Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

JORNAL DE DEBATES > IMPRENSA & GOVERNO

Sobre os aumentos de ônibus em SP

Por Maurício Caleiro em 06/01/2015 na edição 832

Ainda que parcial, a transformação da crítica de mídia em prática viciada de aficionados por agremiações políticas tem dificultado sobremaneira a produção de visões complexas e criteriosas acerca da atuação das empresas de comunicação no Brasil.

A análise do comportamento da mídia nas últimas eleições presidenciais, por exemplo, foi particularmente prejudicada pela ação dessa crítica ruidosa e partidária, para a qual o interesse central concentra-se no efeito mobilizador produzido pela crítica, e não no rigor analítico desta.

Porém veio à tona, por meio do trabalho do professor universitário Pablo Ortellado, um caso documentado de flagrante colaboração e de convergência de interesses entre algumas das principais publicações nacionais e uma administração petista. Trata-se, como veremos no decorrer deste artigo, de um caso que desmente de forma comprovada a visão pobremente maniqueísta que, há décadas, vem sendo alimentada por setores militantes no que concerne à relação entre mídia e petismo.

Contexto

Antes reduzida a espaços como este Observatório e a universidade, a crítica de mídia foi, no Brasil, a partir do início do século, o principal pilar de sustentação dos chamados “blogs progressistas” – até que a cooptação e a transformação destes em mera corrente de transmissão do petismo ficassem evidentes.

Em grande parte devido a esse processo, difundiu-se um tipo de crítica de mídia de mão única, que assume como partis pris uma ferrenha oposição entre mídia corporativa e governos petistas. Não que isso não tenha ocorrido – e, em boa medida, ainda ocorra: a começar da revista Veja, não faltam exemplos para embasar tal dicotomia. O problema é que, a partir de um certo momento, o automatismo da crítica a torna forte em ideologia mas frouxa em rigor analítico e metodológico.

É quando se torna recorrente, entre tais analistas, o hábito de se referir à mídia como PIG (Partido da Imprensa Golpista), rotulação que, ao assumir sempre e a priori a prática de uma grave violação ética por parte da mídia, antecipa, influencia e minimiza a importância efetiva da análise, comprometendo seu rigor; que, ao desprezar o contexto de cada fato, concede um eterno, gratuito e injustificado álibi ao governo; e que, além disso, tende a fornecer um atestado de orientação partidário-ideológica do “crítico de mídia”.

Rota de fuga

Autor de um dos melhores textos sobre as transformações na militância do PT após a chegada ao poder (ver “Lênin e a rota de fuga de petistas“), o cientista político Aldo Fornazieri considera tal processo uma das principais “rotas de fuga” do “neopetismo” (a outra seria a justificação da corrupção), por ele assim descrito:

“Consiste na sustentação da tese de que todas as acusações não passam de uma conspiração comandada pela grande mídia – o chamado Partido da Imprensa Golpista (PIG). Qualquer crítica dirigida ao partido ou ao governo, mesmo que ela venha de petistas ou de eleitores do partido, é desqualificada com adjetivos e identificada como uma ação do PIG (…) A ação penal 470 (mensalão) é uma perseguição, o governo Dilma não errou na condução da economia, a Petrobras não foi dilapidada e assaltada por grupos corruptos etc.”

Dessa forma, a convicção de que a mídia age, sempre e implacavelmente, como PIG, passa a anteceder e informar a análise, não raro à revelia da materialidade do texto. Premissa imutável, revela-se não apenas uma distorção maniqueísta a prejudicar o rigor da crítica de mídia, mas uma estratégia discursiva escapista característica do modo de ação, e de convencimento público, de uma das principais forças da política brasileira na atualidade – e aquela que se encontra no poder, e não em posição de fragilidade institucional.

Candidata e presidente

Como já apontado, as eleições presidenciais do ano passado marcaram um primeiro momento em que essa estratégia de culpabilizar a mídia, tenha ou não esta transgredido a ética, se mostrou sistematicamente abusiva. O alarido da histeria política, multiplicado pelo efeito em cascata das redes sociais – onde o petismo tem maior e mais articulada presença – praticamente impôs uma visão extremamente maniqueísta, segundo a qual Dilma Rousseff teria sido uma vítima da mídia.

Aqueles poucos analistas de mídia que procuraram se distanciar do histerismo reinante e cercar-se de metodologia rigorosa, calibrada de forma a restringir impressões pessoais e julgamentos sem base de sustentação, puderam constatar que, na verdade, a candidatura Dilma Rousseff, não obstante a má vontade de tantos colunistas e os ataques escandalosos que lhe fizeram Veja, beneficiou-se amplamente, nas manchetes dos principais jornais e dos portais – muito mais lidas do que as colunas –, de sua dupla condição de candidata e presidente.

A crítica instrumentalizada

Não foi raro ver, dias seguidos, em grandes portais de internet ou na capa do Globo, uma manchete originária do Planalto, exaltando algum feito ou obra presidencial e, embaixo, com menor destaque, em três espaços mais ou menos iguais, a repercussão de tal manchete nas duas principais candidaturas concorrentes e a eventual tréplica da candidata oficial.

Ou seja, nesses dias a candidata Dilma, por sua condição de presidente, não apenas gozou de espaço desproporcionalmente maior do que seus concorrentes, mas ditou a pauta deles. Se, como quer o petismo militante, há uma guerra entre a mídia e o partido, nessa batalha a primeira foi fragorosamente derrotada pelo marketing petista.

Mas essa história talvez só venha a ser contada em livros e publicações acadêmicas, de ordinário fora do interesse do grande público. A versão dominante, no calor da hora, com raras exceções, foi a do poderoso PIG contra a pobre candidata de esquerda – como se alguém que se alia a Maluf, Sarney, Kátia Abreu e Fernando Collor possa com tal coloração política ser associada.

Números manipulados

Agora vem à tona a divulgação acrítica e sem checagem, por órgãos como Folha de S.Paulo, O Globo e até a Veja,de “informação” segundo a qual o aumento da tarifa de ônibus na cidade de São Paulo só seria pago por 8% dos usuários do sistema – uma grossa falácia, como apontou no sábado (3/1) o professor universitário Pablo Ortellado, valendo-se de dados da SPTrans. Na melhor das hipóteses, segundo os seus cálculos, 51,2% dos usuários (mais os estudantes sem gratuidade e as empresas que bancam o Vale-Transporte) terão de arcar integralmente com o novo preço da passagem, que passou de R$ 3 para R$ 3,50 (aumento de 16,67%).

Ortellado questiona se teria sido “barriga” das publicações – relapsas em seu dever de checar informações, todas, sem exceção, mesmo ante a chamativa alegação de que apenas 8% dos usuários pagariam pelo aumento? – ou se há interesses insuspeitos que unem a administração de Fernando Haddad e as corporações de imprensa. Como, por exemplo, minimizar a reação contrária e as eventuais manifestações públicas de protesto ante um aumento maior do se esperava (em junho de 2013, o anúncio de R$ 0,20 de aumento na passagem dos ônibus da capital paulista foi o estopim para manifestações que tomaram o país).

Seja como for, o atual caso da difusão das informações falsas sobre o aumento de ônibus constitui evidência contundente de que as relações entre mídia e petismo estão longe do maniqueísmo apregoado pelos fanáticos travestidos de críticos de mídia. Afinal, o governo em questão está a cargo do petista Fernando Haddad.

Fornece, ainda, uma prova concreta de que o maniqueísmo implacável que tem perpassado a crítica partidária de mídia pode servir para angariar votos, mas não condiz com a realidade dos fatos. As publicações em questão, das mais criticadas pelo petismo, foram omissas e divulgaram como fato o que era, na melhor das hipóteses, uma jogada de marketing da prefeitura da maior cidade do país. Fizeram o jogo de Haddad. Isso é um fato. Quem quiser, após isso, continuar a acreditar na dualidade preta e branca inerente ao uso da sigla PIG, o fará por convicção pessoal, contra a realidade dos fatos.

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Mauricio Caleiro é jornalista e doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense; seu blog

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