contra a população mais pobre, mas também contra aqueles que ousam tentar modificar o status quo. Um jornalismo que criminaliza a pobreza e os movimentos sociais. Um jornalismo que vive de meias-verdades e, por conseguinte, também de meias-mentiras. Tudo isso é mau jornalismo.

Embora seja inadmissível a agressão a jornalistas em exercício profissional – e assim deva ser condenada –, esta poderia ser uma excelente oportunidade para repensarmos o que estamos fazendo e o que a sociedade espera de nós. Isto antes que a sociedade não espere mais nada e caiamos completamente no descrédito. Como bem dito no excelente texto do Sidney Rezende, os jornalistas precisam reaprender a ouvir (ver aqui). Enquanto os trabalhadores de grandes veículos de comunicação apanham ou são vaiados nas manifestações, os midiativistas – que muitas vezes não fazem parte do seleto grupo dos “jornalistas profissionais” – são aplaudidos. Por que será que isso acontece? Na minha modesta opinião, porque as pessoas não querem mais ser editadas por nós. Perderam a confiança, e com certa razão. Elas olham para a Mídia Ninja e veem ali um jornalismo sem edição – muito embora todo recorte da realidade seja uma escolha e, portanto, uma forma de edição.

Este texto é dedicado aos ousados

As grandes redações perderam o monopólio da representação da realidade – e que bom que é assim. Com o advento do avanço tecnológico e das redes sociais, creio ser esta uma tendência irreversível. E isto, pelo que senti em alguns colegas na plenária do sindicato, na realidade é o que mais dói – muito mais do que qualquer porrada física. De agora em diante, e cada vez mais, nossa atividade estará sempre em xeque. Seremos questionados o tempo todo: por pirralhos, por gente ousada, por gente diferenciada… Como diria a grande pensadora contemporânea Valesca Popozuda, é melhor aceitar que dói menos. Ninguém passará incólume ao espírito do tempo… nem mesmo o Fernando Molica, devo dizer às suas fãs de plenário. Como diria o velho barbudo – muito antes da existência do Facebook ou da Mídia Ninja –, no nosso mundo “tudo que é sólido desmancha no ar”. Esta é uma boa hora para nos despirmos da nossa arrogância e soberba. Nós estamos na berlinda.

O que acontece nesses dias, muito mais do que uma crise do sindicato dos jornalistas, é uma crise do fazer jornalístico. É este o pano-de-fundo do que estamos vendo. As contradições saltam aos olhos… Os jornalistas que se dizem contra a violência e exigem a renúncia da diretoria do sindicato foram os mesmos que, ao se sentirem contrariados por argumentos na plenária da semana passada, quase partiram para as vias de fato – o que só não se consumou provavelmente graças à presença de seguranças da Emerj. Talvez porque o espaço para o contraditório esteja faltando, inclusive na prática profissional deles. Os que dizem que o sindicato não dialoga excluem sumariamente de grupos de Facebook quem pensa diferente, como está acontecendo no famigerado “Jornalistas RJ”. Tempos difíceis… Como se faz para se desfiliar dessa categoria? Brinks. A tarefa do momento é ficar e tentar superar as dificuldades.

E superar as dificuldades é algo que só faremos juntos. A quem interessa a divisão da categoria? Certamente aos patrões, que, aliás, têm feito de tudo para acirrá-la ainda mais. Será mesmo que a maior ameaça a nós são os black blocs? E as demissões de centenas de profissionais experientes das grandes redações? E o assédio moral? E o desrespeito às leis trabalhistas? Não são ameaças maiores? Mais do que nunca, é preciso estarmos juntos para enfrentá-las. Críticas ao sindicato há e haverá, e que bom que é assim. A atual diretoria, por sua vez, já mostrou que não tem nenhuma vergonha de fazer autocrítica quando é necessário. O que ficou muito claro na plenária de quinta é que, apesar das críticas – que existem e são legítimas – a maioria não quer a renúncia da atual diretoria. Então, nos cabe fortalecer o sindicato, construindo as diversas comissões que surgiram do debate da plenária. Inclusive a comissão de segurança, aberta a todos, que se reúne na quinta às 19h na sede do Sindjor. Estarei de folga na redação para participar. Somos todos jornalistas, e todos temos a mesma importância: os que trabalham na mídia privada, na comunicação pública, nas assessorias de imprensa, nos sindicatos, nas ONGs… precisamos de todo mundo! Partiu?

Este texto é nada mais do que uma contribuição ao debate. Não tenho nenhuma pretensão à unanimidade. Está aí para questionar, mas também para ser questionado. Fiquem à vontade. Aliás, o dedico aos ousados. Sirvam-se…

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Carol Barreto é jornalista da TV Brasil

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