Quinta-feira, 24 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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JORNAL DE DEBATES > ELEIÇÕES 2014

Mineiridade, marketing político e raposismo

Por Pedro Belchior em 21/10/2014 na edição 821

No final de setembro, Aécio Neves reuniu esposa e familiares na Basílica do Pilar, em São João del-Rei, para o batismo dos gêmeos Bernardo e Júlia em missa do padre Fábio de Melo. O episódio, à primeira vista banal, ocorreu a poucos dias do primeiro turno e mereceu pouca atenção, mas suscita um olhar sobre a reviravolta de Aécio nas urnas.

A versão online da revista Veja (ver aqui) assim noticiou o evento: “Na terra do avô Tancredo, Aécio prega resgate da ética”. E destacou a fala do candidato: “Com os exemplos das nossas famílias, com as crenças de que não se deve mentir, não se deve roubar, deve se (sic) respeitar ao próximo.”

Para o senso comum, tratava-se apenas do cumprimento de um rito católico, mas em política – principalmente em tempos do império do marketing – nada é gratuito. Cenários e gestos são parte de um repertório de informações de que os marqueteiros e os chefes de campanha lançam mão para construir representações a respeito do candidato – eque são capazes de tocar diretamente a mente e o coração de determinadas fatias do eleitorado.

Nesse sentido, uma dissertação de mestrado ajuda a compreender o fenômeno Aécio, o avô Tancredo e o conservadorismo travestido de novidade que caracteriza o arquétipo do político mineiro. Vozes das montanhas, de Marcel Ângelo (ver aqui), busca compreender as representações evocadas e reapropriadas por Aécio na campanha (vitoriosa) de 2002 ao governo de Minas. O estudo disseca o esforço, por parte da campanha de Aécio, em resgatar a imagem arquetípica do “politico mineiro”. Na campanha de 2002, Aécio valeu-se da valorização de um passado mítico, da força da tradição, do pragmatismo, da capacidade de conciliação de interesses diversos e de uma espécie de “missão” à qual todos os filhos de Minas são chamados: intervir nos rumos do país em casos de instabilidade institucional. Um repertório que, segundo Marcel Ângelo, funciona como parte de um mecanismo das elites mineiras “para manter a coesão e perpetuar o status quo”.

Igreja colonial

Aécio era, naquele momento, um jovem deputado que até então jamais havia ocupado um cargo executivo. Sua imagem estava mais associada ao Rio – que no imaginário mineiro representa o avesso da “tradição”, com seu amplo horizonte litorâneo e seus hábitos tidos como modernos e mais relaxados – do que a Minas. Era preciso falar aos corações e mentes dos mineiros, apelando para a mitologia da mineiridade e convertendo o ex-garoto surfista da zona sul do Rio em representante dessa identidade mineira; em suma, era preciso construir a imagem do “sujeito mineiro”.

Uma vez consolidado o ethos do político austero, liberal na economia e tradicional/conservador nos valores, Aécio conquistou, por duas vezes seguidas, o governo de Minas e elegeu como sucessor o seu braço direito, Antonio Anastasia. Contou com um irrestrito apoio da imprensa de Minas e fez demitir jornalistas que representavam vozes dissonantes ao seu governo; financiou com dinheiro público suasrádios e seujornal, a Gazeta de São João del-Rei, sendo que o montante é ainda hoje mantido a sete chaves; utilizou-se das práticas mais comuns do velho coronelismo, enxada & voto,sem perder o verniz democrático – sempre tendo como seu jornal oficial o Estado de Minas.

E voltamos à Basílica do Pilar. Às voltas com uma teimosa liderança de Dilma Rousseff nas pesquisas e com a vertiginosa subida de Marina Silva após o acidente que vitimou Eduardo Campos, Aécio passou a se vender como o candidato antipetista por excelência, aquele capaz de acabar com a suposta “instabilidade” política produzida em seguidos casos de corrupção e de recuperar uma economia à beira da recessão. Era, também, necessário reverter a maré contra o PSDB em Minas, cujo candidato ao governo patinava nas pesquisas, além do próprio Aécio, que perdia para Marina e Dilma.

Nenhuma imagem representa melhor a ideia de tradição do que uma igreja colonial mineira. Para o eleitor conservador – aquele que baba ódio ao falar de Cuba, da Venezuela, dos “petralhas”, do “bolsa esmola” e da suposta improdutividade de seus beneficiários –, a imagem da igreja e de seu altar vetusto e sóbrio contrasta com o “mar de lama” –frase imortalizada pelo político Carlos Lacerda, apoiador do golpe de 1964, e utilizada diversas vezes por Aécio –do governo atual. Repaginava-se, novamente, a figura do político ponderado, sine ira et studio, capaz de costurar alianças que vão do PSB (com a benção da viúva Renata Campos) ao direitismo mais raivoso do Pastor Everaldo e de Silas Malafaia; e a figura do político mineiro “bossa nova”, bacharelesco e hábil orador.

A guinada à direita

Outras imagens/emblemas dão pistas da construção marqueteira do político mineiro:

a) ao pronunciar-se ao eleitorado por sua vitória no primeiro turno, Aécio agradeceu, antes de tudo, a Deus;

b) o evento que selou os novos apoios de partidos à sua candidatura no segundo turno ocorreu no Memorial Juscelino Kubitschek, em Brasília. O momento foi devidamente explorado na propaganda do candidato, que aparece olhando vivaz e apaixonadamente para a estátua de JK;

c) no dia 12 de outubro, Aécio foi fotografado ao lado da esposa com os olhos fechados enquanto rezava na Basílica de Nossa Senhora Aparecida;

d) no debate da Band –é válido frisar –, o tucano utilizou a expressão “mar de lama”, típica de Lacerda, o mais estridente politico conservador do Brasil no século passado;

e) a campanha de Aécio faz referência ao avô Tancredo Neves e postula que ambos são capazes de liderar o país “quando o país mais precisa”;

f) a propaganda de Aécio na TV tem usado e abusado das cores da bandeira nacional e a vinheta de abertura faz referência direta ao programa de Collor em 1989.

Dito isso, creio que a ênfase na “tradição” e no “espírito mineiro” foram fundamentais para a reconciliação de Aécio Neves com o eleitorado conservador, a ponto de raptar parte dos antipetistas de esquerda que até então pensavam votar em Marina Silva e de se reconciliar com o eleitorado conservador que faria seu “voto útil” na ex-ministra do Meio Ambiente.

Essa ênfase no conservadorismo, no antipetismo e na “faxina” da corrupção (qualquer identificação com Jânio Quadros não é mero acaso) foi essencial para a arrancada de Aécio no primeiro turno, e até o momento, apesar das investidas do PT na desconstrução do candidato, ele permanece numericamente à frente e com chances reais de ser presidente, após uma hegemonia petista de 12 anos.

Das raposas da política mineira, é dito que Minas é o estado “fiel da balança” na condução deste continente com feições tão diversas chamado Brasil. Após o fracasso de Serra e de Alckmin, Aécio surge como o político tucano capaz de traduzir a sede das ruas por mudança, ainda que essa mudança faça ressurgir práticas que remontam à “velha política”, para citar a expressão da neoaliada de Aécio, e à ortodoxia neoliberal dos tempos de FHC.

O neorraposismo de Aécio surge, então, como uma espécie de “emplasto Brás Cubas” para a agenda política do país. São João del-Rei e a mitologia da mineiridade dão o tom ideológico da guinada à direita embutida no discurso do candidato. E Minas, mais uma vez, é conclamada a cumprir a “missão histórica” de conciliar os interesses da nação. Que interesses e que nação?, é o que nos importa explorar para combater.

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Pedro Belchior, pesquisador do Museu Villa-Lobos (RJ), é mestre em História pela Universidade Federal Fluminense e graduado em História pela Universidade Federal de São João del-Rei

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