Segunda-feira, 20 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1037
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Agora é guerra

Por Lúcio Flávio Pinto em 23/09/2014 na edição 817

A campanha eleitoral deste ano, polarizada através dos dois grupos que monopolizam a comunicação no Pará, se transformou numa guerra aberta. Por isso o senador Jader Barbalho deixou sua posição defensiva e atacou os Maiorana. O tema: corrupção e desvio de dinheiro público.

A mais recente batalha na guerra que os Barbalho e os Maiorana estão travando, agravada pelas suas opções na campanha eleitoral, começou quando O Liberal anunciou na semana passada na sua manchete de primeira página: “Jader é vinculado a lobistas do caso de propina na Petrobrás”.

Acrescentou no subtítulo que o nome do senador do PMDB “foi citado em matéria da revista ‘Época’ sobre o homem-bomba Paulo Roberto Costa”. Em sua edição nº 827, a revista, em reportagem de capa, “afirma que Jorge Luz, lobista muito ligado a um genro do ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa, ‘construiu boas relações com chefes do PMDB e do PT. No PMDB, é próximo do senador Jader Barbalho’. CPI Mista pedirá para ter acesso às delações de Costa”. Além de chamada na primeira página, a matéria ocupou a capa do caderno Poder.

Só em uma nota na coluna “Repórter 70” o jornal dos Maiorana fez referência à data da edição da revista, que é da primeira semana de abril. Nas demais matérias citou apenas o número da edição, 827. O objetivo era claro: sugerir ao leitor que a denúncia é mais recente do que foi. Ela seria da leva mais recente de sujeiras que o ex-diretor da estatal despejou desde que aceitou a promessa da delação premiada para dizer tudo o que sabe (se é mesmo que vai dizer) para ter a pena reduzida, caso a justiça o condene.

Sem o esclarecimento sobre a data exata da matéria ficaria mais fácil relacioná-la às últimas revelações escabrosas sobre corrupção com dinheiro desviado da Petrobrás.

É este o trecho da reportagem de Época no qual o nome do senador Jader Barbalho foi citado:

“Jorge Luz é um dos mais antigos lobistas da Petrobras. No governo Lula, construiu boas relações com chefes do PMDB e do PT. No PMDB, é próximo do senador Jader Barbalho e do empresário Álvaro Jucá, irmão do senador Romero Jucá, dono de uma empresa que tem contratos na Petrobras. Também tinha boas relações com o presidente do Senado, Renan Calheiros. No PT, é ligado ao deputado Cândido Vaccarez­za, um dos expoentes da ala conhecida como ‘PMDB do PT’, que inclui os deputados André Vargas, José Mentor e Vander Loubet – um grupo que ainda tem influência na Petrobras, por meio de indicações políticas na BR Distribuidora, subsidiária da empresa. O que todos esses políticos têm em comum? O medo de uma CPI da Petrobras. Por isso atuam energicamente para derrubá-la”.

De abril para cá, passados cinco meses, apareceram Romero Jucá, Renan Calheiros e Cândido Vazzareza, junto com outros personagens ilustres, como o ministro Edison Lobão e até o governador Eduardo Campos, que morreu recentemente, quando era candidato à presidência da república. Todos teriam sido citados pelo “homem-bomba” como beneficiários do desvio ilícito de dinheiro das contas da Petrobrás, segundo revelação feita há duas semanas por outra revista, a Veja. Jader, não. Ao menos até agora.

É de se supor que ou Paulo Roberto Costa o esteja protegendo, ou realmente o esquema que ele comandava não repassou dinheiro para Jader; ou então as investigações do Ministério Público e da Polícia Federal ainda não chegaram ao político paraense.

Jader é realmente ligado a Jorge Luz, como diversos políticos no Estado, o governador Simão Jatene, conforme denunciou o senador, automaticamente admitindo que conhece o personagem e sabe das suas evoluções pelos bastidores do poder público. Luz, lobista de envergadura nacional e muito eficiente na sua atividade, circulou em Belém para tratar de negócios variados, sempre ligados a obras públicas ou atos governamentais.

Não é impossível que tenha favorecido o líder do PMDB local, como a outros parlamentares e até chefes do poder executivo. O principal dos quais pode ter sido Carlos Santos, quando ocupou o governo do Estado por nove meses, depois que Jader renunciou para disputar a eleição, em 1986.

Suspeitas há, mas provas dessa ligação, não. Muito menos, até este momento das revelações a respeito do que foi investigado sobre a compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, e a construção da refinaria Abreu e Lima (o que devia ser homenagem está virando ofensa à memória do grande general), em Pernambuco.

O estardalhaço, as afirmações e a omissão na abordagem de O Liberal mostram a que ponto o aproveitamento político e eleitoral dos fatos chegou e aonde ainda poderá descer. Faz parte da temporada, embora a imprensa devesse se esforçar mais para ser objetiva e competente (algo já fora de propósito entre nós).

Ainda que com tais distorções, a sociedade quer que a apuração desse escândalo seja aprofundada ao máximo, ao fundo do poço, se possível. A tradição nesses casos é haver muito barulho e muito menos realizações, até que a desmemoria nacional favoreça a impunidade. Mas há um caminho através do qual poderá emergir a verdade: os movimentos de entra-e-sai de dinheiro de dentro do país para o exterior.

Um caso envolvendo a Petrobrás ficou famoso quase duas décadas atrás quando a diretoria da estatal ajuizou ação de indenização contra o jornalista Paulo Francis em Nova York. O pedido foi recebido e posto para andar, com a celeridade do ritmo do direito anglo-saxônico. Tão certeiro que o valor atribuído à ação teria sido uma das causas do enfarte fulminante que matou Francis.

Agora, basta que um órgão competente faça o mesmo. Só que no sentido inverso: agora os dirigentes da Petrobrás (e quem mais estiver envolvido na espantosa falcatrua com dinheiro público) é que devem ser levados às barras dos tribunais internacionais, seja nos Estados Unidos como na Europa, por onde giraram centenas de milhões de dólares arrancados dos cofres da estatal.

Pistas há várias. Mas agora já um elo concreto para levar o escândalo da Petrobrás para a justiça americana, onde a investigação poderá ser mais rápida e eficaz do que no Brasil, conforme os casos de corrupção e desvio de dinheiro público têm demonstrado. A imprensa denunciou na semana passada que o banco americano Merrill Lynch ajudou o doleiro Alberto Youssef, talvez o maior intermediário de dinheiro ilícito do país, a trazer para o Brasil 3,5 milhões de dólares que ele tinha nos Estados Unidos.

A internação do dinheiro foi feita em 2008, através de uma operação simulada. Quem deu a informação foi o “laranja” do doleiro, Carlos Alberto Pereira da Costa. Esse advogado foi preso junto com Youssef em março deste ano pela Operação Lava Jato da Polícia Federal, sob acusação de integrar uma quadrilha que teria atuado na lavagem da impressionante soma de 10 bilhões de reais.

A simulação foi necessária para disfarçar a falta de origem do dinheiro do doleiro. Youssef depositou US$ 3,5 milhões no Merrill Lynch em Nova York e o banco abriu uma linha de crédito para uma empresa controlada pelo doleiro, a GFD Investimentos, de acordo com o delator. O valor correspondia a R$ 7 milhões.

O banco americano, de acordo com matéria da Folha de S.Paulo, “não aceitava que o dinheiro simplesmente passasse por uma conta, o que caracterizaria uma operação suspeita e seria investigada por órgãos que atuam contra lavagem de dinheiro”. Ameaçado de quebrar em função da crise financeira nos Estados Unidos, o Merrill Lynch foi vendido ao Bank of America em setembro de 2008.

Outra denúncia grave do advogado foi que o fundo de pensão da Petrobras, o Petros, investiu R$ 13 milhões numa empresa controlada pelo deputado José Janene (do PP do Paraná), graças a propinas pagas a diretores da entidade, que controla um dos principais fundos de investimento do Brasil. Um dos subornados seria Humberto Pires. Janene foi dos principais personagens em vários enredos sujos entrelaçados, mas acabou sem ser punido: morreu em 2010.

O esquema de propinas, de desvio de dinheiro e de aplicações viciadas funcionava segundo um modelo que também se aplica ao escândalo do mensalão, que tinha como agentes financeiros o Banco Rural e o BMG (beneficiado pelo empréstimo consignado no serviço público federal). Pereira Costa disse no seu depoimento que “vários deputados” passavam pelo escritório de Youssef para pegar dinheiro. “Entravam pessoas com dinheiro e saíam pessoas com dinheiro. Era um banco de lavagem de dinheiro”.

Se essas informações continuarem a jorrar, como acontece agora, talvez, finalmente, o Brasil consiga reconstituir a rota de entrada e saída ilegal do país, em torrentes de causar espanto a qualquer mafioso. Envolvendo na apuração os setores competentes americanos e europeus, talvez as teias das aranhas que tecem suas fortunas ilícitas à custa do tesouro nacional sejam reconstituídas. E destruídas.

 

O lobista de todos

Para surpresa de muita gente, Jader deixou a sombra, aonde vinha se mantendo ao tempo, e se apresentou para duelar com seus principais inimigos, o governador Simão Jatene e o grupo Liberal, mesmo diante de um tema que lhe tem sido perigoso: corrupção e desvio de dinheiro público.

Em revide à matéria do dia anterior do jornal dos Maiorana, que o associava a um lobista do escândalo da Petrobrás, ele deu entrevista ao seu próprio jornal, o Diário do Pará, e recebeu tratamento nobre: manchete de capa e toda uma página interna na edição.

Sobre a acusação, Jader foi sumário: negou qualquer relacionamento com Jorge Luz e devolveu a acusação a Jatene, dizendo que os tucanos “negociaram com este lobista o contrato na Cosanpa de prestação de consultoria”. Não apresentou provas.

Recordou também que Jatene é réu em processo que tramita há 10 anos no Superior Tribunal de Justiça, em Brasília, por corrupção ativa e passiva. O governador e três auxiliares foram denunciados, com base em investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal do Trabalho, como beneficiários de doações ilegais feitas pela Cerpasa.

A empresa teria transferido 12,5 milhões de reais entre 2000 e 2004 para intermediários do governo, na administração Almir Gabriel (quando Jatene era o principal dos secretários de Estado) e do próprio Jatene. Em troca, a fábrica de cerveja teria conseguido perdão para uma dívida de R$ 47 milhões e a prorrogação dos seus benefícios fiscais, com a redução de 95% no ICMS devido.

O senador foi rebuscar também a origem da fortuna da família dos Maiorana, que lhes proporcionou um império de comunicação, fortalecido pela afiliação à Rede Globo de Televisão. O fundador do grupo, Romulo Maiorana, atuou como contrabandista entre os anos 1950 e 1960, incluindo armas no seu negócio, o que acabou por atrair a atenção dos órgãos de segurança, que o ficharam e assim o mantiveram sob vigilância e controle.

Jader disse que, fundado na contravenção penal, o grupo Liberal se costumou “a fazer extorsão, não só de governos, mas de empresas e pessoas”. Quando contrariado, reage atacando os desafetos, mesmo que eles digam a verdade: “O pai trazia armas e outros objetos. Os filhos se aperfeiçoaram tanto que trazem jatinho de contrabando dos Estados Unidos”, afirma o senador.

Quando o contrabando foi descoberto e o jatinho apreendido, O Liberal pressionou a responsável pelo caso atacando seu marido, um dos donos de uma empresa de construção, a Freire Mello. Mas a funcionária da Receita Federal resistiu, manteve o auto e recebeu a solidariedade pública dos seus colegas de todo país.

Jader alegou que é combatido pelos Maiorana “porque talvez tenha sido o único governador paraense que não se curvou à prepotência e não se entregou aos interesses, nem abriu os cofres e liberou verbas bilionárias do Estado em publicidade a esse grupo de marginais”.

É verdade: ele não subiu ao gabinete do dono de O Liberal para o tradicional beija-mão de subserviência. Mas não deixou de fazer operação de troca de espaço nos veículos dos Maiorana com verbas publicitárias oficiais, mesmo depois de ser combatido violentamente pelo grupo na eleição de 1990. Não foi apenas pelo dever legal de não discriminar quem é incluído na mídia oficial: foi esquema político mesmo.

 

A mais violenta

Com essa troca mais agressiva de acusações, a campanha eleitoral para o governo no Pará se tornou a mais violenta em todo país. Talvez o fator que mais contribui para fazê-la chegar a esse extremo seja o comportamento dos dois principais grupos de comunicação do Estado. Eles se transformaram em autênticos palanques para os candidatos que apoiam. O grupo RBA desfralda a bandeira de um dos seus donos, Helder Barbalho, do PMDB (em coligação com o PT) e o grupo Liberal faz de tudo para desgastar o inimigo e favorecer a candidatura à reeleição do governador Simão Jatene, do PSDB.

É única, no Brasil, essa polarização do Estado entre dois grupos rivais de comunicação que se partidarizaram por completo. É um retorno, no Pará, ao período plebiscitário (dos anos 1930 até metade da década de 60), durante o qual a sociedade se partiu ao meio: quem não era a favor do caudilho Magalhães Barata era seu inimigo, o que acendia e agravava as paixões, os ódios e a violência.

Com o detalhe irônico atual de que tanto o grupo RBA, afiliado à Rede Bandeirantes, quanto o Liberal, que integra a Rede Globo, têm a mesma origem no “baratismo” do passado, em versão adaptada e piorada. O fundador do grupo Liberal, Romulo Maiorana, se casou com uma sobrinha do caudilho, crescendo sob sua proteção. E o dono do grupo RBA, o senador Jader Barbalho, é filho do político que foi um dos principais líderes baratistas, Laércio Barbalho.

Na imprensa nacional já se tornou uma tendência os veículos de comunicação assumirem publicamente o apoio a algum dos candidatos, tendo o cuidado, porém, de fazer essa opção de forma explícita, em editorial. Apesar dessa posição, os órgãos da imprensa procuram manter o noticiário jornalístico isento e objetivo, ainda que continuem a motivar críticas e suspeitas quanto ao rigor dessa independência.

No Pará, o que tem havido é o engrossamento da filiação partidária dos dois principais grupos de comunicação, incluindo o noticiário do dia a dia, cada vez mais contaminado pela adesão dos seus donos a uma das duas candidaturas com possibilidades reais de vitória. Este é outro componente da singularidade do caso paraense: não há uma terceira via para o eleitor.

Os dois principais candidatos ao governo, Jatene e Barbalho, possuem alto índice de rejeição, o primeiro surpreendendo por ter um percentual ainda maior do que o do maior líder do PMDB no Estado, do qual essa reação transborda para o filho. O problema é que os demais candidatos estão abaixo da faixa dos 3% e, em conjunto, não chegam ao dobro desse valor. O que leva à consequência natural: a elevada proporção dos que continuam indecisos, não sabem em quem votar ou pretendem anular seu voto.

Essa conjuntura indica que a disputa será acirrada e que o segundo turno, a ser disputado entre Jatene e Helder, ainda não está definido, dificilmente terá favorito e a diferença favorável ao vencedor será mínima, se um dos dois não conseguir atrair os eleitores recalcitrantes ou não apontar fato gravoso para lançar sobre o concorrente.

Com essa perspectiva, o que podia ser uma campanha eleitoral convencional está se tornando uma guerra aberta, que fica ainda vez mais selvagem porque os veículos de comunicação à disposição dos principais pretendes ao cargo de governador estão dispostos a tudo: seja para que seu candidato vença como, por extensão, poderem contar com as verbas publicitárias (e, se possível, também os famosos “recursos não contabilizados”) que têm irrigado seus caixas particulares.

Com os últimos ataques do grupo Liberal e a resposta de hoje de Jader Barbalho, apresentando-se agora à arena de luta, é de se prever que o nível dos ataques e das ofensas continue a cair, sem limite de chegada.

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Lúcio Flávio Pinto é jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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