Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

JORNAL DE DEBATES > MARANHÃO

Desafios midiáticos do governador ‘comunista’

Por Pâmela Araújo Pinto em 18/11/2014 na edição 825

Eleito com 63,52% dos votos válidos, o novo governador do Maranhão, Flávio Dino, terá um desafio diário nos próximos quatro anos de governo: os coronéis da mídia maranhense. Membro do Partido Comunista do Brasil, o ex-juiz e ex-deputado federal estará sob a mira constante de seus adversários, que dominam os principais veículos de comunicação do estado e controlam a visibilidade dos atores políticos para a grande maioria da população.

O analfabetismo de 18,55% dos maranhenses torna a TV e o rádio fontes privilegiadas de informações cotidianas. Quatro das cinco afiliadas das principais redes nacionais de televisão comercial pertencem a políticos e servem de palanque permanente aos seus donos. Os jornais são, em sua maior parte, centrados na capital e obedecem a uma dinâmica de apoio circunstancial, atrelada aos aportes financeiros concedidos por quem está no poder. A internet, grande parceira da campanha eleitoral de Dino, ainda é uma realidade restrita a pouco mais de dois milhões de maranhenses. Os veículos maranhenses padecem de autonomia, como muitos outros da chamada mídia regional brasileira.

A partir DE 1º de janeiro, as ações de Dino serão “fiscalizadas” pelos afiliados locais das TVs Globo, SBT e Band. A Rede Globo tem como afiliada a TV Mirante, de propriedade da família Sarney, com cobertura de 216 cidades, das 217 que formam o estado. Os Sarney são donos de 37 veículos de radiodifusão (emissoras de TV e rádios), localizados nas principais cidades, e do jornal O Estado do Maranhão – diário de maior circulação no estado. No outro lado da ponte José Sarney, divisória entre a parte moderna e a parte antiga de São Luís, está localizada a afiliada do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), cujo proprietário é o senador Edison (“Edinho”) Lobão Filho (PMDB), o adversário de Dino nas eleições estaduais. O Sistema Difusora detém 84 outorgas de radiodifusão espalhadas nos mais profundos recantos maranhenses.

A TV Band é a rede de menor alcance, centrada em São Luís e em mais 15 municípios. Pertence ao deputado Manoel Ribeiro, aliado tradicional dos Sarney, sobretudo no período em que presidiu a Assembleia Legislativa, de 1993 a 2003 – nas duas primeiras gestões de Roseana Sarney como governadora. No entanto, Dino terá a cobertura positiva da Rede Record, que tem como afiliada a TV Cidade, da família do senador eleito Roberto Rocha (PSB), presente em 34 municípios.

Iniciativas de transparência

O governador “comunista”, alcunha atribuída pelo marketing da campanha de Edinho Lobão e reverberada como estratégia de ataque por diversos veículos aliados aos Sarney, será o primeiro governador do PCdoB eleito no país. Carregará consigo responsabilidades inerentes a causas sociais, econômicas e políticas a serem empregadas na transformação da realidade de um dos mais pobres estados da nação. Isso implicará a mudança de perspectiva não apenas na forma de fazer política, mas na forma de publicizá-la.

A estratégia de interiorização presente no período eleitoral, com as visitas ao interior durante os chamados “Diálogos pelo Maranhão”, aponta um caminho de regionalização da saúde, da educação e de valorização das diferentes paisagens que formam o Maranhão. Ela pode ser também uma alternativa no âmbito midiático, pois foi adotada com êxito na última década pelo governo federal. Ao ser instituída como diretriz da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), descentralizou recursos aumentando de 499 veículos beneficiados com a publicidade governamental, em 2003, para 8.932 veículos contemplados em todo o Brasil, em 2013.

Contudo, este investimento nas diversas mídias do ambiente regional precisa ser alicerçado em outras medidas como o estreitamento de laços entre os atores da mídia no estado, com o propósito de apontar a comunicação como um direito e uma forma de acesso à cidadania. Isto inclui um diálogo constante com profissionais de mídia, pesquisadores e entidades de classe, sobressaindo a valorização das mídias alternativas e dos movimentos sociais que lutam pela democratização da comunicação. Nada menos do que isso é esperado de um governante filiado à bandeira “comunista”.

Flávio Dino terá quatro anos para apagar as marcas visíveis do atraso de uma oligarquia que durou cinco décadas no poder graças a articulação nacional do seu principal líder, o senador pelo Amapá José Sarney. Nestes cinquenta anos de política, Sarney investiu em um complexo sistema de mídia, o Sistema Mirante, para a promoção pública dos seus herdeirose do seu grupo nos pleitos eleitorais. Os sucessivos mandatos dessa família e dos seus aliados apontam para a importância das mídias no jogo político e para consolidação da opinião pública. Dino terá como aliadas as iniciativas de transparência durante sua gestão para reafirmar seu compromisso com o povo e refutar os possíveis (constantes) ataques dos coronéis da mídia maranhense.

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Pâmela Araújo Pinto é jornalista e doutoranda em Comunicação

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