Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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JORNAL DE DEBATES >

É difícil ser eleitor nesta eleição

Por Taís Teixeira em 21/10/2014 na edição 821

Esta primeira fase da eleição, que elegeu deputados estaduais, federais e senadores, vai continuar em alguns estados para eleger governador e para o país eleger o presidente. Embora ainda não tenha terminado, podemos constatar que vivemos uma eleição fora do eixo. Se existe uma forma de expressar com um termo ou uma frase que consiga dimensionar a coleção de gafes, ofensas, delitos da imprensa, erros gravíssimos de renomados centros de pesquisa e espetacularização das equipes de marketing, dizer que a eleição foi “fora do eixo” ainda não comporta o festival de atrocidades que observamos. E de que participamos. Cidadãos, internautas, eleitores, pessoas, enfim, como queiram classificar, observam e são observados fazendo parte dessa odisseia ideológica verbalizada de várias formas durante o período eleitoral.

A velha política de enaltecimento via conjugação e prática ferrenha do verbo tripudiar causa ebulição e até queimaduras de terceiro grau e atinge quem acredita estar incólume à avalanche de intempéries escarrada ininterruptamente. Todo espaço virou uma oportunidade de “sambar na cara do inimigo”, um comportamento padrão da escola da construção da política brasileira. Essa fase é marcada por golpes, aniquilamentos e alianças consternadas que resultaram numa pandemia da oratória, da censura, da ameaça, da violência psicológica e física, cenário que mais uma vez acompanhamos nas eleições de 2014.

Sim, podemos dizer que fizemos parte de uma congestão coletiva reacionária caracterizada por forte violência psicológica a partir do momento em que a distribuição de informações apresenta erros gritantes. Acompanhamos desde as trocas de “gentilezas” entre candidatos sem o menor constrangimento até o “diagnóstico” de doença de uma parcela do povo brasileiro, os homossexuais, por um presidenciável que não tem habilitação na área médica nem é pesquisador sobre o tema para caracterizar dessa forma. Ou seja, até diagnóstico de patologia o eleitor sofreu na teia de tumultos dessa eleição. Nas eleições de 2014, o eleitor também foi alvo de ofensas e desonras.

Guerra é guerra

É difícil ser eleitor nessa eleição. Rádio, televisão, jornais, revistas, redes sociais estão sobrecarregadas e nos sobrecarregam com opiniões anacrônicas, carentes de um posicionamento mais firme porque o conhecimento é básico ou quase nulo. O Facebook virou palco eleitoral de candidatos e mesa de lamentação dos usuários. Interessante observar a busca pelo “menos pior”, a defesa visceral pelo PT e a obstinação pelo “fora PT”. Milhares de opiniões, editoriais, notícias, motivos para não votar nesse ou naquele foram compartilhados à exaustão.

De fato, fica para pensar se muitos dos posts compartilhados foram entendidos por quem os estava compartilhando ou se tal atitude foi em decorrência da onda eleitoral. De repente, todo mundo passou a ter opinião política, virou politizado e a viralização de postagens críticas e cômicas se espalhou vertiginosamente. A especulação, a verdade, a inverdade e a ironia protagonizaram as postagens. O cenário não se resume a uma busca/conquista por eleitores, e sim, expande-se a uma busca/conquista por adeptos a uma posição política.

Para captar a adesão alheia é preciso desenvolver a arte do convencimento, jornada nada simples. Convencer é atribuir sentido ao que se defende, ao que se propõe. Segundo Berger e Luckman (2004, p. 76), “todas as sociedades estão envolvidas em processos de gerar sentido, mesmo que não tenham desenvolvido instituições especiais de produção de sentido. Em todos os casos controlam a recepção dos elementos de sentido para os membros da sociedade, adaptando-se às novas necessidades. Por meio de suas instituições as sociedades conservam as partes essenciais do sentido. Elas comunicam sentido ao indivíduo e às comunidades de vida em que o indivíduo cresce, trabalha e morre”.

No vale-tudo das eleições, apuração de fato não é tarefa de interesse para quem quer vencer a qualquer custo. O objetivo é espalhar, espalhar tudo. Cada um que se identifique ao que for mais aceitável nessa oferta de afirmações. O povo é o seu próprio produtor, editor e/ou os dois simultaneamente. A eleição se estabelece como um campo minado sem meios termos: ou se ganha ou se perde. Uma palavra é uma arma. A divergência ganha status de guerra. E guerra é guerra.

As duas faces

Assim como o lixo que estava nas ruas em “santinhos”, folders e cavaletes, também há muito lixo virtual. Estamos reproduzindo nas redes sociais as mesmas ações estratégicas e ofensivas corriqueiras de campanha eleitoral, onde a insistência em desqualificar o adversário é estratégia comum, mas em tons diferentes. Agressão, desrespeito e muita discussão permeiam as relações em cima da defesa apaixonada de quem segue um partido por afinidade ideológica, por convicção, ou quer expressar repúdio partidário ou se decidiu por um lado nessa eleição. Muitas ofensas ultrapassam os limites do bom senso (como definir bom senso num campo tão íngreme e explosivo?) e partem para conflitos pessoais. O resultado é o fim de relações que se desfazem apenas com um clique. Como é fácil excluir as pessoas da nossa vida na era digital.

Mas em meio a essa esquizofrenia social acompanhamos um lado positivo. O interesse pela política. O interesse em tomar uma posição, em fazer a sua parte, em desejar mudança, melhora. Acompanhamos uma evolução sim, independente da qualidade, da dimensão, do julgamento das escolhas. É inegável que está latente um envolvimento que pulsa nas veias e determina a manifestação nas redes, o endosso a uma ideia, o apoio a um candidato, o ponto de vista em linhas mal escritas ou de conteúdo duvidoso. Sem julgar por certo ou errado o outro, o que está em destaque é a vontade de se impor e não se abster. Em meio à eleição de pessoas que mais parecem personagens, enredo de piadas ou sacanagem mesmo, as faces da lucidez se encontram em comentários de repúdio, de crítica a esse eleitor, que exerceu o direito do voto elegendo pessoas sem perfil, sem trajetória, sem ligação ou herança familiar política. É como mandar um advogado para a mesa de cirurgia.

Nesta mesma sociedade que elege criaturas que mal sabem administrar a própria vida, existem pessoas que querem fazer valer o seu voto. Essa dualidade demonstra o amadurecimento de uma parte da população e exige um olhar mais apurado para a outra. Ou para as outras.

Olhar seleto e crítico

A política é um dos campos que compõem a sociedade. O campo é um espaço social onde demandas internas e externas disputam esse lugar, ou seja, os indivíduos ocupam posições e estreitam relações devido a esses arranjos, que são definidos por regras. O campo não é a estrutura, é o local onde acontece o embate entre os agentes. Os agentes internos buscam a legitimação dentro do campo e os indivíduos podem mudar de posição para conquistar referência dentro do campo ao qual pertencem.

Conforme os movimentos do campo, as posições vão se reorganizando, não há posição fixa e nem princípios que estipulem como deve ser e quem devem ser os causadores desses reajustes. A busca por um lugar incide em luta que, para ser bem sucedida, tem que ser baseada na observação e na compreensão. É o que afirma Bourdieu (2012, p. 69), quando afirma que “compreender a gênese social de um campo, e aprender aquilo que faz a necessidade específica da crença que o sustenta, do jogo de linguagem que nele se joga, das coisas materiais e simbólicas em jogo que nele se geram, é explicar, tornar necessário, subtrair ao absurdo do arbitrário e do não-motivado os atos dos produtores e as obras por eles produzidas e não, como geralmente se julga, reduzir ou destruir”.

Com tanta circulação de informação seguida de tanta discussão, o eleitor precisa ter um olhar atento, seleto e crítico. Creio que nunca se fez tão necessário este olhar como nesse momento. É difícil ser eleitor nessa eleição.

Referências

BERGER, P., LUCKMANN, T. Modernidade, pluralismo e crise de sentido: a orientação do homem moderno. Petrópolis: Vozes, 2004.

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.

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Taís Garcia Teixeira é jornalista e mestre em Comunicação e Informação

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