Quinta-feira, 19 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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JORNAL DE DEBATES >

Ideologia e parcialidade na imprensa

Por Alex Contin em 07/09/2014 na edição 819

A imprensa conquistou a liberdade de expressão a duras penas depois do Ato Institucional nº 5. Hoje nenhum veículo precisa recorrer às receitas de bolo ou aos versos de Camões para preencher um espaço que ficaria em branco depois do crivo da censura do Estado. Isso é fato. Contudo, enquanto a liberdade aflorava a parcialidade e o subjetivismo extremo a acompanhava. O que se pode esperar de uma cobertura das eleições 2014 de veículos que apoiam incondicionalmente um ou outro partido político, uma ideologia neoliberalista e se esquece daqueles preceitos básicos do jornalismo ou das outras ideologias que ainda têm espaço da economia, na política e na sociedade?

Antonio Gramsci identifica a imprensa como um partido político. Perseu Abramo defende que ela manipula seu público devido aos interesses financeiros que a empresa tem. É possível até ligá-la a um aparelho de dominação do Estado de Louis Althusser. Independente destas características, definições e acusações, a imprensa é e deve ser livre. Contudo, até que ponto podem ser tão livres assim a coberturas jornalísticas que cada veículo faz?

Não parece ser errado que aquele jornal ou esta televisão apoiem a candidatura deste ou daquele partido ou candidato à Presidência. O Estado de S.Paulo foi claro, no domingo (5/10), no apoio à eleição de Aécio Neves (PSDB). Com a bandeira da “hora da razão”, o jornal deu as justificativas para se votar neste candidato e acabar com o “lulopetismo” que sua redação tanto combate. Aceitável? Sim, são livres e não há nada que os impeça de se transformarem em um meio de divulgação da ideologia daquele partido.

Porém, como é possível confiar na credibilidade do jornal sendo que: (1) eles só deram espaço durante as coberturas aos três primeiros colocados nas pesquisas de intenções de voto?; (2) como podemos nos assegurar que o tratamento dos escândalos do PT têm o mesmo peso que os do PSDB?; (3) e na parte econômica, como podemos acreditar no tal “pessimismo dos empresários”, que o jornal tanto divulga, quando o conjunto das edições é uma campanha de desmoralização do governo petista?

Negativo e positivo

Há, sem dúvida, problemas na estrutura tributária brasileira que desestimulam os investimentos privados. Os impostos que incidem em cascata são o exemplo mais claro disso. Contudo, após a edição do Estadão daquele domingo fica a dúvida: este pessimismo é realmente justificável? E quem instaura o pessimismo nos empresários: a situação econômica ou a imprensa? Há algumas informações que podem colocar a cobertura do jornal sob suspeita.

A primeira é demográfica: São Paulo é o centro dinâmico do país. Ali estão as principais empresas do Brasil ou então as sedes dessas grandes empresas. Portanto, é neste estado que está a “nata do capitalismo brasileiro”. Essa nata do capitalismo, defensores tanto da indústria quanto, principalmente, do agronegócio, são neoliberais. Acreditam fortemente que a participação do Estado na economia deve ser mínima. Sem subsídios, sem incentivos, sem o Estado de bem-estar social – como disse Marilena Chauí em uma de suas palestras, o neoliberalismo foi uma desconstrução de todo aparato social que o Estado construiu ao longo de décadas para amparar a classe pobre e os trabalhadores.

Outra informação vem do resultado deste primeiro turno das eleições. Em São Paulo foi reeleito Geraldo Alckimin (PSDB), com 57,31% dos votos – por mais que grande parte dos professores reclamem da situação da Educação; e que a mídia saiba que há ainda a aprovação automática que leva vários alunos a mal saberem interpretar um texto no Ensino Médio. Aécio Neves (PSDB) teve 44,22% dos votos no estado. Não que esses números representem que esta é a parcela da população ligada ao capital, mas representam, como muito sabem, que São Paulo é um reduto deste partido.

Há entre veículos de comunicação e seus leitores um “contrato de leitura”, defendido por Maia (2002). Se estes veículos se antecipam aos seus leitores, conceito de Orlandi (2006), e entregam ao público o que eles querem ler nas páginas dos jornais, fica evidente a relação entre os resultados das urnas e a cobertura que faz a grande mídia, especialmente o Estadão. Porém, até que ponto há esta antecipação e este contrato? Não estariam os jornais negando ser um espelho da sociedade, por mais que esta teoria seja controversa, e, em lugar disso, estariam pautando esta sociedade, inserindo nela a ideologia que acreditam ser a melhor para a sociedade brasileira?

Se a resposta é sim ou talvez, o problema deste fato é que falta, e muito, a pluralidade de vozes. Acima disso: falta o comprometimento do jornalismo com a cobertura imparcial. Não é possível ler o jornal e acreditar que haverá denúncias de corrupção do PSDB com a mesma cara, peso e tom concedidos aos casos do PT. Uma evidência disso também é a capa do Estadão do mesmo domingo (5/10): foram publicadas fotos dos três principais candidatos à Presidência da República e a chamada de cada um deles mostra o tom que cada partido recebe. Na foto de Aécio “Fôlego no final”; na de Marina, “Do sonho à realidade”; já na de Dilma “Tática de desconstrução”. Só por estas chamadas é visível os tons positivos e negativo que o jornal dá a cada um dos candidatos. Isso tudo sem insistir na velha crítica: foram só três candidatos. O caderno especial sobre as eleições de 2014 sequer faz um perfil dos demais candidatos no mesmo tamanho e destaque que fez para os “três principais”.

Menos leitores

Agora ficam os questionamentos: como é possível dar a devida credibilidade a um jornal tão grande sabendo que são “cinco pesos e uma medida”, mas quem estabelece essa medida (o jornal) não a faz de maneira justa e igual? Não há problema em um jornal querer apoiar o PSDB, como fez o Estadão, e uma revista o PT, como a CartaCapital. O problema está em como cada um deles induz seus leitores a acreditarem que sua visão é a melhor dentre todas sem propor um debate amplo e dar espaço a todas as vozes dissonantes em relação à sua ideologia. Quem perde com isso é o público e a democracia brasileira.

Somos livres para ler qualquer veículo de comunicação, mas como é possível usar essa justificativa em um país onde o número de leitores decresce a cada ano? Isso sem contar com o número de analfabetos funcionais em São Paulo. Sendo assim, em quem confiar?

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Alex Contin é jornalista, mestrando em Divulgação Científica e Cultural (Labjor/Unicamp) e graduando em Ciências Econômicas (IE/Unicamp)

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