Sábado, 23 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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JORNAL DE DEBATES > CRÍTICA & ATIVISMO

O fundamento moral da crítica da mídia

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 26/08/2014 na edição 813

A crítica das mídias e dos canais de informação não pode ser confundida com ativismo de mídia – seja ele de qualquer matiz política ou ideológica. Este pode utilizar qualquer plataforma, dentro ou fora da web, para ir além da crítica e propor novos instrumentos midiáticos que estão situados fora do universo do jornalismo histórico. Entre ativismo e crítica de mídia existem pontos em comum e frentes de atrito que distinguem a crítica que busca manter a coerência e credibilidade da imprensa tradicional da militância oriunda do ativismo de mídia que aposta em novas formas de produção de notícias. O ativismo de mídia apresenta uma tendência de ruptura com o jornalismo dos grandes oligopólios da imprensa.

A crítica da imprensa institucionalizada é orientada por normas e ordenamentos que dialogam, interpelam e muitas vezes contestam o jornalismo. Mas sempre dentro de seus marcos. Seu objetivo é aperfeiçoar a atividade jornalística e ao mesmo tempo ampliar a capacidade e a qualidade da produção da profissão e seus profissionais em todas as formas e expressões da imprensa. A crítica de mídia que conhecemos no Brasil não pretende investir contra a profissão, nem torná-la outra coisa que não seja jornalismo.

O artigo do professor Luís Carlos Lopes, apresentado no Núcleo de Pesquisa de Jornalismo da Intercom em 2001, ofereceu uma das poucas expressões compreensivas dos limites da crítica da mídia brasileira. Lopes escreveu uma avaliação responsável e profunda da crítica jornalística que se afirmava.

“Quando a imprensa pensa a imprensa”, ensinou o acadêmico, “o que possivelmente ocorre é que o esquema empresarial supostamente desaparece, pelo menos em tese, e se dá um maior espaço ao jornalista-escritor, por exemplo, para externar opiniões. Mas, de modo geral, a tendência é que se reproduzam as representações habituais, decerto um pouco mais despojadas, mas mantidas no essencial.”

Condutas e interpretações convencionais

Prevalece a primazia da forma de apresentação e do modo de produção de um determinado produto jornalístico sobre a narrativa linear dos fatos da imprensa do dia a dia. O enquadramento (enfoque) é mais importante do que a sequência de fatos que foram informados pela mídia através de qualquer um de seus meios. Lopes explicou que qualquer artefato de imprensa que relate a cena de um determinado momento histórico também traz consigo um sistema de crenças e valores oriundos de uma “natureza moral compartilhada” pela comunidade que vive a imprensa como meio de vida. Esse discurso moral inserido na notícia reelaborada pela crítica torna a informação mais precisa que os meios convencionais de informação, concluiu o professor.

Ele também apontou limites e oportunidades para o pensamento crítico da imprensa, fosse ele elaborado por pesquisadores acadêmicos, jornalistas ou comentaristas independentes da mídia:

“Trata-se da febre da nova versão, do furo do furo, da reelaboração da notícia, reconstruída com mais palavras e com sentido moralizador. A expansão desse gênero de comunicação só pode ser explicável pela sua aceitação social. Não teria o espaço que tem, sem que houvesse o respaldo que encontra, mesmo ou até porque não causa qualquer fratura mais profunda.”

O parágrafo acima é de suma importância e permanece atual depois de 13 anos. O autor busca demonstrar que a crítica da mídia atua de forma circular, dialogando com um público de alto nível de escolaridade e boas condições materiais de vida. Ela não é capaz nem pretende provocar dano estrutural ao jornalismo. Fato, e merece atualização: apesar da maioria dos leitores de crítica de mídia apresentar alto perfil educacional, observa-se a cada dia o aumento da presença de comentaristas e leitores de crítica de imprensa sem graduação universitária. A crítica da mídia ampliou o número de seus leitores entre vários segmentos da população através do poder de disseminação de ideias das redes sociais associado à atuação de movimentos cívicos e políticos de base popular.

Isso ficou bem claro depois dos protestos iniciados em junho de 2013 no Brasil. O papel e as posições assumidas pela imprensa tradicional foram questionados por gente de quase todos os extratos sociais do país. A insatisfação com a imprensa ficou nítida quando surgiram as primeiras reportagens sobre a onda de protesto que envolveu o país. A informação na mídia social parecia avançar e a tradicional vacilava. A maior parte da mídia ateve-se a seus credos editoriais, condutas e interpretações convencionais para conflitos e manifestações urbanas. Que não correspondiam aos fatos que realmente estavam a acontecer nas ruas. E o povo viu que a imprensa tem sua agenda como nunca tinha visto antes na história do periodismo informativo deste país.

Imprensa alternativa e ativismo midiático

Segundo o estudo do professor Lopes, os jornalistas trabalham em um regime de “liberdade vigiada”. Sua autonomia é limitada pelas posições editoriais que os profissionais da imprensa devem seguir. Notícias são elaboradas e editadas em redações hierarquizadas que exercem forte coerção sobre quem produz e o que é produzido dentro delas. A imprensa histórica tem compromissos com os interesses corporativos e comerciais que ela deve acolher e isso compromete sua credibilidade aos olhos da crítica e do público.

A falta de alternativas para a mídia moderna e seus vícios adquiridos ao longo da História em toda parte estão ensaiando mudanças em duas direções principais: uma delas dentro do terreno próprio ao jornalismo tradicional e outra fora dele, na mídia alternativa, liberta das sombras do preconceito corporativo pela web. A sociedade pede mais do que a imprensa oferece em seus diários, revistas, jornais de TV e outras formas corriqueiras da imprensa. Por isso, a adesão aos projetos de mídia alternativa que contestam o jornalismo corporativo vem ganhando terreno entre o público que consome notícias. Isto é mais visível na imprensa dos Estados Unidos.

Na imprensa norte-americana, a crítica da mídia absorve elementos comuns ao ativismo da mídia em sites e ambientes sociais de contestação do sistema tradicional de produção de notícias no mundo capitalista. Pode parecer contraditório, mas a História, como a política, cria parcerias conflitantes e inesperadas. A tendência pragmática norte-americana deságua em uma variedade de sites de crítica à mídia que representam quase todas as tendências políticas e culturais do país.

Ela engloba sites conservadores, sempre em guarda contra as propostas mais liberais de imprensa, associações de pais preocupados com o conteúdo que seus filhos andam a assistir na TV, e sites radicais que pregam a transformação da sociedade capitalista e seus meios de comunicação. A crítica de mídia americana acomoda a presença da imprensa alternativa e do ativismo midiático, junto com veículos que acreditam no aperfeiçoamento do jornalismo através de mudanças incrementais graduais nas práticas de imprensa cotidiana tradicional.

Pensar a mídia

O guia de publicações World Newspapers apresenta uma lista de sites e associações de crítica de mídia que mostra a diversidade do panorama da mídia que reflete sobre si mesma nos Estados Unidos. O cenário apresentado é bem variado: o Accuracy in Media é um vigilante conservador da direita republicana, sempre em guarda contra “ideias preconcebidas” propagadas por democratas; já o ZNet é uma comunidade da esquerda engajada em mudança social; o site Common Sense Media é um ajudante de pais e famílias preocupadas com o conteúdo exibido na TV; o Center for Media and Democracy enfoca abusos nas campanhas de marketing e publicidade, o lobby empresarial dentro da mídia, e utiliza o jornalismo investigativo para coibir e denunciar abusos de imprensa e elevar o nível de consciência do público sobre o poder das políticas públicas, da liberdade de expressão e da colaboração cidadã.

Existem também respeitáveis organizações de nome consagrado na sociedade americana voltadas para a reflexão crítica da mídia, como a Columbia Journalism Review, que pretende mudanças no jornalismo dentro do universo das crenças e valores dominantes no periodismo convencional. Dentro da mesma proposta encontramos o Nieman Watchdog (agora renomeado Nieman Reports), ligado à Universidade de Harvard, que almeja cobrir as brechas e omissões da imprensa para o público e estudantes do jornalismo crítico.

Todas as publicações que pensam a imprensa em perspectiva crítica o fazem dentro de uma estrutura de valores e de uma moral comum, assegurou o professor Lopes em seu estudo. Mesmo o discurso das entidades que fazem ativismo de mídia não seria sustentável sem o aporte de uma estrutura compartilhada de ordenamentos consensuais de origem ética e moral. Não poderia ser diferente: pensar a mídia é comparar, atribuir valores, fazer julgamentos e medir consequências e responsabilidades da ação da imprensa em todas as suas expressões e manifestações.

Abusos e omissões

O atual paradigma da “imprensa que pensa a imprensa”, em suas publicações mais populares e consagradas pelos profissionais da mídia, faz uso da crítica para contribuir para o aperfeiçoamento da imprensa dentro do campo tradicional de atuação dos seus profissionais. Mesmo quando estimulam a contribuição dos leitores de forma mais ativa, na forma de artigos enviados e comentários publicados por leitores, sua meta é orientar a profissão e o público consumidor de notícias. Por isso a crítica das mídias e seus mais fortes e notórios defensores não pretendem rupturas com a prática jornalística vigente.

O ativismo na mídia oferece ao público a oportunidade de testar as hipóteses trazidas pelos órgãos críticos da mídia que se situam dentro dos marcos da profissão. Assim como a crítica que não pretende ou sugere rupturas radicais com nosso modo histórico de produzir notícia, os propositores de novas práticas de informação através do ativismo midiático também exercem um papel complementar à mídia tradicional. Mesmo quando pretendem o rompimento com o modo de produção hegemônico e com sistemas de valores e ordenamentos sociais consensuais compartilhados pela sociedade democrática.

A mídia engajada e ativista, apesar do incentivo à ação popular direta ou indireta, também faz parte do mesmo movimento circular de uma cultura compartilhada por profissionais e pesquisadores: dialoga com um público informado que partilha uma cultura comum de combate aos abusos e omissões presentes na mídia contemporânea. Fazer parte deste mundo de crítica e análise do comportamento da imprensa é um exercício moral do qual a mídia e seus agentes não podem fugir.

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Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor

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