Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

JORNAL DE DEBATES > ECOS DA ELEIÇÃO

Ataques nas redes sociais continuam após resultados

Por Renato Onofre em 04/11/2014 na edição 823
Reproduzido do Globo.com, 27/10/2014; título original “Ataques nas redes sociais continuam após a divulgação dos resultados”

Os sinais de união e reconciliação adotados pela presidente reeleita Dilma Rousseff (PT) e pelo senador Aécio Neves (PSDB) após a divulgação do resultado das eleições ainda não encontraram eco nas redes sociais. No palco mais agressivo desta disputa eleitoral, militantes tucanos e petistas continuaram a troca mútua de ofensas que marcou o debate virtual em 2014. Eleitores mais radicais do PSDB chegam a pedir a separação dos estados que deram maioria a Aécio enquanto petista defendem a expulsão dos adversário para Miami. Em alguns casos, os posicionamentos políticos têm características racistas e preconceituosas.

De acordo com a ferramente o Pulso no País a expressão mais citado nas redes desde domingo é “democracia”, mas nesta segunda-feira, termos como “corrupto”, “racismo”, “nordestino” e “fraudada” ganharam força na conversação. Os ataques mais exaltados partem de eleitores contrários ao resultado das urnas que reelegeu a presidente Dilma com 51,6% dos votos válidos. Novamente, um grupo tenta por a culpa da derrota de Aécio ao Nordeste. O repertório não é novo. Em 2006, 2010 e até no primeiro turno das eleições deste ano, eleitores contrários ao PT disparam mensagens e publicações preconceituosas contra a decisão da maioria dos eleitores da região, que nas três últimas eleições deram ampla maioria aos candidatos petistas.

“Vamos construir um muro separando aqueles nordestinus burros do brasil de verdade. Um muro que nem na alemanha”, bravou Johnny Rocha numa página criada no Facebook pedindo a independência de São Paulo.

O desempenho no Nordeste, a segunda mais populosa do País, é o principal foco de ofensas nas redes. Nem mesmo as duas vitórias da petista no Sudeste, em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, amenizou os ataques preconceituosos.

Do lado vencedor, os ataques também se repetiram:

“Vai para Miami, coxinha! Vaza!!! E leva os reaças com você” e “Despenamos todos os tucanos! Vamos comer eles com farofa”, brandou os usuários Laura Helena Boldin e Eduardo Gondim Ribeiro numa das páginas criadas pró-Dilma.

A beligerância entre os eleitores foi acentuada pela postura dos próprios candidatos durante a disputa, segundo analistas ouvidos pelo GLOBO. De acordo com o cientista político Sandro Correa (UFRJ), a reação dos eleitores é, em parte, reflexo das estratégias de ódio promovidas pelas campanhas para desconstruir os adversários:

– As pessoas não são políticos profissionais onde, terminado a eleição, voltam a fazer o jogo da política. A temperatura nas redes ainda permanecerão alta. É bom lembrar que as jornadas de junho esfriaram nas ruas, mas continuaram a sacudir as redes até a Copa do Mundo. Daqui a pouco, outro tema toma conta da discussão – avaliou.

Após a vitória do PT na eleição mais apertada dos últimos cinquenta anos, as redes replicaram um abaixo-assinado no site avaaz.com que pedia o impeachment da presidente reeleita. A página foi criada em junho do ano passado no meio aos protestos que sacudiram o Brasil. Até o início do segundo turno, a petição tinha 500 mil votos. Ontem, chegou a 750 mil assinaturas. Nesta segunda-feira, a página estava fora do ar.

Em algumas páginas contra o resultado das urnas, militantes virtuais petistas postaram um link da Polícia Federal como resposta àqueles que ofenderam ou cometeram crimes de ódio ao discordar da vitória petista culpando os nordestinos. Através de sua assessoria, a PF informou que não divulgou e nem lançou nenhum tipo de ação em combate às ofensas espalhadas nas redes.

Ainda de acordo com a Polícia Federal, todas as denúncias encaminhadas através do site ou pelo email crime.internet@dpf.gov.br são analisadas por agentes. Caso se confirme a tipificação de algum tipo de crime eletrônico, a PF instaura inquérito para apurar as possíveis irregularidades.

Vereadora propõe separação em Natal

A vereadora de Natal, no Rio Grande do Norte, Eleika Bezerra (PSDC) entrou na discussão ao propor através das redes sociais a divisão do Brasil. Eleika postou uma imagem que mostra o mapa do Brasil dividido. Nos estados das regiões Norte e Nordeste, além Rio de Janeiro e Espírito Santo, seria chamado de “Nova Cuba”. O Brasil ficaria sendo os demais estados, com exceção de Minas Gerais, que seria “implodido para a construção de um lago”.

Em nota, a vereadora disse que não teve o intuito de promover o preconceito entre regiões, mas que, em relação às eleições, “presenciamos uma campanha que dividiu o país em etnias e classes sociais eivada de preconceitos e maniqueísmos, o que resulta no estímulo ao espírito separatista”.

OAB repudia ataques

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) repudiou nesta segunda-feira as manifestações de discriminação contra nordestinos após a divulgação do resultado da eleição presidencial.

– O Brasil é uma nação plural, tolerante e respeitosa. Essas manifestações preconceituosas contra nordestinos advêm de uma minoria e merece ser repudiada pela sociedade brasileira – afirmou o presidente nacional da Ordem, Marcus Vinicius Furtado Coêlho.

Em nota, a entidade disse que “A OAB, como voz constitucional do cidadão, repudia de forma veemente essas manifestações, contrárias ao conceito exposto na Carta Maior da construção de uma sociedade justa, solidária e fraterna. O cidadão que se sentir ofendido ou que testemunhe atos de preconceito pode entrar com uma representação no Ministério Público Federal”.

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Renato Onofre, do Globo

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