Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

JORNAL DE DEBATES > ECOS DA ELEIÇÃO

Por menos embate e mais debate

Por Sávia Lorena Barreto Carvalho de Sousa em 11/11/2014 na edição 824

É preciso menos embate e mais debate da mídia em relação à presidente reeleita Dilma Rousseff. Quem acompanha a imprensa brasileira pós-eleição tem até a impressão de que Dilma não levou a maioria dos votos no dia 26 de outubro. O noticiário que domina jornais e TVs da grande mídia brasileira prevê, desde o primeiro dia depois do segundo turno, um apocalipse para a petista no Congresso Nacional e já sedimenta material negativo para a imagem do ex-presidente Lula, cujo nome é dado como certo na disputa presidencial de 2018.

Previsões de escassez econômica e rebelião de deputados e senadores contra Dilma se sobrepõem ao processo natural em que o mandatário eleito deve mostrar como pretende viabilizar as propostas de campanha, cabendo aos meios de comunicação a crítica necessária ao que é factível ou não, representando os interesses da população, e não apenas os interesses econômicos daqueles que sustentam seus veículos. A má vontade com Dilma contamina até iniciativas que mereciam, pelo menos, mais discussão por parte da mídia, como o caso dos conselhos populares, cujas experiências – a maioria exitosa – foram ignoradas pela imprensa no debate sobre seu papel para a gestão e interlocução com a sociedade civil.

O palanque não foi desarmado na arena da comunicação. PT e PSDB querem que seus discursos prevaleçam e, para isso, cabe a desconstrução do discurso alheio. A balança, porém, pesa para o PT, que tem poucos defensores e muitos holofotes apontados para seus erros (que também não sou poucos). A desigualdade social e econômica em um país com dimensões continentais parece só ter sido percebida agora pela mídia e usada convenientemente pelas forças políticas – apesar de não ser novidade desde a formação institucional do país. O Brasil nunca foi um país sem divisões. Para a mídia nacional, Dilma precisa ouvir o que os eleitores de São Paulo têm a dizer sobre os rumos do país. Mas nada se fala sobre os eleitores de Pernambuco, Piauí e Minas Gerais, que também deram um recado nas urnas para o PSDB – e não somente o oposto.

Observando por um viés filosófico da política, falta à mídia brasileira o que a filósofa alemã Hannah Arendt ponderou em obras como A Condição Humana: a ideia de que a política é uma ação em conjunto. A política não é resultado da violência, e sim, do reconhecimento do outro em sua diversidade, em uma perspectiva de inclusão. No cerne do pensamento de Arendt está a ideia de liberdade, considerando que o indivíduo só é livre enquanto está agindo. No ato de votar em Dilma ou em Aécio, o eleitor fez sua escolha e é partindo da premissa de que ele teve essa liberdade que se deve dar ao candidato eleito a oportunidade, enfim, de governar sem que mídia se torne mais do que um sujeito fiscalizador e queira prevalecer como sujeito que barra o andamento político apenas porque sua vontade não prevaleceu.

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Sávia Lorena Barreto Carvalho de Sousa é jornalista e mestre em Comunicação

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