Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

JORNAL DE DEBATES > ECOS DA ELEIÇÃO

Argentinos querem ‘importar’ debate eleitoral na TV

Por Marli Olmos em 04/11/2014 na edição 823
Reproduzido do Valor Econômico, 31/10/2014; intertítulo do OI

Os debates na TV tornaram-se tão importantes no Brasil que ajudaram a definir o voto de muitos indecisos poucos dias antes do segundo turno presidencial. Na Argentina, isso seria impossível. Não há debates eleitorais no país. Mas a ideia começa a despertar curiosidade. O interesse é tanto que analistas, empresários e economistas reuniram-se ontem [quinta, 30/10], numa sala da Faculdade de Direito de Buenos Aires, para assistir a palestrantes estrangeiros ensinarem como se faz um debate político.

Um movimento, ainda incipiente, ligado a organizações não governamentais, busca nos exemplos de outros países aprendizado para tentar lançar a ideia antes da próxima eleição presidencial no país, daqui a um ano. “Só sabemos hoje o que o país não deveria ser. A Argentina não deveria ser essa expressão de uma sociedade cansada, que não cultiva o diálogo das políticas públicas”, afirma o economista Eduardo Levy Yeyati, do Centro de Implementação de Políticas Públicas (Cippec).

Na apresentação de hoje, até especialistas de democracias mais recentes deram aula aos argentinos. “Me surpreendi ao saber que isso não existe na Argentina”, diz Fernando Masi, membro do Paraguai Debate, uma organização que inspirou o nome do novo movimento argentino (Argentina Debate). Os paraguaios fizeram suas primeiras tentativas em 2008. Mas, baseados nos programas do Peru, melhoraram o formato para as eleições presidenciais do ano passado.

Os peruanos praticam o debate desde as eleições presidenciais de 2006. Javier Portocarrero, do Consórcio de investigação Econômica e Social (Cies), atribui à apresentação de ideias em debates na televisão pelo menos uma parte da ascensão do candidato de esquerda, Ollanta Humala, que começou a campanha no último lugar e hoje é o presidente do país. “Ele conseguiu expor seu programa de forma que acabou com os receios de um governo de esquerda radical, como muitos temiam”, destaca.

Realidade distante

Chamou a atenção da plateia ouvir a presidente da comissão de debates dos Estados Unidos, Janet Brown, contar que em seu país 75 milhões de pessoas ligam os aparelhos de TV para assistir a essa troca de ideias entre os candidatos a presidente. Uma audiência que só é superada, diz, pelo Super Bowl, a final do campeonato de futebol americano.

Segundo Brown, nos EUA o candidato precisa ter um percentual mínimo de intenção de voto nas pesquisas para participar de um debate. Isso evita, por exemplo, um palco com 11 pessoas, como aconteceu no Peru, no primeiro turno da última eleição.

Há muito a aprender com os vizinhos. As experiências brasileiras nas eleições costumam encantar os argentinos. Desde o uso da urna eletrônica até o fato de a presidente do país “aceitar” participar de um debate mesmo quando liderava pesquisas.

O jornalista Ricardo Boechat, da TV Bandeirantes, destacou, em sua apresentação, que isso é resultado de uma mudança de cultura gradual. Ele citou casos passados em que as emissoras deixavam a cadeira do candidato que não aceitava participar vazia, mantinham a placa com seu nome e chegavam a permitir que os demais fizessem perguntas ao ausente – e com direito à réplica.

“Onde são feitos os debates” ou “quem escolhe as perguntas” foram algumas das questões da plateia que expõem como essa realidade é algo ainda distante na sociedade argentina. Algumas, no entanto, foram até sugestivas: “O candidato apresenta sua equipe de governo?”

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Marli Olmos, do Valor Econômico, em Buenos Aires

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