Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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JORNAL DE DEBATES >

O que diz a mídia internacional sobre os candidatos

Por Luiza Olmedo em 14/10/2014 na edição 820

Nas atuais fervorosas discussões entre eleitores e militantes de ambos os partidos que agora se encararão para decidir as eleições no segundo turno no Brasil, é comum encontrarmos argumentos sobre a tal da “mídia internacional”, que seria reduto de uma verdade maior, baseada em uma distancia saudável dos acontecimentos. Entretanto, na realidade, os diferentes veículos internacionais estão longe de apresentar uma visão homogênea da realidade eleitoral brasileira, e frequentemente desenvolvem pontos de vista particulares, por vezes maniqueístas, exaltando ou denegrindo um ou outro candidato.

Assim, fizemos uma pequena compilação daquilo que se têm falado sobre o assunto em alguns importantes jornais internacionais, para saber como essas redes de notícias têm interpretado o cenário brasileiro e como a imagem dos candidatos têm circulado pelo mundo. Vale ressaltar que as opiniões demonstradas pelos meios de comunicação não coincidem necessariamente com a visão dos governos dos respectivos países a respeito de Dilma e Aécio, por vezes esta é exatamente oposta. Mesmo assim, são as perspectivas repassadas para milhões leitores, em âmbito global, que têm pouco acesso à realidade eleitoral brasileira.

O jornal inglês The Guardian dá mais destaque ao lado positivo do governo Dilma Rousseff, inclusive no âmbito econômico, apresentando os dados onde o governo petista teve mais sucesso. Nesse sentido, coloca em cheque as vantagens de um alinhamento automático ao chamado “Consenso de Washington”, como foi visto no governo FHC, ressaltando o baixo grau de desemprego alcançado por Dilma, além das altas taxas de redução da pobreza. Ao falar de Aécio Neves, o jornal permanece neutro, sem adjetivos pejorativos, apontando que seria o preferido pelo mercado. A rede de notícias BBC, também inglesa, segue essa mesma linha, elogiando as medidas de inclusão social dos governos PT. Além disso, apelida Dilma de “dama de ferro” (como Margareth Thatcher), especialmente no que diz respeito à maneira como a presidenta lidou com os casos de corrupção. Sobre o candidato do PSDB, a BBC relembra seu caráter mais festeiro e esbanjador, considerando que esse estilo de vida está fora de sincronia com as necessidades do país, e ainda destaca sua derrota em seu berço eleitoral, Minas Gerais.

Já o jornal espanhol El País vem atacando a imagem de Dilma Rousseff durante toda a campanha para o primeiro turno, indicando que a liderança de Dilma nas pesquisas era resultado do medo da população, e não de esperança. Baseado em uma visão econômica claramente liberal, o jornal denuncia a economia petista, apontando que seu governo intervencionista freia o dinamismo da economia liberalizada. Se antes, quando a disputa estava entre Rousseff e Silva, o jornal apostava nas críticas ao governo atual, com a reviravolta eleitoral de última hora, agora o foco está em Aécio Neves. Após a vitória do candidato no primeiro turno, o El País publicou diversas matérias sobre Neves, sempre destacando as maiores virtudes do candidato, de cunho profissional e pessoal.

Da mesma forma, o jornal francês Le Monde não estava preparado para a volta de Aécio Neves ao pleito, uma vez que, até então, a grande maioria das matérias a respeitos das eleições presidenciais brasileiras raramente mencionavam o candidato, focando na rivalidade entre Dilma Rousseff e Marina Silva. Desde o primeiro turno houve matérias valorizando as reformas sociais do governo PT e com um tom acusatório em relação à religiosidade de Marina. Sobre Aécio, agora o jornal transmite uma imagem claramente negativa do candidato, classificando-o como um “playboy tecnocrata”.

Opiniões diversas

O jornal The New York Times, estadunidense, deu muito menos destaque para as eleições brasileiras, mas também tem um ponto de vista claro a respeito dos candidatos, partindo de uma visão econômica liberal: “os eleitores têm agora uma escolha clara: reeleição da esquerdista Rousseff e endossar sua postura comercial protecionista, ou mover para a direita com Neves, que prometeu cortar gastos do governo, infraestrutura aberta para o setor privado e buscar acordos comerciais diretos com a Europa e os Estados Unidos”.

A mesma visão predominou na rede de televisão Al Jazeera, que apesar de expor tanto os indicadores positivos como os negativos em relação ao desempenho econômico brasileiro, deu espaço para apenas uma entrevista sobre o assunto, com um professor universitário bastante tendencioso. Carlos Pio, um professor de economia política internacional na Australia National University, menosprezou não só a política econômica do país, mas até mesmo questionou a qualidade da educação superior da presidenta (que se graduou em economia na UFRGS), uma vez que o núcleo de economia do instituto não seria do “mainstream” internacional. O jornal russoRussia Today, ao também dar pouco espaço às eleições brasileiras em sua página online, foi altamente sintético, expondo apenas uma visão ampla da situação eleitoral, sem privilegiar nenhum dos candidatos.

Por outro lado, na América Latina, o El Universal, jornal mexicano, tem desatacado bastante as eleições brasileiras. O jornal relembra que a eleição de Dilma Rousseff em 2010 agradou aos mercados, uma vez que tem a formação de economista, e ainda afirma que a presidenta demonstrou habilidade em conduzir os interesses políticos do governo através de alianças. El Universal destaca como Dilma baixou os juros, e, como apesar dos escândalos de corrupção, a presidenta defende com dureza as investigações desses casos. Ao falar de Aécio, o jornal lembra que sua árvore genealógica o vincula à “Velha Política”, (como cunhada por Marina Silva). Destaca seu alto grau de popularidade em Minas Gerais, mas também sua fama de mulherengo e festeiro.

O jornal argentino La Nación também não esconde suas preferências. Fala de Dilma como mal-humorada e disciplinadora, que odeia conferências de imprensa. Questões pessoais à parte, o jornal destaca o impacto das eleições na Argentina, considerando que as reformas de Aécio terão prejuízos aos países da região, uma vez que a recuperação brasileira passará por uma desvalorização da moeda. Entretanto, afirma que a economia dos vizinhos depende que o Brasil saia da inércia e consuma as exportações destes. Em termos políticos parece favorável ao afastamento do Brasil da Argentina, Bolívia e Equador, e defende que Aécio seja a ponte entre Washington e Brasília.

Já o jornal argentino Clarín, de maneira geral, dá mais destaque à candidata do PT. O jornal tem apontado os escândalos que poderão ser utilizadas pelos candidatos para se atacarem nas discussões desse segundo turno. Ambos têm casos de corrupção a serem debatidos: a Petrobras já foi alvo de Aécio; e o mensalão mineiro e o aeroporto do tio de Aécio, quando serão usados por Dilma? O jornal também ressalta a importância do ex-presidente Lula para assegurar a confiança, sobretudo do mercado financeiro: “o fator mais relevante será, sem dúvida, a atuação do ex-presidente Lula. Caberá a ele realizar as negociações fundamentais, não só para atrair os que ficaram fora do páreo. Seu papel é mais importante: ele garante, em última análise, ser uma ‘inovação’ em um possível futuro governo de Dilma.” No que toca às relações internacionais, oClarín destaca uma diferença entre os candidatos que é muito importante para os argentinos: Dilma busca aproximação com o Mercosul e Aécio é crítico ao bloco e busca contato com Europa e EUA.

O jornal uruguaio El País tende a igualar as virtudes dos candidatos “ambos são economistas altamente treinados. Eles são igualmente inteligentes e se destacaram em cargos públicos que ocuparam”. “Dois líderes lúcidos, com vidas tão diferentes como suas posições políticas, no domingo, dia 26, se enfrentarão para definir se haverá alternância ou continuidade no Brasil”.

Com essa visão geral de alguns meios de comunicação que vêm ecoando o cenário incerto da política brasileira pelo mundo, fica claro que as opiniões são as mais diversas, e que não existe um verdadeiro consenso em relação ao que é melhor para o Brasil, nem aqui nem lá fora. A fórmula não é pronta, não é uma receita de bolo. Cabe ao eleitor brasileiro ter todas essas diferentes informações a sua disposição para que possa tomar sua decisão, que lhe afetará nos próximos quatro anos. Ou seja, o importante é que em tempos de eleições tão apertadas, os eleitores estejam o melhor informados possível.

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Luiza Olmedo é bacharela em Relações Internacionais e mestranda em Estudos Estratégicos Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

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