Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

JORNAL DE DEBATES > LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Por que utopia faz bem para o início do ano

Por Cristiano de Sales em 06/01/2015 na edição 832

Em discurso depois de reempossada, a presidente Dilma Rousseff comprometeu-se com dois pontos que devem, para a saúde da democracia, transcender a retórica política e se efetivarem como realidades: 1) a pátria voltada à educação; 2) a liberdade de expressão. Se essas duas pautas realmente estiverem no horizonte das prioridades de um governo, qualquer que seja, com o tempo a população começa a entender um pouco mais sobre esse complexo compromisso e movimento a que chamamos democracia.

Educar e deixar falar talvez sejam o único caminho, no longo prazo, para que os ideais republicanos, democráticos e até mesmo liberais se consolidem de forma a tornar uma população menos dependente das articulações dos governos. Sem precisar ser um estadista ou um liberal, quem sabe sendo uma terceira coisa, ainda não praticada, a oferta da instrução, do acesso ao conhecimento e a preservação do direito à fala podem dar a um povo o que poucos governos até hoje arriscaram fazer: consciência do que vem a ser um Estado. Ciente dos diferentes papéis que sedimentam a ideia de Estado, a população tende a começar entender que sem a sua participação não há governança e, consequentemente, não há Estado. Dito de maneira mais clara, o povo começa a entender a importância e força que tem.

Por isso, talvez, nossa desconfiança sempre que bandeiras dessa natureza são erguidas em discursos políticos. Na prática, a história do Brasil redemocratizado tem mostrado que nosso sistema se interessa pelo povo enquanto massa inconsciente, pois por essa razão se pode manobrá-la e se manter no controle. A instrução – que resulta na conscientização – dessa massa pode implicar um risco aos que gozam no poder (e não do poder). Até aqui, nada de novo sob o sol.

O grande salto que um governo pode dar, com os riscos que isso implica, no que concerne a um investimento efetivo em educação, é a mudança da própria ideia do que seja investir em educação. Acreditamos, por acharmos que a única pauta importante no país seja a financeira, que investir em educação seja destinar a ela uma quantidade enorme de dinheiro. Ok, não há dúvidas de que um aumento substancial de repasse de verba do orçamento para a educação faz parte da mudança de prioridades de uma administração pública. E dinheiro pode, inquestionavelmente, trazer bons resultados aos índices da educação que andam bem mal no país – um dos ministérios que fica com a maior fatia do orçamento na França é o da Educação, por exemplo. Mas, para o espanto de muitos, dinheiro não resolve todos os problemas. Por uma simples razão: ele não muda conceitos.

Se a França é um país que se orgulha de ter um dos melhores sistemas educacionais públicos do mundo e se as pessoas naquele país são de fato mais instruídas do que aqui, isso não se deve apenas à história milenar do continente europeu e à quantidade de dinheiro que no referido ministério depositam; deve-se também a diferentes concepções do que seja formar um indivíduo pelas escolas, colégios e universidades oferecidos pelos governos.

Imprensa que subestima o leitor

Que fique claro: formar não é doutrinar. Se investirmos mais e mais dinheiro na educação do Brasil sem mudarmos o conceito que temos do que seja educar, não estaremos trabalhando na direção de libertar a população das manobras e interesses dos governos. Não estaremos dando ao povo a consciência de sua participação no Estado; a percepção de uma possível autonomia. Pois isso, sabemos, só se oferece com o estímulo ao senso crítico. Sem o estímulo ao senso crítico nem mesmo a liberdade de expressão, segundo ponto destacado do discurso da presidente, liberta um povo das manobras dos governos. Dito de maneira mais clara, não se transforma a educação de uma nação com prédios e computadores, apenas.

O conceito não revisado de educação que nossos governos praticam, enriquecido à enésima potência, pode até melhorar os índices catastróficos do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), mas nos submete ao risco de vermos apenas a proliferação de mão de obra a serviço do Estado sendo produzida sob a alcunha de educação. Não podemos mais aceitar que a educação gire apenas em torno da possibilidade de não ficarmos desempregados. Sem uma maior participação e valorização das ciências humanas, por exemplo, não há projeto educacional efetivo, mas sim, uma superespecialização da mão de obra.

Sobre a liberdade de expressão, que será mais bem aproveitada se houver educação que estimule o senso crítico (sem eliminar as pessoas que não tenham formação institucional), caberá à imprensa, às empresas de comunicação e agências de notícias compreenderem o tempo e espaço em volta para, diante de um cenário otimista de educação efetiva, não serem desmentidas e derrubadas por seus próprios consumidores. Pois uma nação um pouco mais instruída não derruba instituições de poder, governos etc. da maneira previsível como acreditamos. População mais instruída não espera que o aparato, a tecnologia, a ordem ou o apoio sejam ofertados pelo aparelho midiático. Ela cria sua própria tecnologia de reação. Até mesmo porque, se ela estiver realmente instruída, perceberá sem dificuldade que a mídia provavelmente deverá ser derrotada junto com os governos e instituições que se mostrarem pouco democráticos.

Nesse cenário superotimista e “promissor” oferecido pela presidente reeleita, se os governos ultrapassarem os limites da demagogia e da retórica viciada e vazia e as empresas de comunicação não começarem a zelar urgentemente pela democracia, a autonomia de uma população mais crítica pode nos livrar da dicotomia que só faz atrofiar a inteligência de uma nação: estadista vs. liberal, e, diante da possível quebra do paradigma, fazer sucumbir também a imprensa que não se reconceitualiza e por isso subestima a capacidade do leitor.

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Cristiano de Sales é professor de Comunicação Social

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