Terça-feira, 20 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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O declínio da autoridade

Por Mauro Malin em 09/09/2014 na edição 815

Dois tipos de poder entraram em xeque, de forma articulada, neste momento histórico: o do autor (de texto, livro etc.) e o da autoridade (pessoa ou instituição que comanda). Não por acaso, as duas palavras se originam do mesmo étimo latino, auctor.

A forma imutável, atributo do texto manuscrito ou impresso (isso inclui toda sorte de erros, dos mais inocentes aos mais grotescos), foi subvertida pelos programas de edição digital – e com ela, definitivamente, a emissão da mensagem “de um para muitos”.

(Esse “um” é sempre coletivo, mesmo quando se trata da única cópia de um manuscrito, a menos que o autor seja o artífice do instrumento de escrita e do suporte; panfleto, livro, missal envolvem técnicas que mobilizam uma cadeia de produtores, para não falar das tecnologias de telégrafo, cinema, rádio e televisão, listados aqui em ordem cronológica de invenção.)

Batalha das ideias

A autoria foi subvertida porque os novos usos da escrita e da leitura mudam as mentes de seus usuários. Pode-se afirmar que essa subversão também afeta profundamente as formas de exercício do poder, se aceitarmos, com Manuel Castells, que “a batalha fundamental pelo poder se produz em nossas mentes” (vídeo da apresentação do livro Comunicación y poder), ou seja, a persuasão é mais decisiva do que a coerção.

Viajemos desde a leitura da Bíblia para analfabetos, pelo oficiante da missa cristã, até a produção de textos em blogues e redes sociais, passando pelo momento decisivo anterior, a invenção dos tipos móveis por Gutenberg, datável de 1455, quando ficou pronto o primeiro livro feito com essa técnica de impressão. Até o final do século 15, 20 milhões de exemplares de livros foram impressos na Europa, que não tinha mais do que 70 a 80 milhões de habitantes.

Como escreveu James Gleick em A informação – Uma história, uma teoria, uma enxurrada, “cada novo suporte transforma a natureza do pensamento humano”. Para concordar com Castells e com Gleick, basta pensar nas dificuldades atuais do ensino público, apartado da realidade tecnológica das vidas privadas de alunos e professores.

O homem criador

Impossível separar o livro moderno, que chega à Europa no fim da Idade Média, do abandono do mundo pelo Deus cristão, ou vice-versa: o livro é instrumento do desencantamento do mundo. “O humanismo renascentista enfatiza o poder da atividade humana. É o começo da libertação de uma concepção teocêntrica do mundo e da espécie humana”, diz o professor Roberto González Echevarría numa aula em Yale sobre o Dom Quixote.

Esse processo de libertação está em curso e possivelmente ainda não passou do começo. Não atingiu, por exemplo, sincera ou fingidamente, nenhum dos candidatos à Presidência do Brasil em 2014. Vai demorar. Mas há poucos séculos, ou décadas, dependendo do país, era impossível ler alguma proclamação de ateísmo num artigo de jornal (Espanha e Portugal são dois exemplos do segundo caso). Hoje, no Brasil, é fato (ou feito) quase diário.

Ruptura dentro da ruptura

Essa longa introdução nos traz à conjuntura atual do país.

As ruas de junho de 2013 foram uma ruptura política brasileira dentro do processo planetário de ruptura decorrente do advento da internet. A presidente Dilma Rousseff, personagem imposta ao PT e ao establishment político do país pelo então presidente Lula, tentou dialogar com o movimento, espontâneo e desordenado, mas esbarrou em dois obstáculos decisivos.

O primeiro foi que nenhum governo poderia aplacar uma insatisfação decorrente de tão ampla e persistente gama de desigualdades e injustiça social como a que marca a ferro a sociedade brasileira. O segundo é sua própria personalidade, tendente a esconder insegurança sob o véu do mandonismo. Dilma não veio ao mundo para representar o teatro do diálogo.

O movimento de 2013 não tinha, diferentemente da passeata dos Cem Mil de 1968, nada parecido com um comando minimamente unificável. Temeu-se a dispersão pura e simples de tanta energia. Adeptos da violência revolucionária e desordeiros violentos (o que se costumava chamar de lumpesinato), em articulação subjetiva entre si e objetiva com forças policiais, afastaram as massas das manifestações. Um ano depois, sindicatos e outras entidades voltaram às ruas, mas agora já não se tratava da expressão de um escopo amplo – “Desculpe o transtorno, estamos reformando o país” – e sim de reivindicações profissionais específicas.

No entanto, o impulso que levou à rebelião das ruas, longamente nutrido, não foi refreado. Assim como os meios de comunicação, em especial a mídia jornalística, tiveram sua vida alterada para sempre, gradualmente, pela internet (e mais ainda pela mobilidade), a política no Brasil sofreu um tranco fortíssimo. A trajetória de Marina Silva, a única que aumentou seu cacife depois das ruas de junho/2013, é a prova. Ganhe ela ou não a eleição, a mudança foi colossal.

Cobertura canhestra

A cobertura da atual campanha eleitoral revela que a mídia jornalística do país não entendeu isso e segue ainda a cartilha dos marqueteiros e mandachuvas de campanhas, baseada em ataques mais ou menos sórdidos, declarações e factoides. A mídia jornalística é o papagaio das campanhas. Novidades, só na divulgação de pesquisas de opinião, elas mesmas ferramentas políticas manipuláveis e manipuladas.

A Justiça Eleitoral rege um espetáculo ridículo, sem se dar conta de que nada pode ser mais mortal para a participação política do que a tentativa, compartilhada por quase todo o espectro político, de fazer o cidadão de bobo.

A tarefa de uma mídia inteligente seria buscar uma descrição de políticas públicas consensuais – ou das diferentes propostas acreditadas em instâncias competentes, como universidades, centros de pesquisa, ONGs sérias –, comparar esse ideal com o que foi efetivamente realizado e apresentar as diferentes ideias de continuidade, aprofundamento ou correção. Educação, saúde, saneamento básico, reforma das instituições e da política, cultura, mobilidade urbana, segurança pública e assim por diante. Avaliar permanentemente o exercício do poder e suas premissas. Ajudar cada cidadão a buscar, como escreveu Marco Aurélio Nogueira no título de um livro, um Estado a serviço da sociedade.

O processo de escolha de parlamentares continua quase totalmente ignorado, enquanto se discute, com frequência, o esgotamento do “presidencialismo de coalizão”.

Haverá sempre a desculpa de que as redações estão desfalcadas, os salários são baixos etc. Mas o fator fundamental que inibe essa ambição é a falta de visão política dos donos dos meios de comunicação e dos editores. E o despreparo das equipes para a tarefa.

A essência da política

O advento da internet já provocou uma ruptura na maneira como se exercem três atividades sociais inseparáveis – a política, o poder e a comunicação –, mas não modificou ainda, com a radicalidade que será visível em algum momento do futuro próximo, as estruturas que as canalizam.

Deixemos política e poder a cargo dos especialistas, embora não seja necessário ter diploma de nenhuma natureza para entender que o Brasil, para falar do território habitado pelo leitor, livrou-se desde junho de 2013 de um pesado manto de imobilismo cuidadosamente cultivado pelo duopólio de poder estabelecido por forças políticas oriundas da luta pela derrota da ditadura de 1964, com uma decisiva e interessada ajuda de forças econômicas e sociais capazes de se acomodar ao regime democrático sem perder a proeminência que tiveram no regime anterior. E, é claro, com a participação incessante, onipresente, dos meios de comunicação.

Sabendo, insista-se, que a separação entre as três partes só existe como exercício analítico (Perry Anderson, piauí, número 95, “Berlusconização da política“: “… a comunicação não é mais um instrumento da política, mas sua essência”), tratemos apenas da comunicação e da informação.

Interatividade ignorada

Pode-se supor que existe contradição inarredável entre jornalismo impresso e online, mas o que na verdade existe é uma conexão essencial, tão arraigada quanto, por exemplo, a que liga a palavra escrita à palavra falada. Assim como houve conexão visceral entre o impresso e o manuscrito: o impresso mimetizou o manuscrito. Não se inventou uma nova escrita, como não se a inventou agora, para uso na internet, apesar de adaptações infanto-juvenis e solecismos generalizados.

(Seria tremenda injustiça atribuir apenas aos jovens e – involuntariamente – pouco letrados usuários da internet a prática de solecismos. Nos jornais diários eles agridem o leitor com uma frequência assombrosa. Folha de S.Paulo, 4 de setembro, página A4: “A estabilização das intenções de voto em Marina foram apuradas após alguns dias…”; Valor, mesma data, página A10: “… 79% dos pesquisados são contra a liberação da maconha e do aborto, 80 é a favor da redução da maioridade penal e 53% condenam o casamento entre…”; O Estado de S. Paulo, mesma data, título da página A7: “Governador do PT exalta candidatas de luta social” – ???)

Nenhum meio de comunicação existente quando do surgimento da internet conseguiu incorporar a interatividade que esta proporciona. O Observatório da Imprensa online conseguiu, porque nasceu na própria rede. Em maio de 1997, oito meses após ter se tornado periódico, já era possível fazer um balanço da participação dos leitores, responsáveis por 40% de todo o texto (rolar até “O.I., uma voz da consciência na fronteira tecnológica”).

Limites da qualidade

A maneira como a jornalista argentina Graciela Mochkofsky trabalhou em seu livro Estação terminal – viajar e morrer como animais (rolar até “Como animais”) chama a atenção para as limitações do modelo de jornalismo vigente. O livro-reportagem de Graciela é da estirpe dos melhores que podem ser feitos. Incorpora qualidades notáveis de apuração e de narrativa. Mostra implacavelmente diferentes fatores que conduziram ao acidente.

Ao concluir sua leitura, um desdobramento da indignação consiste em pensar no que poderia ter sido feito para evitar a tragédia. E então se é levado a pensar que uma rede de colaboradores cidadãos, usando meios digitais, pode impedir a progressão de descalabros, pode ser usada, por intermédio de uma redação jornalística – que produza para impressoras ou para computadores –, na mobilização de protestos que constranjam administradores, servidores relapsos, aproveitadores, vigaristas, ladrões.

Nessa chave, o jornal deixa de apenas descrever, quase sempre o que já aconteceu, e passa a ser uma ferramenta de ação política, em política pública e política tout court. Explicitamente, como tudo deve ser feito em jornalismo. A serviço de setores da sociedade agregados pela vivência comum de problemas, ou da sociedade toda, não apenas dos poderosos.

O problema não é do business model. É do modelo político da mídia jornalística (sempre e intimamente entrelaçada ao entretenimento).

Apoiar cidadãos

Discutiu-se mais uma vez, nesta campanha, se jornais devem explicitar seu apoio a candidatos. Esse tema pode estar superado. Ao colocá-lo em tela, não se questiona o processo de seleção de candidaturas, quase totalmente viciado pelo financiamento das campanhas.

O candidato de um grande partido não é aquele que seus correligionários consagram, que tem bom trânsito político, projeção pública, capacidade de captar votos, é antes de mais nada alguém que depende da simpatia ou tolerância dos grandes financiadores de sua candidatura.

Muito mais e melhor do que dizer que, em seus espaços de opinião, o veículo apoia esse ou aquele indivíduo, daqui para frente, para ter sucesso, jornais e revistas terão de abandonar a postura falsa da objetividade e tomar posição. Não necessariamente partidária, embora inevitavelmente ideológica, mas posição sobretudo em relação a políticas públicas, ao funcionamento do governo e à vida do povo.

Até aqui, o jornalismo tem se limitado a narrar sucessos e fracassos dos governos, após o acontecido, gerando munição para ataques de adversários e “fogo amigo”, com o que se desdobra a mesma pauta, mas agora focada na ficção punitiva. A punição quase nunca vem; a boa reputação quase nunca volta. Além de denúncias, veiculam-se planos, sonhos, promessas e lorotas.

Daqui em diante, com a colaboração dos cidadãos, ligados em rede pela internet, a mídia jornalística deverá acompanhar cada passo das obras e da prestação de serviços públicos. Daí poderá nascer um business model.

Ninja: bom caminho

Uma experiência importante é a da Mídia Ninja (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação), que difunde relatos em tempo real de indivíduos participantes de atos públicos. Não encontrou o caminho do jornalismo, que é o filtro profissional das narrativas, e sua independência foi questionada devido às ligações com o coletivo Fora do Eixo e deste com governos das esferas federal, estadual e municipal. Mas começou a explorar uma trilha fecunda.

Os ninjas do novo modelo poderão ser os passageiros do transporte público, os alunos, professores e pais, os usuários da saúde pública, os moradores das cidades e de suas “periferias”, as vítimas das duas modalidades de crime organizado – a dos bandidos e a da polícia –, os cidadãos que lidam com a burocracia etc.

A possibilidade de sucesso dessa modalidade de colaboração é atestada pelos serviços que o Disque-Denúncia presta no Rio de Janeiro, em São Paulo e alhures – usando a centenária tecnologia do telefone.

MPL acertou

Quem acertou em cheio, como movimento social, foram o MPL (Movimento Passe Livre) e, recentemente, o MTST (Movimento dos Trabalhadores sem Teto) – substituto, em relevância, num país quase totalmente urbanizado, do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). O grande êxito do MPL e do MTST repousa, em boa parte, na sua opção por ações focadas em políticas públicas específicas – transportes e moradia.

Esses movimentos impuseram suas pautas à cobertura acomodada da mídia jornalística. Ao MPL cabem os louros históricos de ter sido o gatilho dos protestos de junho e julho de 2013, depois de dez anos de insistência na mesma reivindicação, desde a Revolta do Buzu, em Salvador.

Contextos específicos

Um alerta é indispensável, nesta trilha de raciocínio. É preciso ter em mente que todas as generalizações feitas a respeito do funcionamento da internet são necessariamente enganosas. Não existe uma “internet única universal”. A internet sempre se situa em determinados contextos, sempre é apropriada por grupos nacionais (língua, vocabulário, sintaxe), sociais (“povão”, intelectuais, crianças, adolescentes, homens e mulheres em plena trajetória profissional, idosos – que parecem ter encontrado no Facebook o seu recanto provisoriamente ideal –, estruturas políticas, militantes, governos, crime organizado, prostitutas, religiões etc.) e regionais.

Especificamente, o jornalismo brasileiro na internet nasceu nas redações das mídias impressas e eletrônicas. Muito mais nas das primeiras: jornais e revistas têm uma longa tradição de receber e publicar cartas dos leitores (uma seleção delas). Emissoras de televisão buscam conhecer seu público mediante pesquisas de opinião quantitativas e qualitativas, embora recebam também grande volume de correspondência.

Em outras palavras, por incrível que pareça, ou não, jornais e revistas são mais suscetíveis à interação, essa palavra muito repetida e pouco analisada. A televisão no Brasil, país de povo historicamente analfabeto, fez tal sucesso que se instalou muito confortavelmente na posição de “emissor de um para muitos”. O rádio, nos locais onde a telefonia fixa havia alcançado um patamar mínimo de disseminação, foi muito mais aberto à participação do ouvinte. Com o celular, muitíssimo mais. Exemplo bem conhecido é o das informações sobre o pesadelo do trânsito nas grandes cidades do país. Mas não há periódico impresso que não tenha, e desde há muito, uma seção de cartas dos leitores. Até o Granma, de Fidel e Raúl, tem (veja aqui).

Honra às redações

Entretanto, o modo de funcionamento de qualquer tipo de redação atual é uma narrativa relevante para construir as futuras redações. É dela que se partirá. Um dia, o modo de pensar, receber e usar a notícia, a informação, a análise, será muito diferente do atual, mas ele terá uma raiz, e ela conterá, esperemos, elementos essenciais da democracia.

Um número suficiente de experiências desatinadas de exploração do admirável mundo novo digital mostra que os erros mais elementares são cometidos em nome da inovação, ou, talvez mais propriamente, da novidade. Ou nem isso: cortam-se os laços com práticas sólidas do passado demitindo jornalistas veteranos, que têm salários maiores.

O mundo não é uma maravilha com as redações que nele existem, mas seria calamitoso sem elas, porque nelas sempre existe pelo menos um resíduo de humanismo, de concepção democrática, busca da liberdade, uma resistência contra a barbárie, ainda que a direção, os donos, ou chefes, queiram pura truculência. Só fascistas (e stalinistas) montaram redações sem qualquer diversidade.

Essa é uma das razões pelas quais se torna altamente recomendável conhecer o modo de funcionamento das atuais redações, descrevê-lo adequadamente. Há nelas muito que aprender. E elas correm o risco de desaparecer, em prazo destrutivamente curto, levadas pela miopia empresarial e política.

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